Documento integral
Projeto de Resolução n.º 398/XVII
Recomenda ao Governo a Criação do Dia Nacional do Calceteiro e da Calçada
Portuguesa a 22 de julho
Exposição de motivos
Entre as expressões culturais mais representativas de Portugal encontra-se a Calçada
Portuguesa, que alia funcionalidade a um notável valor artístico. Este tipo de
pavimentação, composto por pedras dispostas de forma harmoniosa –
predominantemente calcário branco e basalto ou calcário preto, mas igualmente
noutras tonalidades –, cria motivos e composições de elevado interesse estético.
Praças, ruas e largos do país transformaram -se em autênticos "tapetes de pedra",
conferindo uma identidade visual única ao espaço público português e afirmando -se
como um símbolo da nossa identidade e cultura.
As origens da Calçada Portuguesa remontam às técnicas de pavimentação funcional
romanas, às quais se associou a tradição decorativa do mosaico. A forma que hoje
conhecemos teve o seu aparecimento em Lisboa, a meio do século XIX, expandindo -
se rapidamente por todo o território nacional, incluindo as regiões insulares, estando
presente na paisagem urbana de aproximadamente 290 municípios.
O seu alcance ultrapassa as front eiras nacionais, marcando presença significativa em
diversos países, especialmente naqueles com os quais Portugal mantém laços
históricos e culturais mais profundos, bem como onde existem comunidades
portuguesas, funcionando como instrumento de afirmação e intercâmbio cultural entre
povos.
Mais do que um simples revestimento que calcamos diariamente, a Calçada
Portuguesa representa um elemento de identidade, afetividade e distinção histórica,
artística e cultural do país, projetando -se além-fronteiras. Acresce que se trata de um
material natural e ecologicamente sustentável em todas as fases do processo: desde a
extração (com reduzido impacto ambiental, utilizando apenas as camadas superficiais
das pedreiras, facilmente recuperáveis) até à aplicação (recorre ndo exclusivamente a
materiais naturais), garantindo pavimentos permeáveis e de elevada durabilidade.
A continuidade e salvaguarda desta expressão artística dependem fundamentalmente
do labor e empenho dos calceteiros. A habilidade técnica, o conhecimento acumulado
e a sensibilidade criativa destes artífices permitem que a pedra se transforme em
desenho e manifestação cultural.
Todavia, a profissão de calceteiro atravessa dificuldades significativas: o desgaste
físico inerente à atividade, a baixa remunera ção e o escasso reconhecimento social
contribuem para a sua reduzida atratividade junto das gerações mais novas,
prejudicando a renovação profissional e ameaçando a continuidade deste
conhecimento singular.
Por esse motivo, a Associação da Calçada Portugue sa propôs a inscrição da "Arte e
Saber-fazer da Calçada Portuguesa" no Inventário Nacional do Património Cultural
Imaterial. Este processo culminou, a 22 de julho de 2021, na publicação do anúncio no
Diário da República que formalizou o reconhecimento, classificando-o com carácter de
salvaguarda urgente. O registo evidenciou a sua importância cultural, o valor social da
atividade de calceteiro e o perigo de extinção do ofício sem medidas de proteção
apropriadas.
Simultaneamente, a candidatura da "Arte e Saber-fazer da Calçada Portuguesa" à Lista
Representativa do Património Cultural Imaterial da Humanidade encontra -se em
apreciação pela Comissão Nacional da UNESCO, podendo este processo reforçar o
seu reconhecimento internacional, sublinhar a sua dimensão universal e garantir maior
proteção e valorização aos profissionais que perpetuam esta arte.
Cumpre ainda mencionar que a Assembleia da República, através da Resolução n.º
54/2018, aprovada por unanimidade, recomendou ao Governo a promoção da calçada
portuguesa e da profissão de calceteiro, apoiando a candidatura à UNESCO.
Deste modo, a criação do Dia Nacional do Calceteiro e da Calçada Portuguesa,
celebrado a 22 de julho – data que evoca a oficialização da inscrição no Inventário
Nacional do Patrimóni o Cultural Imaterial –, visa constituir uma homenagem a estes
profissionais e ao seu conhecimento especializado, valorizando simultaneamente um
património nacional identitário e cultural e reafirmando o compromisso do país com a
sua proteção, transmissão e difusão.
Esta efeméride deverá igualmente funcionar como oportunidade para congregar
entidades públicas e privadas, autarquias, organismos culturais, associações
profissionais e a sociedade em geral na valorização da calçada e na dignificação dos
calceteiros, assegurando a salvaguarda de um património que agrega história, arte,
cultura, identidade e sustentabilidade.
Assim, ao abrigo das disposições regimentais e constitucionais aplicáveis, os
Deputados abaixo-assinados do Grupo Parlamentar do Partido Soc ialista apresentam
o seguinte projeto de resolução:
A Assembleia da República resolve, nos termos do disposto do n.º 5 do artigo 166.º da
Constituição da República Portuguesa, recomendar ao Governo que:
1. Institiuir o dia 22 de julho como "Dia Nacional do Calceteiro e da Calçada
Portuguesa".
2. Estimular a celebração anual desta data através de iniciativas dedicadas à
homenagem dos calceteiros, à promoção da calçada portuguesa e à
sensibilização para a sua proteção e valorização.
3. Recomendar ao Governo que, em colaboração com os municípios, associações
representativas, organismos culturais e estabelecimentos de ensino, desenvolva
ações de divulgação, formação e reconhecimento público da atividade dos
calceteiros e da ca lçada portuguesa, consolidando o seu estatuto como
património cultural de relevância nacional e internacional.
Palácio de S. Bento, 2 de dezembro de 2025
As Deputadas e os Deputados
Porfírio Silva
Paulo Lopes da Silva
Aida Carvalho
Dália Miranda
Davide Amado
Margarida Afonso
Pedro Sousa
Pedro Delgado Alves
.
Abrir texto oficial