Documento integral
Projeto de Resolução n.º 149/XVII/1.ª
Recomenda ao Governo que ative mecanismos urgentes para o acolhimento de
crianças provenientes da Faixa de Gaza em necessidade de cuidados médicos
especializados
Exposição de Motivos
A situação humanitária na Faixa de Gaza é catastrófica, com impacto devastador sobre as
crianças e jovens. De acordo com o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), desde
outubro de 2023 mais de 50.000 crianças foram mortas ou feridas em resultado direto do
conflito armado. Só entre os dias 18 de março e 27 de maio de 2025, mais de 1.300 crianças
foram mortas e quase 3.800 ficaram feridas.
A organização denuncia que estas crianças estão privadas de acesso a água, comida,
medicamentos e abrigo, enfrentando o colapso das suas comunidades e dos serviços
essenciais, configurando segundo a referida organização, uma “guerra implacável contra as
crianças”.
“Nenhuma criança, nenhum adolescente deve ser excluído dos serviços essenciais, nem ficar
fora do alcance da ajuda humanitária. Nenhuma criança, nenhum adolescente deve ser
mantido como refém ou usado de qualquer forma em conflitos armados. Os hospitais e as
escolas devem ser protegidos (...) e não devem ser utilizados para fins militares, de acordo
com o direito humanitário intern acional. Nenhuma criança, nenhum adolescente deveria
sofrer a ameaça de bombas (...)”1.
1 As crianças em Gaza precisam desesperadamente de apoio para continuar vivas
Casos como o da família Al -Najjar2, onde nove das dez crianças com menos de 12 anos
morreram num ataque aéreo, e o de uma criança presa numa escola em chamas, ilustram a
barbárie e a urgência de uma resposta internacional efetiva.
Além do apelo da UNICEF, o Coletivo Parents for Peace Portugal lançou uma petição pública3
apelando ao Governo português que responda positivamente ao pedido da Organização
Mundial da Saúde (OM S) e do Mecanismo de Proteção Civil da União Europeia, para
acolhimento de crianças gravemente feridas oriundas de Gaza.
Segundo dados disponibilizados pela plataforma do oPt Health Cluster4 (liderada pela OMS),
a gravidade da situação é comprovada pelo número elevado de evacuações médicas
solicitadas para fora da Faixa de Gaza.
De acordo com o relatório da OMS "Estimating Trauma Rehabilitation Needs in Gaza using
Injury Data from Emergency Medical Teams", publicado a 30 de julho de 2024, e mencionado
na respectiva petição, pelo menos 25% dos 22.500 feridos apresentam lesões que requerem
serviços de reabilitação imediata e continuada.5
Acrescenta a petição que “ Espanha, Itália e Bélgica já res ponderam ao pedido lançado pelo
Mecanismo de Proteção Civil da UE (MPCU) em colaboração com a Organização Mundial de
Saúde (OMS) para apoiar no transporte e assistência médica a estas crianças. Nas palavras
do Dr. Tedros Adhanom Ghebreyesus, Diretor Geral da OMS: “Estas são crianças muito
doentes que vão receber o cuidado que precisam (…) Encorajamos outros países que tenham
a capacidade e as instalações médicas a receberem pessoas que, sem terem nenhuma culpa,
foram apanhadas no meio desta guerra”.
2 'Horrores inimagináveis': mais de 50.000 crianças supostamente mortas ou feridas na Faixa de
Gaza
3 Portugal deve responder ao Pedido de Assistência da UE/OMS para tratamento médico
especializado de crianças palestinianas : Petição Pública
4 Plataforma oPt Health Cluster
5 OMS, 30 de julho de 2024
“Foram incluídas, numa lista partilhada com os Estados-Membros da União Europeia e países
parceiros,109 crianças prontas a serem transferidas para hospitais europeus”6.
A presente iniciativa fundamenta -se na necessidade imperativa de resposta humanitária à
situação extrema vivida por milhares de crianças e jovens na Faixa de Gaza, vítimas diretas de
um conflito prolongado, cuja violência tem atingido níveis inaceitáveis sob qualquer
parâmetro do Direito Internacional Humanitário.
A comunidade internacional tem a o brigação de agir perante a violação flagrante do Direito
Internacional. Até as guerras têm regras e a proteção da infância está no cerne dessas normas.
Nenhuma criança deve ser usada como escudo humano, excluída da ajuda humanitária,
impedida de receber cuidados médicos, ou sujeita a ataques contra escolas e hospitais.
Portanto, Portugal, enquanto Estado de Direito comprometido com os princípios da
solidariedade internacional, dos direitos humanos e da proteção da infância, não pode
manter-se alheio a este apelo. A Constituição da República Portuguesa consagra o direito à
saúde como um direito fundamental (artigo 64.º), conferindo às crianças especial proteção
do Estado.
Neste contexto, a presente iniciativa visa instar o Governo a tomar medidas concretas e
imediatas para responder a esta crise humanitária, reafirmando o compromisso de Portugal
com a proteção integral da infância.
Nestes termos, a abaixo assinada Deputada Única do PAN, ao abrigo das disposições
constitucionais e regimentais aplicáveis, propõe que a Assembleia da República recomende
ao Governo que:
1. Ative, com caráter de urgência, os mecanismos diplomáticos e diligências
necessárias para o acolhimento de crianças provenientes da Faixa de Gaza, em
necessidade de cuidados médicos urgentes;
6 Portugal deve responder ao Pedido de Assistência da UE/OMS para tratamento médico
especializado de crianças palestinianas : Petição Pública
2. Disponibilize, através do Serviço Nacional de Saúde, tratamento adequado das
referidas crianças, assegurando também o acolhimento de familiar acompanhante;
3. Coopere com o Mecanismo de Proteção Civil da União Europeia e demais instituições
internacionais para garantir o transporte seguro e célere das mencionadas crianças;
4. Informe regularmente a Assembleia da República sobre os avanços neste processo
e o número de crianças acolhidas;
5. Promova, com caráter de urgência, os mecanismos diplomáticos e diligências
necessárias junto do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados para
que seja conferida autorização para a retirada de crianças órfãs desacompanhadas
da Faixa de Gaza.
Assembleia da República, Palácio de São Bento, 3 de junho de 2025
A Deputada,
Inês de Sousa Real
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