Documento integral
Projeto de Resolução n.º 202/XVII
Recomenda ao Governo que proceda às diligências necessárias à reativação da fileira da
lã
Exposição de motivos
A nível mundial, em 2022, o número de ovelhas era de 1296 milhões, representando um
aumento de cerca de 8,65 milhões face a 2021, quando o efetivo era de 1,2 mil milhões.
A Austrália e a China lideram como os países com maior efetivo ovino. No mesmo ano
de 2022 a produção mundial de lã "suja" foi de 1977 milhões de kg -um aumento de
1,7% em relação a 2021 - sendo a produção mundial de lã em peso limpo de 1051,2
milhões de kg.
A Austrália destaca-se como o principal fornecedor e maior exportador de lã do mundo,
respondendo por 39% das exportações globais e liderando a produção de lã superfina e
extrafina. Em 2021, o valor comercial da lã exportada da Austrália para a China foi de
cerca de 1,9 mil milhões de dólares. Embora a China seja o segundo maior produtor
mundial de lã, é també m o maior importador, dominando 66% do mercado
internacional.
A produção ovina nacional, quando comparada com a produção mundial, é marginal: de
acordo com dados do INE, no período de 2019 a 2022, o efetivo médio ovino em Portugal
foi de 2 284 000 e a produção de lã foi de 5 575 000 kg. Em 2023 o efetivo foi de 2 217
000 animais. As raças autóctones portuguesas são 16 e, conforme informação publicada
pela DGAV 1 -com elementos de 2018 para umas raças e de 2019 para outras - o seu
efetivo é de cerca de 107400 ovelhas e 5400 carneiros e o número de explorações com
raças autóctones é de 1322.
1 https://www.dgav.pt/animais/conteudo/recursos-geneticos-animais/racas-autoctones/ovinos/
O efetivo ovino em Portugal, por falta de disponibilização atempada de vacina contra a
Febre Catarral Ovina ou Doença da Líng ua Azul , sofreu uma redução direta pela
mortalidade, estimada de 80 e 100 mil animais e indireta com reflexos na reposição dos
efetivos, pela enorme taxa de abortos e pela morbilidade d os efetivos. Esta matéria foi
abordada no PJR n.º424/XVI/1.ª(PS) “Campanha de vacinação do Efetivo Ovino Nacional
contra a doença Língua Azul - Serotipo3 e criação de medidas de apoio”
A ovinicultura apresenta -se como uma mais valia nas regiões do interior, onde
predominam solos com baixa aptidão agrícola, sendo a pastorícia fundamental para a
manutenção da vitalidade das comunidades rurais, não só de forma direta pela
valorização dos seu s produtos -leite, carne e lã - como também pelos contributos
ambientais: sequestro de carbono, controlo da erosão, melhoria da qualidade da água,
preservação e promoção da biodiversidade, manutenção de paisagens abertas e de
habitats naturais, regulação de cheias e controlo de incêndios.
Nos últimos anos a exploração de ovinos e caprinos em Portugal tem vivido sob enorme
pressão: por um lado com sucessivos aumentos dos custos de produção, dificuldades no
escoamento dos produtos, falta de mão-de-obra especializada -por ex. de tosquiadores-
, complexidade administrativa e demasiados controlos e, por outro lado, sem o
correspondente acompanhamento da valorização da carne, leite ou, particularmente,
da lã.
Todas as ovelhas devem ser tosquiadas pelo menos uma v ez por ano, idealmente por
tosquiadores experientes, sendo a tosquia é uma prática indispensável na exploração
ovina, tanto por razões de conforto e bem -estar animal , quanto por questões de
sanidade. Tradicionalmente realizada nos meses de abril e maio, a tosquia alivia o calor
dos animais no verão e previne a infestação por ácaros e outros parasitas. Em Portugal,
cada ovelha fornece em média de 2,5 a 3,0 kg de lã por ano, o que corresponde a mais
de 5 metros de tecido.
Inicialmente, a lã é avaliada na sua forma mais bruta, conhecida como lã "suja". Após a
limpeza e remoção da lanolina, é chamada de lã "limpa". Dependendo da espessura e
de outras características como comprimento e ondulação das fibras, a lã pode ser usada
para diferentes fins: a lã muito fi na é destinada principalmente à fabricação de roupas,
enquanto a lã mais grossa é utilizada para tapeçaria e artigos de decoração.
