Documento integral
Projeto de Resolução n.º 528/XVII/1.ª
Recomenda a criação de um programa nacional de distribuição de
kits de emergência
Exposição de motivos:
A preparação individual e coletiva para situações de emergência deixou de ser uma opção
teórica para se tornar uma condição prática de segurança e de resiliência democrática. A
experiência recente demonstra que crises muito distintas — desde fenómenos
meteorológicos extremos a falhas massivas de energia ou incidentes tecnológicos — podem
interromper, em poucos minutos, o acesso a eletricidade, comunicações, transportes e
serviços essenciais, deixando milhões de pessoas dependentes de uma resposta institucional
organizada para evitar deixar a população afetada à mercê d a sua capacidade de
organização e dos recursos que consigam mobilizar.
Por um lado, temos um contexto internacional atual marcado por uma transformação profunda
e acelerada. A Europa enfrenta uma guerra híbrida, desencadeada pela invasão da Ucrânia
pela Rú ssia, que trouxe consigo ameaças complexas à segurança e à estabilidade
europeias1. Nos últimos meses, multiplicaram -se incidentes com drones não identificados
sobre infraestruturas críticas e zonas aeroportuárias em vários Estados Membros, levando
mesmo a o fecho temporário de aeroportos e à interrupção de operações de voo, o que
evidencia uma nova dimensão de vulnerabilidade no espaço aéreo europeu. Estes episódios
ilustram a crescente exposição das infraestruturas civis a ações hostis ou disruptivas,
exigindo uma resposta coordenada, tecnológica e regulatória à escala europeia2.
Por outro, temos as alterações climáticas a intensificar fenómenos extremos como cheias,
secas, incêndios florestais e tempestades severas. A recente depressão Kristin foi
classificada como um evento climático extremo, associando chuva intensa, rajadas de vento
1 Algo perigoso está a acontecer nos céus da Europa: incursões de drones aumentam tensão com Moscovo
2 Textos aprovados - Resposta unida às recentes violações, por parte da Rússia, do espaço aéreo e de infraestruturas críticas
de Estados-Membros da UE - Quinta-feira, 9 de Outubro de 2025
muito fortes e fenómenos como uma ciclogénese explosiva 3, e provocou milhares de
ocorrências, estradas cortadas, linhas ferroviárias suspensas, danos em hospitais, falhas nas
redes de telecomunicações e centenas de milhares de pessoas sem eletricidade, deixando
inoperacionais centenas de quilómetros de linhas elétricas e afetando infraestruturas críticas
em vários pontos do território nacional4, o que levou o Governo a decretar, na manhã do dia
seguinte, o estado de calamidade nas zonas mais afetadas5.
E não esqueçamos fenómenos isolados, como o apagão ibérico de 28 de abril de 2025 que
demonstrou a vulnerabilidade das redes energéticas interligadas. Em poucos minutos,
Portugal continental ficou às escuras, com metro, comboios, semáforos, redes móveis e
diversos serviços essenciais seriamente perturbados, numa falha que atingiu milhões de
pessoas em toda a Península Ibérica e chegou a afetar o sudoeste de França 6. A dimensão
e o caráter súbito deste apagão, cujas causas exatas estão a ser objeto de investigação pelas
autoridades reguladoras e operadores de rede7, tornaram evidente a dependência crítica de
sistemas elétricos e digitais complexos e interdependentes.
Estes três exemplos recentes mostram que a Europa e Portugal enfrentam hoje um espectro
alargado de riscos, que combinam ameaças híbridas, crises climáticas e falhas sistémicas
em redes essenciais. Em todos estes casos, os impactos sobre a vida quotidiana das
populações, a continuidade dos serviços públicos e a segurança das infraestruturas revelam
a importância de reforçar a prevenção, a resiliência e a capacidade de resposta rápida em
situações de crise.
Neste cenário, a Estratégia da União Europeia para uma União da Preparação8 propõe uma
mudança de paradigma: da reação à prontidão proativa. Esta estratégia promove uma cultura
de resiliência e preparação transversal, envolvendo todos os setores da sociedade e todos
os níveis de governação, com foco na proteção das infraestruturas críticas, na gestão de
riscos climáticos e tecnológicos e na capacitação das populações. Entre as medidas
recomendadas, destaca se a promoç ão da autossuficiência da população durante pelo
menos 72 horas, através da aquisição de kits de emergência adequados a falhas de energia,
interrupções de comunicações e fenómenos meteorológicos extremos, bem como o reforço
dos sistemas de alerta precoce e das campanhas de sensibilização pública. Segundo esta
3 Ciclogénese explosiva, sting jet e rajadas extremas: como uma conjugação de fenómenos transformou uma noite de inverno
numa emergência nacional - CNN Portugal
4 Este é o verdadeiro impacto da depressão Kristin em Portugal - CNN Portugal
5 Governo decreta situação de calamidade para as áreas afetadas pela tempestade Kristin - Expresso
6 Após apagão geral, rede elétrica "está perfeitamente estabilizada", afirma REN | Euronews
7 https://www.erse.pt/media/0mvf005i/ersexplica-apag%C3%A3o-abril-2025.pdf
8 Preparação - Comissão Europeia
estratégia, os referidos kits de emergência devem conter os seguintes itens: água potável,
alimentos não perecíveis para 3 dias; um rádio portátil, lanterna, pilhas de reserva e um
powerbank carregado; um estojo de primeiros socorros e produtos de higiene pessoal; velas,
fósforos, cópias de documentos importantes e dinheiro em numerário num saco impermeável;
agasalhos, impermeáveis e cobertores térmicos. Vários Estados Membros já avançaram
com iniciativas concretas, como a distribuição de materiais informativos à população, a
realização de exercícios de preparação civil e a adoção de planos nacionais de gestão de
riscos climáticos e tecnológicos.
O LIVRE considera que um país prevenido é um país mais resiliente e atento às necessidades
dos seus cidadãos. Por isso, defende que Portugal deve alinhar se plenamente com esta
estratégia europeia, implementando um programa nacional de distribuição de kits de
emergência, acessível a todos os agregados familiares residentes, acompanhado de ações
de sensibilização e formação para diferentes cenários de crise.
Assim, ao abrigo das disposições constitucionais e regimentais aplicáveis, o Grupo
Parlamentar do LIVRE propõe à Assembleia da República que, através do presente
Projeto de Resolução, delibere recomendar ao Governo que:
1 - Crie, através de despacho conjunto do membro do Governo responsável pela área
da defesa e do membro do Governo responsável pela área da proteção civil, um
programa de distribuição nacional de kits de emergência doméstica para gestão de
crises.
2 - Distribua kits de emergência doméstica dotados dos bens essenciais, tal como
previstos na Estratégia da União Europeia para uma União da Preparação, assegurando
a preparação da população e resiliência da sociedade portuguesa para situações de
risco e ameaça, nomeadamente, catástrofes naturais ou de origem humana, ameaças
híbridas e crises geopolíticas.
3 - Promova a realização de ações de sensibilização para a população em geral e
simulacros de definição de atuação em situações de risco e ameaça, como as referidas
no número anterior.
Assembleia da República, 30 de janeiro de 2026
As Deputadas e os Deputados do LIVRE
Isabel Mendes Lopes Filipa Pinto
Jorge Pinto Patrícia Gonçalves
Paulo Muacho Rui Tavares
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