Documento integral
Projeto de Resolução n.º 807/XVII
Recomenda ao Governo que desenvolva esforços para a promoção de
uma transição política, democrática e pacífica na Venezuela e para a
restauração do Estado de Direito no país
Exposição de motivos
O Partido Socialista tem afirmado, com toda a clareza, uma posição de princípio:
nenhuma intervenção militar deve ocorrer de forma unilateral e à margem do
Direito Internacional.
Qualquer ação dessa natureza deve respeitar o Direito Internacional e os
princípios consagrados na Carta das Nações Unidas. O enfraquecimento das
instituições multilaterais fragiliza os mecanismos de p revenção e resolução de
conflitos, contribuindo para um ambiente internacional mais volátil e imprevisível.
Defender este princípio não implica, de modo algum, validar regimes como o
venezuelano. É justamente isso que tem distinguido a posição do Partido
Socialista das demais forças políticas: a crítica a ações unilaterais é plenamente
compatível com a condenação inequívoca do regime liderado por Nicolás
Maduro. Do mesmo modo, a condenação desse regime não pode servir de
fundamento para legitimar ações externas à margem do Direito Internacional.
Trata-se de um regime marcado por ausência de legitimidade democrática,
graves irregularidades eleitorais e violações sistemáticas dos Direitos Humanos.
As eleições presidenciais de julho de 2024 foram amplamente con testadas por
observadores internacionais, tendo sido denunciadas irregularidades graves,
falta de transparência e ausência de garantias democráticas, não refletindo de
forma credível a vontade popular.
No âmbito desse processo eleitoral, verificou-se uma intensificação da repressão
sobre a oposição política, a sociedade civil e os cidadãos que contestaram os
resultados, incluindo detenções arbitrárias, desaparecimentos forçados e uso
excessivo da força por parte das autoridades.
Em consequência desses acont ecimentos, o Governo português não
reconheceu os resultados eleitorais na Venezuela, posição que o Partido
Socialista secundou desde a primeira hora. Aliás, sobre esta matéria, o Partido
Socialista posicionou-se de forma clara antes e depois do ato eleitoral:
i) Através do Projeto de Voto n.º 111/XVI, condenando a exclusão de
Corina Machado do processo eleitoral e os atentados aos direitos
fundamentais, manifestando preocupação com o processo eleitoral e
apelando à realização de eleições livres, justas e transparentes, em
cumprimento do Acordo de Barbados e com participação de
observadores internacionais, incluindo da União Europeia;
ii) Após as eleições, através do Projeto de Voto n.º 242/XVI, criticando a
forma como decorreu o processo eleitoral, manifestando profunda
preocupação face aos resultados divulgados, apelando a que a
verdade eleitoral correspondesse à vontade do povo venezuelano e
defendendo total transparência do processo, incluindo a divulgação
integral das atas eleitorais.
No final de 2024, o Partido Socialista foi um dos proponentes dos textos que
estiveram na origem d a Resolução da A ssembleia da República n.º 107/2024,
recomendando ao Governo que não reconhecesse Nicolás Maduro como
vencedor das eleições enquanto não fossem divulgadas, de forma transparente,
as atas eleitorais e realizada a respetiva auditoria.
Apesar de alguns desenvolvimentos recentes terem gerado expectativas na
comunidade internacional quanto à possibilidade de abertura de um novo cicl o
político, a verdade é que a situação na Venezuela continua a suscitar profunda
preocupação, permanecendo uma crise simultaneamente política, institucional,
económica e social.
Parte muito significativa da população continua a viver em condições de pobreza
e sem acesso adequado a bens essenciais, enquanto os desenvolvimentos mais
recentes apontam para um contexto político ainda marcado por instabilidade,
persistência de estruturas repressivas e ausência de sinais credíveis de uma
transição democrática inclusiva e sustentada.
Ao contrário de leituras excessivamente otimistas que chegaram a emergir em
determinados momentos, o Partido Socialista tem mantido uma posição
prudente quanto à evolução do contexto venezuelano. O afastamento de Corina
Machado de uma s olução política e as três fases do plano anunciado pelos
Estados Unidos a 7 de janeiro reforçam as dúvidas quanto à centralidade efetiva
da transição democrática nas prioridades externas em relação ao país.
O Partido Socialista defende, hoje como antes, qu e a superação da crise
venezuelana só poderá ocorrer através de uma solução política, pacífica e
negociada, assente num diálogo inclusivo entre as partes, com vista à realização
de eleições livres, transparentes e credíveis. Essa é a única via sustentável para
restaurar a legitimidade democrática e assegurar estabilidade institucional
duradoura.
Neste contexto, é fundamental que Portugal, enquanto membro da União
Europeia e das Nações Unidas, contribua ativamente, no plano bilateral e
multilateral, para um a resposta internacional coordenada, baseada no diálogo,
na mediação e na promoção de condições efetivas para a realização de eleições
livres, tão brevemente quanto possível.
Assim, ao abrigo das disposições regimentais e constitucionais aplicáveis, as
Deputadas e os Deputados abaixo-assinados do Grupo Parlamentar do Partido
Socialista apresentam o seguinte projeto de resolução:
A Assembleia da República resolve, nos termos do disposto do n.º 5 do artigo
166.º da Constituição da República Portuguesa, recomendar ao Governo que:
1. Pugne, no plano bilateral e multilateral, pela promoção de uma transição
assente numa solução política pacífica, democrática e negociada para a
crise na Venezuela, conduzida pelos venezuelanos, em respeito pelo
Direito Internacional , através da realização de eleições livres, justas,
transparentes e credíveis, com plena garantia de participação de todas as
forças políticas;
2. Apoie e assuma a liderança de iniciativas internacionais de mediação e
diálogo que visem a restauração do Estad o de direito e das instituições
democráticas na Venezuela, defendendo o fim das detenções arbitrárias;
3. Contribua, no plano bilateral e multilateral, para uma resposta
internacional coordenada à crise humanitária vivida na Venezuela,
promovendo o acesso da população a bens essenciais e ao necessário
apoio humanitário;
4. Reafirme o compromisso de Portugal com a defesa do Direito
Internacional e da Carta das Nações Unidas, rejeitando ações militares
unilaterais realizadas à margem do Direito Internacional e dasinstituições
multilaterais.
Palácio de São Bento, 31 de março de 2026
As Deputadas e os Deputados,
Eurico Brilhante Dias
João Torres
Catarina Louro
Emanuel Câmara
Pedro Delgado Alves
Porfírio Silva
Rui Santos
Luís Graça
Hugo Costa
Eva Cruzeiro
Davide Amado
Rosa Isabel Cruz
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