Documento integral
Projeto de Resolução n.º 756/XVII/1.ª
Recomenda a gestão integrada do risco de incêndio nas áreas florestais
afetadas pelas tempestades de janeiro e fevereiro de 2026
Exposição de motivos:
A prevenção de catástrofes, por um lado, e, por outro, a preparação para lhes responder, são
basilares numa sociedade verdadeiramente resiliente. Investir em planos de prevenção,
preparação e prontidão eficazes e torná -los comuns no dia a dia das pessoas r eduz a sua
vulnerabilidade perante uma crise e dá -lhes tempo, informação e meios para se prepararem.
Uma comunidade que investe em planeamento, educação para o risco, manutenção do
funcionamento de infraestruturas e proteção dos mais frágeis consegue enfre ntar choques
sem colapsar - sejam eles um apagão de larga escala, incêndios, tempestades, ondas de
calor, entre outros - e acaba por também recuperar mais depressa quando é atingida.
Idealmente, após a ocorrência de uma catástrofe, importa restabelecer de imediato o princípio
da prevenção, de forma a mitigar os seus efeitos e a reduzir a probabilidade de novos
acontecimentos semelhantes. Em Portugal, o risco de incêndio é particularmen te elevado
durante o verão e atinge níveis extremos em períodos de seca prolongada. O risco de
incêndio é também agravado por fatores estruturais, como o abandono de vastas áreas rurais,
o despovoamento, a fragmentação da propriedade e a falta de ordenamen to florestal.
Contudo, a sua gestão deve iniciar -se obrigatoriamente vários meses antes, quando
começam a acumular -se no terreno os combustíveis que mais tarde poderão arder.
Depois das tempestades severas de janeiro e fevereiro, estimativas indicam que, por
exemplo, foram derrubadas ou partidas entre 5 a 8 milhões de árvores só em Leiria e cerca
de 20 mil em Sintra 1. Tal criou em poucas horas uma quantidade de combustível no solo que
normalmente demoraria anos a acumular e os dados indicam mesmo que pode ter -se
acumulado 50% mais material lenhoso do que o normal 2. Isto acaba por criar naturalmente
condições ideais para fogos mais intensos e de difícil combate no verão, o que agrava a
vulnerabilidade de territórios já fragilizados pelas tempestades.
Seria, pois, crucial que, logo após estas tempestades, o poder central e local atuassem
rapidamente na remoção e gestão de material lenhoso, na diminuição do risco de incêndio e
na reorganização do uso do solo, utilizando a capacidade técnica das entidades públicas, das
comunidades intermunicipais e das autarquias. Isso significa mobilizar e organizar esta
1 Tempestades derrubam milhões de árvores em Leiria e Sintra | TSF
2 Risco de incêndio florestal duplica após passagem de 'comboio' de tempestades | SIC Notícias
capacidade para rapidamente planear e proceder à redução de combustíveis em zonas
críticas, reforçar a vigilância, garantir recursos estáveis para equipas no terreno e sensibilizar
e preparar as populações continuamente, em vez de respostas episódicas.
Agir rapidamente permitirá identificar áreas críticas, identificar prioridades, remover ou
concentrar madeira em locais definidos e controlados e começar desde já a gerir combustíveis
finos, evitando que o verão venha a encontrar o território preparado para arder. Cada semana
de inação significa mais degradação da madeira comercializável, maior probabilidade de
pragas, mais dificuldade logística e financeira em organizar a resposta e, por conseguinte,
um crescente risco durante a época quente.
O Governo anunciou recentemente um apoio financeiro para proprietários florestais afetados
pela tempestade “Kristin”, destinado à remoção de árvores caídas e limpeza de terrenos,
limpeza essa que deve decorrer, na rede secundária de faixas de gestão de com bustível, até
31 de maio de 2026 nos municípios do continente e, excecionalmente, até 30 de junho nos
concelhos abrangidos por declaração de calamidade devido ao mau tempo em fevereiro 3.
