Documento integral
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Projeto de Resolução n.º 360/XVII/1.ª
Recomenda ao Governo que promova as diligências necessárias para
assegurar a entrada, em Portugal, de estudantes palestinianos
matriculados em universidades portuguesas
Exposição de motivos
Dois anos após o início da ofensiva militar lançada por Israel na Faixa de Gaza,
na sequência dos ataques perpetrados pelo Hamas a 7 de outubro de 2023, a
situação no enclave e as notícias que de lá todos os dias se vão conhecendo
são absolutamente devastadora s. Os últimos meses, em particular, têm sido
marcados por uma escalada de violência sem precedentes, resultando em
dezenas de milhares de mortos e feridos e na destruição generalizada de
infraestruturas básicas, incluindo hospitais, escolas, universidades,habitações e
redes de abastecimento de água e eletricidade.
Por força do bloqueio persistente das autoridades à ajuda humanitária, a
população de Gaza enfrenta hoje níveis de fome e desnutrição alarmantes. De
acordo com a Classificação Integrada de Segurança Alimentar (IPC) das Nações
Unidas, a Faixa de Gaza regista mesmo neste momento o pior cenário de fome
no mundo.
No campo da educação, a situação é igualmente devastadora, com adestruição
praticamente total do seu sistema educativo. Desde 7 de outubro de 2023, as
Forças de Defesa de Israel realizaram ataques em mais de 200 instalações
educativas na Faixa de Gaza , incluindo universidades . Uma Comissão
Internacional Independente de Inquérito, mandatada pelo Conselho de Direitos
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Humanos das Nações Unidas, publicou em maio de 2025 um relatório 1 que
conclui que as forças israelitas recorreram a ataques aéreos, bombardeamentos,
incêndios e demolições controladas com o objetivo de danificar ou destruir mais
de 90% das escolas e edifícios universitários em Gaza.
De acordo com o mesmo documento, esta destruição quase total tornou o
acesso à educação impossível para mais de 658 mil crianças, muitas das quais
estão fora da escola há quase dois anos. Estão documentados, também, casos
em que as forças israelitas tomaram e utilizaram instituições de ensino como
bases militares, incluindo a conversão de parte do campus de al -Mughraqa, da
Universidade Al-Azhar, numa sinagoga para as suas forças militares . Foi ainda
observado um caso em que militantes do Hamasutilizaram uma escola para fins
militares. Tais condutas constituem, naturalmente, inaceitáveis violações do
direito internacional, que estabelece a distinção entre objetos civis e alvos
militares.
Entre os mais atingidos por esta situação estão jovens, cuja pos sibilidade de
estudar e projetar um futuro digno se encontra hoje seriamente comprometida.
Muitos desses estudantes, apesar das enormes dificuldades em que vivem
diariamente, conseguiram obter vaga e matrícula em instituições de ensino
superior no estrange iro, incluindo em Portugal , alimentando a esperança de
prosseguir estudos em segurança e contribuir para o desenvolvimento das suas
comunidades no futuro. No entanto, as barreiras à sua saída da Faixa de Gaza
e a inexistência de corredores humanitários seguros colocam em risco essa
oportunidade.
A educação é um direito humano fundamental, consagrado n o artigo 26.º da
Declaração Universal dos Direitos Humanos e reiterado em tratados
internacionais de que Portugal é parte. Negar, por impossibilidade prática, o
1 Report of the Independent InternaƟonal Commission of Inquiry on the Occupied PalesƟnian Territory,
including East Jerusalem, and Israel (2025): hƩps://docs.un.org/en/A/HRC/59/26
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acesso destes jovens ao ensino superior constitui uma dupla penalização , pois
são vítimas d a guerra e da violência e são , ao mesmo tempo, privados da
possibilidade de prosseguir os seus estudos.
