Documento integral
1
Projeto de Resolução n.º 182/XVII/1.ª
Recomenda ao Governo que dê seguimento ao processo de revisão do Conceito
Estratégico de Defesa Nacional
Exposição de moƟvos
AssisƟmos nos úlƟmos anos a uma profunda alteração do ambiente securitário
internacional, com a emergência de novas dinâmicas caracterizadas por fortes tensões
geopolíƟcas que condicionam a segurança e a defesa de Portugal, da Europa e da Aliança
AtlânƟca.
As alterações provocadas pela invasão da Ucrânia pela Federação Russa, desde logo,
exigem uma atenção redobrada ao nível dos novos equilíbrios geopolíƟcos não apenas
no espaço euro -atlânƟco, mas também à escala global. Ao mesmo tempo, assisƟmos
também a emergências complexas, entre as quais sanitárias e ambientais, a relevantes
e constantes transformações nos domínios ciber e espacial, assim como ao nível das
ameaças e conflitos híbridos.
O novo paradigma global ao nível da segurança e defesa, o acelerar destas dinâmicas e
transformações marcadas por uma concorrência estratégica crescente, pela
complexidade das ameaças à segurança e pelo ataque ao mulƟlateralismo e à ordem
europeia e internacional exigem, por isso, uma reflexão profunda e atualizada,
sistemáƟca e estratégica das prioridades de Portugal para os próximos anos.
Essa reflexão deverá, naturalmente, assegurar o indispensável alinhamento com as
organizações internacionais a que o país pertence, defendendo os princípios da Carta
das Nações Unidas, a soberania e integridade territorial dos Estados, uma ordem
mulƟlateral assente no primado do Direito Internacional e uma economia aberta que
assegure o desenvolvimento sustentado a nível global – princípios cuja legiƟmidade
2
hoje, mais que nunca, é colocada em causa por Estados que os violam para impor as suas
posições de forma unilateral e pela força.
Com efeito, a União Europeia aprovou, em março de 2022, a sua “Bússola Estratégica”,
um documento estratégico fundamental para reforçar a segurança e defesa da União até
2030, e que Portugal impulsionou decisivamente no âmbito da Presidência Portuguesa
da União Europeia em 2021.
A Bússola Estratégica apresenta uma avaliação comum do ambiente estratégico em que
a União Europeia opera e das ameaç as e desafios com que se depara, contemplando
propostas concretas e exequíveis, com um calendário de execução muito preciso, a fim
de melhorar a capacidade dos 27 para agir de forma decisiva em situações de crise e
defender a sua segurança e os seus cidadãos.
Ao mesmo tempo, em junho de 2022, a Organização do Tratado do AtlânƟco Norte
(OTAN) aprovou, na Cimeira de Madrid, o seu novo Conceito Estratégico , subsƟtuindo ,
ao fim de 12 anos, o Conceito Estratégico de Lisboa aprovado em 2010.
O documento da OTAN refere, de forma muito clara, que a “área euro-atlânƟca não está
em paz”, abordando as principais ameaças e desafios do presente e do futuro no espaço
da Aliança AtlânƟca e definindo as tarefas principais da organização ao nível da dissuasão
e defesa, da prevenção e gestão de crises e da segurança cooperaƟva.
Justamente com o objeto de alinhar os compromissos assumidos por Portugal com a
União Europeia e com a OTAN, o anterior Governo inicioutambém em 2022 o processo,
que viria a ser interrompido, de revisão do Conceito Estratégico de Defesa Nacional, com
objeƟvo de atualizar o atual documento, que vigora desde 2013 e foi aprovado pela
Resolução do Conselho de Ministros n.º 19/2013, de 5 de abril.
Para o efeito, e por via do Despacho n.º 9986/2022, de 12 de agosto de 2022, dos
Gabinetes do Primeiro-Ministro e da Ministra da Defesa Nacional, foi criado um
Conselho de Revisão, coordenado pelo Professor Doutor Nuno Severiano Teixeira e
3
composto por 21 individualidades de reconhecido mérito e presơgio, tendo sido
encarregue de elaborar e submeter uma proposta de Grandes Opções do Conceito
Estratégico de Defesa Nacional, a submeter à Assembleia da República.
Esta proposta foi entregue pelo Conselho de Revisão ao Governo no dia 31 de janeiro de
2023, tendo sido objeto de discussão em Conselho de Ministros e incorporando
contributos adicionais do Gabinete do Senhor Primeiro-Ministro e diversas áreas
setoriais, como a dos Negócios Estrangeiros, Defesa Nacional, Administração Interna e
da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior.
Em sequência, o Governo submeteu à Assembleia da República, em 18 de maio de 2023,
a Proposta de Resolução n.º 13/XV – Aprova as Grandes Opções do Conceito Estratégico
de Defesa Nacional, dando cumprimento ao disposto no n.º 2 do arƟgo 7.º e na alínea
d) da Lei Orgânica n.º 1-B/2009, de 7 de julho, na sua redação atual – conhecida como
Lei de Defesa Nacional – e que esƟpula que previamente à aprovação do Conceito
Estratégica de Defesa Nacional, a Assembleia da República deve debater e aprovar o
documento contendo as suas Grandes Opções.