Com efeito, e em termos ecológicos, é importante manter alguma madeira morta no chão,
porque ela alimenta a fertilidade do solo, conserva humidade, cria refúgio para a fauna e
favorece a regeneração natural da floresta. Noutros contextos, pode criar -se o p roblema de
se retirar madeira a mais, empobrecendo consequentemente o ecossistema. Mas no caso
atual, com milhões de árvores derrubadas numa área muito abrangente, a questão não é
tanto se se deve deixar madeira no solo, porque ela ficará inevitavelmente; o desafio é
conseguir retirar o suficiente e de forma seletiva para reduzir o risco de fogo e de pragas,
sabendo que uma quantidade significativa de madeira morta permanecerá sempre no
terreno4.
Uma das preocupações ligadas à possibilidade de pragas se espalharem num cenário como
o atual são os escolitídeos, algo já vastamente documentado, inclusivamente no Programa
de Recuperação das Matas Litorais do Instituto de Conservação, da Natureza e das Florestas
(ICNF)5. Este grupo de pequenos insetos inclui diversas espécies que atacam árvores
resinosas, como os pinheiros, e que criam galerias sob a sua casca, cortando a circulação de
seiva nos vasos condutores.
Em condições normais, estas espécies têm populações relativamente estáveis, porque as
árvores conseguem repeli -los, produzindo resina. No entanto, quando há grandes áreas de
pinhal derrubadas ou enfraquecidas por tempestades e incêndios, essa barreira natu ral
desaparece. Os insetos fazem as suas posturas nos troncos caídos e multiplicam -se
rapidamente, passando de uma presença endémica a um problema epidémico. Numa
situação como esta, o que não caiu com a tempestade pode acabar por morrer devido a um
ataque massivo de escolitídeos, havendo ainda o risco de associação com outras pragas,
como o nemátode do pinheiro. Esta possibilidade mais do que provável reforça a urgência
em gerir e retirar a madeira no solo o mais rapidamente possível, sobretudo em povoamentos
de pinheiro.
3 Governo prolonga prazo para limpeza de terrenos em municípios abrangidos por declaração de calamidade | SIC Notícias
4 António Salgueiro: “Há milhões de árvores no chão. É impossível limpar tudo” | Público
5 Programa de Recuperação das Matas Litorais - Monitorização e controlo de problemas fitossanitários
Uma intervenção decisiva nas primeiras semanas pós -tempestade teria sido essencial para
organizar as instituições e alinhar proprietários privados, municípios e administração central
para a concretização de um plano claro.
É, no entender do LIVRE, compreensível que o Estado não tenha capacidade logística,
humana ou financeira para retirar todo o material lenhoso deixado pelas tempestades e
incêndios, especialmente numa área tão vasta como os cerca de 30 mil hectares que terã o
sido afetados. Os recursos públicos são limitados face à escala do problema e colocar toda
a responsabilidade no Estado seria ineficiente e dispendioso, desviando fundos de outras
prioridades como prevenção e vigilância. É por isso que o LIVRE considera que o sector
privado pode e deve ter um papel relevante na intervenção mais rápida e servindo o seu
próprio interesse.
No caso da Mata Nacional de Leiria, o Governo, através do ICNF, deve promover vendas de
lotes da madeira nas áreas afetadas com a maior celeridade possível, utilizando processos
técnicos e administrativos expeditos, de forma a que as empresas retirem o mat erial e
paguem um preço justo pelo peso retirado antes da sua degradação, e de forma a permitir
em tempo útil que esta entidade proceda a intervenções destinadas à redução dos
combustíveis finos remanescentes para diminuição do risco de incêndio antes do p eríodo
estival. Os lotes devem ser publicitados nos canais públicos do ICNF, com prazos curtos para
remoção, transformando todo este material lenhoso num ativo partilhado entre público e
privado e garantindo intervenção imediata sobre os combustíveis finos para redução do risco
de incêndio.