Face a este quadro, alguns países europeus têm tomado medid as concretas
para responder a esta situação . A França , por exemplo, tem promovido
corredores humanitários, em coordenação com parceiros internacionais, para
permitir a saída de estudantes da Faixa de Gaza. O programa que o Ministério
da Europa e dos Assuntos Estrangeiros francês desencadeou já ajudou mais de
500 pessoas a sair de Gaza desde outubro de 2023.
O Reino Unido também está a desenvolver programas de evacuação e
acolhimento que permitiram a saída de jovens palestinianos admitidos em
universidades britânicas. No passado mês de setembro, um grupo de 34
palestinianos que se candidataram às universidades no país aterraram em
Londres e Manchester. Outros 40 aguardam pela próxima ronda de evacuações
e chegarão ao país em breve.
Também a Espanha, e outros países como a Irlanda , em colaboração com
organizações humanitárias, organiz aram comboios humanitários que
asseguraram a deslocação em segurança de estudantes palestinianos de Gaza
para instituições de ensino espanholas e irlandesas.
Estes exemplos provam que é possível, com vontade política, diplomacia e
cooperação, criar soluções que respondam a uma emergência humanitária sem
precedentes.
Portugal, com uma longa tradição de solidariedade internacional e de
compromisso com os direitos humanos, não pode permanecer indiferente face à
situação de estudantes como Tarek al-Farra, estudante palestiniano de 23 anos
que se encontra na Faixa de Gaza, que foi admitido e encontra-se inscrito, com
parte das propinas já pagas, no mestrado em Estudos Ingleses e Norte -
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Americanos da Faculda de de Ciências Sociais e Humanas (FCSH) da
Universidade Nova de Lisboa.
De acordo com a comunicação social, a referida universidade já tomou uma
posição pública sobre a situação e terá procurado estabelecer contacto, através
da sua diretora, com o Ministér io dos Negócios Estrangeiros, mas não obteve
resposta.
A solução para que Tarek Al-Farra, assim como outros estudantes palestinianos
(haverá também uma situação idêntica na Universidade do Minho), possam sair
de Gaza em segurança e estudar nas universidades em que foram aceites e
estão inscritos , só poderá acontecer por via de uma ação determinada do
Governo português, nomeadamente do Ministério dos Negócios Estrangeiros,
que entre outras coisas, poderá associar -se às missões de evacuação
humanitárias desencadeadas por países europeus amigos e aliados, como a
França, o Reino Unido ou a Espanha, entre outros.
O Governo português deve, por isso, em articulação com as respetivas
universidades, as organizações internacionais competentes e os parceir os
europeus, desencadear com a urgência possível as diligências necessárias para
garantir a saída de Gaza e a chegada em segurança a Portugal dos estudantes
palestinianos já matriculados em universidades portuguesas , dado que o ano
letivo já começou.
Assim, ao abrigo das disposições regimentais e constitucionais aplicáveis, as
Deputadas e os Deputados abaixo-assinados do Grupo Parlamentar do Partido
Socialista apresentam o seguinte projeto de resolução:
A Assembleia da República resolve, nos termos do dis posto do n.º 5 do artigo
166.º da Constituição da República Portuguesa, recomendar ao Governo que:
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1. Promova, com a urgência possível, as diligências diplomáticas e
administrativas necessárias para permitir a saída de Gaza e a entrada,
em Portugal, dos estu dantes palestinianos inscritos em universidades
portuguesas;
2. Desencadeie os mecanismos de cooperação necessários entre países e
com organizações internacionais e se associe às iniciativas de evacuação
humanitária de outros países europeus , de forma a garantir a efetiva
concretização da deslocação destes estudantes;
3. Promova, em articulação com as universidades portuguesas, todas as
condições de acolhimento e integração para que os estudantes em causa
possam iniciar ou prosseguir, em segurança e em cond ições de
dignidade, os seus percursos académicos em Portugal;
Palácio de São Bento, 22 de outubro de 2025
As Deputadas e os Deputados,
Catarina Louro
João Torres
Elza Pais
Eva Cruzeiro
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Porfírio Silva
Edite Estrela
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