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Projeto de Resolução n.º 432/XVII/1.ª
Recomenda a valorização da carreira de inspetor da Inspeção-
Geral da Agricultura, do Mar, do Ambiente e do Ordenamento do
Território
Exposição de motivos:
A Inspeção -Geral da Agricultura, do Mar, do Ambiente e do Ordenamento do Território
(IGAMAOT), cuja orgânica foi aprovada através do Decreto-Lei n.º 23/2012, de 1 de fevereiro,
é um serviço central da administração direta do Estado, dotado de autonomia administrativa,
que atua nas áreas da agricultura, mar, ambie nte e ordenamento do território em todo o
território nacional. Este serviço resulta da fusão das anteriores Inspeção-Geral da Agricultura
e Pescas e Inspeção-Geral do Ambiente e do Ordenamento do Território e constitui hoje uma
estrutura única que tem como missão avaliar o desempenho e a gestão dos serviços e
organismos dos ministérios com a tutela do ambiente, ordenamento do território, agricultura
e do mar, bem como assegurar o permanente acompanhamento e avaliação do cumprimento
da legalidade nas áreas d o ambiente, do ordenamento do território e da conservação da
natureza. Integra, igualmente, na sua missão o controlo de apoios financiados por fundos
nacionais e da União Europeia para a agricultura, florestas, desenvolvimento rural e políticas
do mar.
Entre as suas várias atribuições, a IGAMAOT realiza, com carácter sistemático, auditorias,
inspeções e controlos financeiros a organismos públicos e privados nas suas áreas de
intervenção, avaliando, por exemplo, a gestão de fundos europeus como o Fundo E uropeu
Agrícola de Garantia (FEAGA), o Fundo Europeu Agrícola de Desenvolvimento Rural
(FEADER) ou o Fundo Europeu dos Assuntos Marítimos, das Pescas e da Aquicultura
(FEAMPA), efetuando o acompanhamento e avaliação da implementação das
recomendações formu ladas a organismos, serviços e entidades auditados no âmbito das
ações levadas a cabo pela IGAMAOT.
Além disso, atua como órgão de polícia criminal relativamente aos crimes relacionados com
o cumprimento da sua missão em matérias ambientais, coordena redes nacionais, representa
Portugal, por exemplo, na Rede Europeia para a Implementação e Aplicação da L egislação
Ambiental (IMPEL, na sigla em inglês), instaura processos de contraordenação, efetua
auditorias externas em segurança alimentar, realiza ações de inspeção em proteção
radiológica, emite pareceres, participa em grupos de trabalho europeus e instru i processos
disciplinares para proteger a saúde pública e o ambiente.
De uma forma geral, a sua atuação é determinante para prevenir infrações graves, proteger
a saúde pública, salvaguardar o património natural, assegurar o cumprimento da legislação
ambiental, bem como dos compromissos de desenvolvimento sustentável assumido s por
Portugal. Por estas razões, a IGAMAOT assume um papel central na articulação entre a
administração nacional, local e os compromissos internacionais, garantindo que Portugal
cumpre as obrigações da União Europeia e os padrões mais exigentes em todos e stes
domínios.
Exemplos da sua atividade podem ser encontrados no dia a dia, nomeadamente quando
realizou perícias em várias empresas em Ourém, recolhendo amostras de águas e resíduos
para obter prova e avaliar possíveis impactos ambientais da atividade industrial de empresas
naquele concelho1. Neste contexto, a IGAMAOT articulou‑se com a Polícia Judiciária e outras
entidades para apurar eventuais crimes de violação de regras urbanísticas, poluição,
corrupção e fraude na obtenção de subsídios, nomeadamente, em atividades desenvolvidas
em áreas de Reserva Ecológica Nacional.
Entre 2020 e 2024, por exemplo, a IGAMAOT realizou ações de fiscalização em 59
municípios, tendo identificado ilegalidades em 94% das 1312 operações urbanísticas
avaliadas2, evidenciando a importância vital da IGAMAOT na função pública no âmbito da
garantia da correta utilização dos instrumentos de gestão territorial.
Trata-se de apenas dois exemplos da atuação discreta, mas determinante, da IGAMAOT em
Portugal.