O crescimento populacional e a urbanização crescente são fatores que impulsionam o
mercado do têxtil. O aumento da produção de fibras têxteis tem sido constante ao longo
das últimas décadas. Os derivados dos combustíveis fósseis, com predomínio do
poliéster, representam atualmente (2023) 67% do total do mercado global das fibras e
a sua preponderância, intimamente relacionada com o crescimento do mercado da fast
fashion, não pára de aumentar. O lugar ocupado pela lã neste mercado tem, por outro
lado, decrescido de ano para ano, representando em 2023 apenas 0.8% do mercado
global (1.06 milhões de toneladas de lã limpa em 2023 contra 1.34 milhões de toneladas
em 2000).
Segundo a IWTO, 50% do peso da lã é carbono orgânico puro. Além disso, as suas
propriedades de material de excelência pelo isolamento térmico, resistência e
durabilidade explicam a importância histórica desta fibra. O decréscimo do seu peso no
mercado global e o crescimento explosivo da produção de fibras sintéticas contrariam o
imprescindível caminho a fazer rumo a uma maior sustentabilidade do sector têxtil.
Entre nós, e tal como se verifica em toda a Europa, a produção de lã, enfrenta enormes
desafios. Estima-se que até 60% da lã produzida no continente europeu não entre na
cadeia da produção têxtil, sendo abandonada ou diretamente encaminhada para aterros
sanitários. Para Portugal, dos cerca de 5.5 milhões de tone ladas de produção anual
estimada, desconhece-se que percentagem chega efetivamente a ser processada pela
indústria. O que é certo é que vivemos uma conjuntura de acentuada desvalorização,
que se acentuou abruptamente com a interrupção das exportações de lãem bruto para
a China a partir de 2021, tendo os valores por Kg pagos ao produtor descido nos últimos
anos até aos 0,0€/kg.
Contudo, entre nós, isso não se verifica: a produção de lã, enfrenta talvez o maior
desafio de todos, uma vez que a sua exploração sofreu um enorme revés, sobretudo por
baixos preços de compra da matéria-prima e falta de mão-de-obra e desde 2019, que o
preço da lã em Portugal tem caído, passando de valores médios de 0,90€/kg para os
atuais 0,0€/kg.
Para os agricultores portugueses, a tosquia tornou-se um problema devido ao custo da
operação e à falta de mão -de-obra especializada (1,8 a 2,3 €/ovelha, dependendo da
dimensão do rebanho e da localização geográfica), à logística necessária para armazenar
a lã, já que não há compradores. A l ã deixou de ser uma fonte de rendimento para se
tornar um resíduo incómodo e caro. Para a esmagadora maioria dos produtores a lã gera
prejuízo, sendo comum o seu abandono nos campos por falta de comprador. Esta
situação é particularmente gravosa no caso de várias das nossas raças autóctones mais
ameaçadas, cuja sobrevivência assenta na perseverança de criadores com rebanhos de
pequena dimensão, localizados em regiões periféricas relativamente aos centros de
transformação laneira, e para os quais a possibili dade de venda da lã a um preço justo
constitui um incentivo ao não-abandono da atividade.
A impossibilidade de escoar esta matéria -prima por valores minimamente atrativos é
parte de um c írculo vicioso que urge interromper, que pode ser resumido da seguinte
forma: (i) a lã desvaloriza e gera prejuízo; (ii) os criadores não investem na qualidade da
lã; (iii) a lã perde qualidades; (iv) a lã desvaloriza e gera prejuízo.
Em 2017 foi criado o Centro de Competências para a Lã, que tem um vasto conjunto de
objetivos como a promoção da competitividade da fileira da lã, a promoção do aumento
de produção de lã e criação de produtos transformados com maior valor acrescentado,
ou ainda, entre outros, contribuir ativamente para a definição de uma agenda de
investigação aplicada à fileira da lã. Contudo por enquanto, não se conhecem resultados
dos trabalhos desenvolvidos.
Nos últimos anos, algumas associações de produtores com maior envergadura (ACOS,
ANCORME e OVIBEIRA) têm investido na procura de soluções para o problema da lã
através da realização de contrastes lanares (que permitem a obtenção de informação
acerca da qualidade das lãs), prestação de serviços de tosquia aos seus associados
(através da contratação de tosquiadores especializados de origem estrangeir a) e
concentração de lãs nas suas instalações. Estas iniciativas, que são a base indispensável
do trabalho por fazer de valorização das lãs nacionais, permitem o escoamento de
alguma matéria-prima para sectores têxteis de nicho mas não são ainda suficientes para
compensar a maioria dos criadores.