Na proposta de Grandes Opções do Conceito Estratégico de Defesa Nacionalentregue à
Assembleia da República em maio de 2023 constava já uma visão prospeƟva e de
inovação sobre o presente e o futuro, incorporando as novas realidades da segurança
global e regional, em parƟcular aquelas que afetam o nosso espaço e a segurança do
conƟnente europeu, do AtlânƟco e de outros espaços vitais para a nossa defesa coleƟva,
apontando ao mesmo tempo as prioridades adequadas aos desafios contemporâneos e
representando um sólido contributo para a adaptação da Defesa Nacional e das Forças
Armadas portuguesas às necessidades da próxima década.
Simultaneamente foi desencadeado, em parceria com o InsƟtuto da Defesa Nacional,
um extenso ciclo de eventos coordenados por este InsƟtuto, em todo o país,
promovendo uma reflexão nacional sobre as prioridades estratégicas que Portugal deve
4
adotar a médio -prazo, enquanto se adapta a Defesa Nacional às transformações e
necessidades decorrentes do novo ambiente geoestratégico, tendo em vista a
elaboração do documento final do Conceito Estratégico de Defesa Nacional.
Um processo inédito cuja práƟca deverá prosseguir, e que muito con tribuiu para
aproximar a Defesa Nacional de diferentes domínios e dimensões da sociedade civil,
fomentando o conhecimento mútuo e um diálogo profundo e descentralizado, com
eventos decorridos em Braga, em Coimbra, no Funchal e em Ponta Delgada sobre o novo
contexto geoestratégico internacional, sobre a parƟcipação de Portugal em missões
internacionais, sobre economia de defesa e sobre o domínio do espaço, do ciber e das
novas tecnologias emergentes e disrupƟvas.
Todo este processo viria a ser interrompido fruto do contexto políƟco que caracterizou
a XV Legislatura, e que pela dissolução da Assembleia da República em 15 de janeiro de
2024, tornou impossível a discussão e aprovação em plenário das Grandes Opções do
Conceito Estratégico de Defesa Nacional, assim como todo o processo subsequente.
O certo é que, três anos após a União Europeia produzir a sua Bússola Estratégica e de a
OTAN ter revisto o seu Conceito Estratégico, Portugal conƟnua sem rever o seu Conceito
Estratégico de Defesa Nacional e sem dar sinais sobre esse caminho.
Não sendo claro se o atual Governo e o Senhor Ministro da Defesa Nacional pretendiam
dar seguimento (ainda que com as necessárias atualizações) ao extenso, completo e
proİcuo trabalho já desenvolvido pelo Conselho de Revisão, ou se pretendia, por sua
vez, iniciar um novo processo de revisão do Conceito Estratégico de Defesa Nacional,
procedendo para o efeito à nomeação de um novo Conselho de Revisão e à elaboração
de novas Grandes Opções, chegados ao fim do ano de 2024 e ao fim de nove meses de
Governo e de ausência de clareza quanto a esta matéria, o Grupo Parlamentar do ParƟdo
Socialista apresentou o Projeto de Resolução N.º 568/XVI/1.ª – Recomenda ao Governo
que dê seguimento ao processo de revisão do Conceito Estratégico de Defesa Nacional,
5
tendo sido aprovado por uma ampla maioria, com os votos a favor dePSD, PS, IL, L, PAN;
e abstenção de CH, BE, PCP ,CDS-PP e Miguel Arruda (Ninsc).
Na sequência desta iniciaƟva, o Senhor Ministro da Defesa Nacional tornou público,
através do Semanário Expresso , que o novo documento estaria “praƟcamente
concluído” e seria entregue no Parlamento “nas próximas semanas”.
A verdade é que passaram quase 7 meses desde a noơcia e o Parlamento conƟnua sem
conhecer o novo Conceito Estratégico de Defesa Nacional. Além disso, do Programa do
XXV Governo, em funções desde o dia 05 de junho na sequência das eleições de 18 de
maio, pode-se concluir que um novo Conceito Estratégico parece mesmo não consƟtuir
uma prioridade governaƟva, pois em nenhum momento é mencionado o seu processo
de revisão.
ParƟndo do pressuposto de que o bom planeamento estratégico pressupõe revisões
periódicas e a aceleração recente das mudanças tecnológicas e geopolíƟcas com impacto
no campo da defesa apenas veio a reforçar a perƟnência deste p rincípio, a presente
Resolução tem , assim, por objeƟvo recomendar ao Governo que dê seguimento ao
processo de revisão do Conceito Estratégico de Defesa Nacional.
Este documento estratégico, fundamental para a segurança e defesa do país, deverá em
todo o caso assegurar objeƟvos compreensíveis, centrados nos principais desafios
contemporâneos, e na melhor forma de os enfrentar. Deverá contemplar ainda uma
priorização ajustada face ao contexto internacional em que Portugal se insere, assim
como uma visão ambiciosa para a Defesa Nacional e para as Forças Armadas
portuguesas, susceơvel de ser devidamente monitorizada e avaliada.
Assim, ao abrigo das disposições legais e regimentais aplicáveis, os Deputados do Grupo
Parlamentar do ParƟdo Socialista apresentam o seguinte Projeto de Resolução:
6
A Assembleia da República resolve, nos termos do n.º 5 do arƟgo 1 66.º da ConsƟtuição
da República Portuguesa, recomendar ao Governo que dê seguimento ao processo de
revisão do Conceito Estratégico de Defesa Nacional.
Palácio de São Bento, 11 de julho de 2025
As Deputadas e os Deputados,
Eurico Brilhante Dias
Luís Dias
Ana Paula Bernardo
Frederico Francisco
Hugo Oliveira
Mariana Vieira da Silva
Patrícia Faro
Rui Santos
Pedro Delgado Alves
Abrir texto oficial