Apesar de tudo e da importância do trabalho dos inspetores da IGAMAOT, estes têm vindo a
manifestar um sentimento generalizado de desmotivação e injustiça face à desatualização da
sua carreira e à ausência de reconhecimento das condições em que exercem as suas
funções3. Exigem, por isso, a revisão da carreira, a atualização dos salários e a criação de
um suplemento de missão, afirmando que enfrentam riscos químicos, biológicos e
radiológicos elevados, forte pressão e desgaste, e que, embora desempenhem funções de
órgão de polícia criminal, se sentem discriminados face a outras forças e carreiras da
Administração Pública e carreiras equiparadas aos restantes órgãos de polícia criminal. Com
efeito, estes inspetores foram integrados na carreira especial de inspeção, sendo
considerados autoridade de polícia criminal, nos termos do Decreto-Lei n.º 23/2012, de 1 de
fevereiro, sem nunca terem sido devidamente compensados.
De acordo com estes inspetores, a carreira especial de inspeção deixou de ser atrativa,
apontando a saída de muitos profissionais e defendendo alterações à tabela salarial. Estes
trabalhadores têm um regime de prevenção, que inclui noites, fins de semana e feriados e
argumentam que a atual carreira especial de inspeção ficou ultrapassada face às carreiras
gerais, o que promove a saída de quadros qualificados e fragiliza a capacidade do Estado em
prevenir crimes ambientais, detetar irregularidades graves e garantir a proteção do ambiente
e da saúde pública.
1 Inspeção do Ambiente faz perícias em empresas alvo de buscas | Observador
2 Casas, hotéis, piscinas: 94% dos projetos urbanísticos inspecionados tinham ilegalidades | Expresso
3 Inspetores da IGAMAOT pedem revisão da carreira e a atualização dos salários | Jornal de Notícias
Os inspetores da IGAMAOT consideram que este quadro é agravado pela inexistência de
atualização salarial ao longo dos últimos 20 anos, o que resultou numa perda substancial de
poder de compra, colocando -os numa situação paradoxal, em que, aos dias de hoje, um
inspetor aufere menos do que auferia um colega que ingressou em 2004.
Esta Inspeção Geral obteve alguma atenção por parte do Governo, aquando da publicação
da Resolução do Conselho de Ministros n.º 33/2025, de 27 de fevereiro, inserida na «Agenda
Anticorrupção», que determinou, entre outras medidas, o recrutamento de 10 novo s
inspetores para a IGAMAOT em 2025 e outros 10 em 2027. No entanto, esta resolução é
omissa quanto à valorização e revisão da carreira especial de inspeção, não prevendo
qualquer medida de atualização remuneratória, criação de suplementos de missão ou
compensação específica pelo risco e penosidade associados ao exercício de funções
enquanto órgão de polícia criminal. Assim, o Governo limitou -se a pretender aumentar o
número de inspetores, sem responder às reivindicações estruturais de valorização da
carreira, necessárias para tornar a função atrativa a médio e longo prazo.
Assim, ao abrigo das disposições constitucionais e regimentais aplicáveis, o Grupo
Parlamentar do LIVRE propõe à Assembleia da República que , através do presente
Projeto de Resolução, delibere recomendar ao Governo que:
1. Proceda a uma revisão urgente da carreira especial de inspeção, que inclua os
inspetores da Inspeção-Geral da Agricultura, do Mar, do Ambiente e do Ordenamento
do Território (IGAMAOT), ajustando os índices remuneratórios e reduzindo os níveis
de carreira, de forma a refletir a exigência técnica e a complexidade da função;
2. Avalie a criação de um suplemento de missão, pago em 14 meses, destinado a
compensar o risco, bem como o desgaste físico e emocional, reconhecendo
formalmente a natureza policial das funções desempenhadas pelos inspetores da
IGAMAOT;
3. Desenvolva um plano plurianual de reforço e qualificação dos inspetores, incluindo
incentivos à formação avançada, uma progressão mais célere e medidas de
conciliação entre a vida profissional, pessoal e familiar.
Assembleia da República, 18 de dezembro de 2025
As Deputadas e os Deputados do LIVRE
Isabel Mendes Lopes Filipa Pinto
Jorge Pinto Patrícia Gonçalves
Paulo Muacho Rui Tavares
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