Não existe no nosso país qualquer tipo de certificação que permita disponibilizar, aos
operadores têxteis, lãs inteiramente rastreáveis e garantidamente de origem nacional.
No entanto, há indicadores que mostram uma crescente procura por parte do sector da
moda e do design por lãs certificadas, tanto ao nível do bem -estar animal como da
origem geográfica ou do modo de produção. As lãs certificadas são, aliás, as únicas que,
a nível internacional, têm registado um au mento na procura, em contraciclo com o
panorama geral exposto acima. Temos empresas portuguesas de nicho com exposição
no estrangeiro a valorizar os seus produtos com base na origem das lãs que usam (Burel
Factory, Rosa Pomar, etc.). No entanto, a inexistê ncia de certificações, além de
desresponsabilizar a cadeia de produção, afasta clientes internacionais de vulto, que
exigem transparência e garantias que a lã portuguesa neste momento não oferece.
A lã é um produto que percorre o mundo, podendo ser lavada na Eslováquia, penteada
na Turquia ou fiada em Marrocos. Além dos custos de transporte e das emissões de CO2
associadas, a lã perde competitividade em relação às fibras sintéticas pelo que a
realização destes processos em Portugal poderá contribuir para a sustentabilidade do
setor e deixar de depender da procura dos grandes importadores mundiais e vender um
produto com maior valor acrescentado.
A sobrevivência do nosso sector de lanifícios em toda a cadeia produtiva, da produção
ovina à moda e ao design, pa ssando pela lavagem, penteação, fiação e tinturaria,
permite que no nosso país se possam produzir lanifícios de alta qualidade com uma
pegada ecológica mínima graças às curtas distâncias necessárias para ir da matéria -
prima ao produto final. A pecuária ass ente no pastoreio extensivo, a promoção e
proteção das raças ovinas autóctones e os serviços ecológicos prestados pelos criadores
que se lhes dedicam, aliados ao know -how detido pela nossa indústria e vitalidade do
nosso sector criativo, contribuem para a possibilidade de gerar produtos de alta
qualidade e em harmonia com objetivos de sustentabilidade. Para que este cenário se
torne realidade é necessário trabalhar no sentido da articulação entre os sectores
produtivo, transformador e criativo através de ap oios promotores de boas práticas,
investigação e certificação.
Face ao exposto, espera-se que o Governo proceda à resolução dos problemas que
afetam a fileira da lã com intervenções nas diversas etapas do processo.
Assim, ao abrigo das disposições regimentais e consƟtucionais aplicáveis, os Deputados
abaixo-assinados do Grupo Parlamentar do ParƟdo Socialista apresentam o seguinte
projeto de resolução:
A Assembleia da República resolve, nos termos do disposto do n.º 5 do arƟgo 166.º da
ConsƟtuição da República Portuguesa, recomendar ao Governo que:
1. Crie incentivos à reativação das Indústrias ligadas à Fileira da lã;
2. Crie incentivos ao Centro de Competências para a Lã para que apresente
propostas de certificação das lãs nacionais, com ênfase nas lãs de raças
autóctones;
3. Crie incentivos ao Centro de Competências para a Lã por forma a que desenvolva
uma campanha de promoção da lã nacional como matéria -prima ecológica e
sustentável;
4. Crie incentivos para associações de produtores direcionados para o
melhoramento e a valorização das lãs, em especial das raças autóctones mais
ameaçadas;
5. Proceda, através do INIAV e da CCDR Alentejo ao reforço da investigação
aplicada, financiando projetos que tragam inovação à cadeia produtiva, bem
como ao reforço da transferência e da partilha do conhecimento na fileira da lã;
6. Disponibilize dados estatísticos fidedignos, em colaboração com as entidades
estatísticas nacionais, relativos à lã ao longo de toda cadeia produtiva;
7. Crie cursos de Tosquiadores, em colaboração com as associações de produtores
e através do IEFP.
Palácio de São Bento, 23 de julho de 2025
As Deputadas e os Deputados,
Eurico Brilhante Dias
Júlia Rodrigues
Pedro do Carmo
Luís Graça
Abrir texto oficial