Por outro lado, o Estado deve promover a criação de parques de salvados para que os
proprietários privados possam entregar a madeira afetada pelas tempestades, garantindo a
sua conservação e qualidade até à venda ou transformação industrial. Estes espaços
centralizam o material lenhoso, evitam a sua degradação no terreno, como a perda de peso
e valor, reduzem riscos de pragas e incêndios e aliviam a pressão logística sobre o Estado,
que não tem capacidade para intervir em todos os terrenos. Um modelo de fin anciamento
partilhado entre o sector público e privado valoriza economicamente o recurso, incentiva a
participação privada, criando as condições para evitar degradação e depreciação da madeira,
e regula a sua utilização a médio prazo, em função das necessi dades dos operadores que,
após este excesso de oferta, poderão deparar -se com uma forte deficiência de matérias -
primas.
Mas tão importante como a gestão operacional e logística do pós -evento é garantir a
cooperação entre entidades. Nenhuma instituição por si só tem a capacidade logística,
técnica ou territorial para gerir milhões de árvores caídas, pragas iminentes e o risc o de fogo
que se acumula. O diálogo permanente e a partilha de dados entre o Instituto da Conservação
da Natureza e das Florestas, a Direção-Geral do Território, a Agência para a Gestão Integrada
de Fogos Rurais, a Autoridade Nacional de Emergência e Prote ção Civil, a Guarda Nacional
Republicana, as comunidades intermunicipais e os municípios têm de ser promovid os e
organizados para promover o máximo de colaboração na gestão, de forma integrada e
participativa, dos riscos florestais, articular o planeamento territorial e dar a resposta
operacional coordenada de apoio aos agentes locais e às populações em situações de
calamidade, evitando duplicações.
Com efeito:
● Os Gabinetes Técnicos Florestais dos municípios e das comunidades intermunicipais
são essenciais para calibrar no terreno as ações de gestão pós -desastre, incluindo a
validação do grau e perímetro de afetação, desobstrução de vias e priorização de
intervenções;
● As plataformas digitais do ICNF já oferecem a infraestrutura de base necessária para,
com as necessárias adaptações, permitirem a comunicação e registo simplificado de
informação, nomeadamente para que os técnicos que estão no terreno carreguem e
validem dados em tempo real, integrando a cartografia produzida pela DGT com base
em informação LiDAR ( Light Detection And Ranging )6 e informação de satélites, e
procedam à caracterização física das situações.
Por outro lado:
Sem uma coordenação real ao nível das Comissões Sub -regionais de Gestão Integrada dos
Fogos Rurais, o potencial dos técnicos municipais e intermunicipais de reconhecimento do
terreno será subaproveitado, transformando um problema partilhado numa sucessão d e
respostas isoladas e ineficazes. Para maximizar esta capacidade, é urgente mobilizar e
fortalecer as Comissões Sub -regionais, reunindo todos estes agentes num espaço de
coordenação e de intercâmbio formal e regular. Esta estrutura sub -regional permite al inhar
esforços e potenciar a colaboração interinstitucional, evitando desperdícios de tempo e de
esforços e aproveitando o potencial destes técnicos e entidades numa resposta integrada e
territorialmente calibrada por quem conhece e trabalha nos território s e diretamente com as
populações, para eficazmente reduzir riscos de incêndio e pragas.
Mas mais: importa também compreender a viabilidade da utilização de outras técnicas para
reduzir a carga combustível, como é o caso do fogo controlado. Esta é uma técnica prevista
no Programa Nacional de Ação, aprovada através da Resolução do Conselho de M inistros
n.º 71-A/2021, de 8 de junho, no Objetivo 2.2: “Diminuir a carga de combustível à escala da
paisagem”. Dentro deste, encontram -se ainda como sub -objetivos a promoção da técnica do
fogo controlado, a dinamização e melhoria das ações de comunicação sobre o fogo
controlado, a execução de ações de fogo controlado à escala da paisagem, através de novas
técnicas7.
A realidade é que esta é uma ferramenta estratégica que pode ser utilizada para reduzir a
carga de combustíveis finos como a acumulada após as tempestades de fevereiro, de uma
forma planeada e segura, alterando a estrutura vertical do terreno, diminuindo a quantidade
total de combustível disponível e mesmo promovendo a germinação natural de espécies
autóctones e a sua viabilidade, remetendo apenas para plantações e/ou sementeiras as
situações em que a germinação natural não ocorra.
