Documento integral
Projeto de Resolução n.º 461/XVII/1.ª
Promoção da saúde mental dos médicos internos no Serviço Nacional de
Saúde
Exposição de motivos:
Os médicos internos asseguram uma parte substancial da atividade assistencial do SNS, ao
mesmo tempo que cumprem exigentes objetivos formativos e científicos, o que torna esta
etapa particularmente exposta a riscos de esgotamento profissional. O primeiro e studo
nacional alargado sobre burnout em médicos internos 1, promovido pelo Conselho Nacional
do Médico Interno da Ordem dos Médicos, veio quantificar esta realidade. De acordo com
este estudo, 55,3% dos médicos internos inquiridos estavam em risco de desenvolvimento de
burnout e cerca de um em cada quatro apresen tava já sintomas graves. “Estes resultados
são superiores aos dados que temos para a população médica em geral e são, de facto, muito
preocupantes”, referiu Carlos Cortes, Bastonário da Ordem dos Médicos, em comunicado 2
sobre o estudo.
A análise publicada na Acta Médica Portuguesa, sob o título “O Custo Oculto da Formação
Médica: Burnout em Médicos Internos” 3, permite compreender melhor estes dados. As
autoras destacam que, além do horário semanal de 40 horas, das quais pelo menos 12 em
serviço de urgência, os médicos internos têm de realizar atividades formativas e de
investigação fora do horário de trabalho para cumprir os objetivos curriculares, o que na
prática significa acumular muitas horas adicionais de trabalho que não é formalmente
reconhecido. Ademais, as autoras acrescentam que o salário base dos internos, situado entre
2078,11 euros e 2349,15 euros brutos, num contexto de aumento do custo de vida e de
ausência de apoios económicos adequados à formação, leva frequentemente à realização de
trabalho extraordinário remunerado à custa do tempo de descanso. Esta combinação de
1 Avaliação do Burnout no internato médico português , Relatório do Estudo Nacional 2023, Conselho
Nacional do Médico Interno da Ordem dos Médicos, (p. 5)
2 Comunicado de Imprensa , “Primeiro Estudo alargado realizado em Portugal sobre burnout em
Médicos Internos: 1 em cada 4 médicos internos apresenta sintomas graves de burn out”, Ordem dos
Médicos
3 “The Hidden Cost of Medical Training: Resident Burnout ”, Acta Médica Portuguesa , Vol. 38 No. 2
(2025): February
sobrecarga assistencial, exigência formativa extralaboral e pressão económica é identificada
como terreno fértil para o desenvolvimento de burnout.
Conforme alerta José Durão, Presidente do Conselho Nacional do Médico Interno, “é a
renovação da força de trabalho e a sustentabilidade do sistema de saúde português que está
em causa. Se nada for feito para proteger os médicos mais jovens agora e para lhes garantir
qualidade formativa sem compromisso do seu bem -estar físico e psico lógico, serão os
cuidados de saúde prestados à população a sofrer com isso”4.
Neste contexto, e tendo em conta a relevância do internato médico enquanto etapa decisiva
da carreira médica, que se pretende atrativa e sustentável, impõe -se uma resposta política
estruturada que reconheça explicitamente o burnout dos médicos internos como um problema
prioritário de saúde ocupacional, assegure o acesso efetivo a apoio psicológico e promova
mudanças na organização do internato que reduzam a sobrecarga assistencial e integrem a
formação no horário de trabalho.
Assim, ao abrigo das disposições constitucionais e regimentais aplicáveis, o Grupo
Parlamentar do LIVRE propõe à Assembleia da República que , através do presente
Projeto de Resolução, delibere recomendar ao Governo que:
1. Reconheça o burnout em médicos internos como um problema prioritário de
saúde ocupacional no Serviço Nacional de Saúde, promovendo a monitorização
sistemática e regular dos níveis de saúde mental ao longo do internato médico;
2. Assegure que todos os médicos internos têm acesso facilitado a apoio
psicológico através dos serviços de saúde ocupacional do Serviço Nacional de
Saúde;
3. Adote medidas de organização do internato que reduzam a sobrecarga
assistencial, assegurando a integração efetiva das atividades formativas e de
investigação no horário de trabalho, sem prejuízo do descanso e segurança dos
profissionais, bem como da qualidade dos cuidados prestados;
4. Promova o envolvimento do Conselho Nacional do Médico Interno da Ordem
dos Médicos e das organizações representativas dos médicos internos no
âmbito da conceção, implementação e monitorização das medidas referidas no
número anterior, garantindo a participa ção efetiva destes profissionais na
definição de respostas.
Assembleia da República, 2 de janeiro de 2026
As Deputadas e os Deputados do LIVRE
Isabel Mendes Lopes Filipa Pinto
4 Comunicado de Imprensa , “Primeiro Estudo alargado realizado em Portugal sobre burnout em
Médicos Internos: 1 em cada 4 médicos internos apresenta sintomas graves de burn out”, Ordem dos
Médicos
Jorge Pinto Patrícia Gonçalves
Paulo Muacho Rui Tavares
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