A prática do uso do fogo é condicionada por diversos fatores, como a) a meteorologia e a
fenologia da vegetação, b) a preparação das parcelas, c) o regime de propriedade e as
autorizações necessárias para a intervenção com fogo, d) a disponibilidade dos técnicos para
aproveitar as melhores condições ambientais para o uso do fogo, e) a disponibilidade de
meios e recursos para a execução, condução e acompanhamento de todo o processo de
queima, em particular a disponibilidade das equipas de apoio e supressão e f) a
6 Levantamento LiDAR de Portugal Continental | Direção-Geral do Território
7 Programa Nacional de Ação do Plano Nacional de Gestão Integrada de Fogos Rurais 20 -30 (pág. 65)
disponibilidade de recursos financeiros apropriados para o desenvolvimento de cada uma das
fases do fogo controlado 8.
É, por tudo isto, natural que esta técnica desperte alguma apreensão na opinião pública, pelo
que importa que rapidamente se identifique a viabilidade e as necessidades operacionais e
processuais para a aplicação de fogo controlado para gestão da carga com bustível
acumulada pós -tempestades, para que ainda haja tempo para o aplicar.
Assim, ao abrigo das disposições constitucionais e regimentais aplicáveis, o Grupo
Parlamentar do LIVRE propõe à Assembleia da República que, através do presente
Projeto de Resolução, delibere recomendar ao Governo que:
1. Instrua o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas, I.P. para que
determine os termos e publicite, até dia 5 de abril, a venda da madeira derrubada e
afetada durante as tempestades de janeiro e fevereiro, nas matas nacionais, para
tanto:
a. levando a cabo processos expeditos de contabilização e de ressarcimento aos
proprietários do material retirado;
b. anunciando publicamente quais são os lotes georreferenciados e as datas em
que este material lenhoso tem de ser retirado, bem como outras informações
relevantes que permitam um processo simples e sobretudo expedito;
2. Instrua o Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária, I. P. para, em
parceria com o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas, I. P. e entidades
académicas dedicadas, que crie e implemente um sistema de rastreio e monitorização
e controlo de pragas que permita evitar e antecipar surtos de escolitídeos e outras
pragas ou associações de pragas e a intervir para a sua mitigação;
3. Mobilize, de forma imediata, através da Agência para a Gestão Integrada de Fogos
Rurais, I.P. que as coordena, as Comissões Regionais e Sub -regionais de Gestão
Integrada dos Fogos Rurais como estruturas permanentes de cooperação e
coordenação, criando as condições técnicas para a partilha de informação entre elas,
clarifique a repartição das suas competências e responsabilidades, e assegure a sua
articulação regular com os municípios, os corpos de bombeiros, as forças de
segurança, o Instituto da Conservaçã o da Natureza e das Florestas, , I. P., a
Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil, a Guarda Nacional Republicana
e demais entidades do Sistema de Gestão Integrada de Fogos Rurais;
4. Identifique, até dia 5 de abril, os fatores limitantes para aplicação de fogos controlados
para a gestão dos resíduos de exploração e de outros contextos em que é necessário
reduzir o risco de incêndio das áreas afetadas pelas tempestades de janeiro de
fevereiro e proponha soluções para a sua efetiva aplicação;
5. Defina, no âmbito do número anterior, procedimentos para maximizar a colaboração
entre entidades, nomeadamente através da possibilidade de utilização dos recursos
e processos previstos no âmbito do Dispositivo Especial de Combate a Incêndios
Rurais, para a implementação de ações de fogo controlado, ou outras medidas que
8 Estudo Técnico: O Uso do Fogo em Portugal – tradição e técnica (pág. 90) | Observatório Técnico Independente para
análise, acompanhamento e avaliação dos incêndios florestais e rurais que ocorram no território nacional
sejam identificadas pelos representantes das entidades da Comissão Nacional de
Gestão Integrada de Fogos Rurais.
Assembleia da República, 26 de março de 2026
As Deputadas e os Deputados do LIVRE
Paulo Muacho Filipa Pinto
Jorge Pinto Patrícia Gonçalves
Rui Tavares Tomás Cardoso Pereira
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