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Projeto de Resolução n.º 385/XVII/1.ª
Recomenda o aumento do Salário Mínimo Nacional
Exposição de motivos:
Desde 1974, com o Decreto -Lei 217/74, de 27 de maio, que a todos os trabalhadores é
garantida uma remuneração mínima mensal. Na mesma senda, o Código do Trabalho,
aprovado pela Lei n.º 7/2009, de 12 de Fevereiro, no artigo 273.º, garante uma retribuição
mínima mensal aos trabalhadores, a ser determinada anualmente. Mais de meio século após
a aprovação deste último diploma, os dados oficiais revelam no entanto um dado que não
pode deixar de ser considerado preocupante: cerca de um quinto dos trabalhadores aufere o
salário mínimo nacional (SMN)1 - em 2023, eram 20,8%.
No contexto europeu, Portugal ocupa a décima posição entre os países com o salário médio
anual mais baixo, considerando os trabalhadores a tempo inteiro2. Além disso, os aumentos
salariais não têm acompanhado a evolução da inflação, por um lado, e da produtividade, por
outro3.
Historicamente, o SMN representava cerca de 80% do seu equivalente espanhol. Atualmente,
essa proporção situa -se em cerca de 73%, face aos 1184 euros pagos a 14 meses em
Espanha, em 2025. Portugal continua, assim, distante dos padrões salariais europeus e da
convergência com o país vizinho, exigindo -se um esforço de aproximação em ambos os
planos.
O cenário descrito resulta de uma opção política persistente por um modelo económico
assente em baixos salários e retorno imediato, que compromete o poder de compra dos
trabalhadores e fragiliza a competitividade da economia nacional. Com efeito, só aposta ndo
na economia do conhecimento e de elevado valor acrescentado, sempre alicerçados na
1 Peso do salário mínimo no nível mais baixo dos últimos sete anos, Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social
do XXIII Governo, 25 de agosto de 2023.
2 Average full time adjusted salary per employee, Eurostat, 12 de novembro de 2025
3 Cantante, F. (2023). Emprego, produtividade e salários: uma perspetiva setorial. Números em Análise, N.º 5, CoLABOR, abril
de 2024, pág, 4.
ciência e investigação, é possível uma economia mais robusta, com trabalhadores
qualificados que, consequentemente, possibilite salários médios mais elevados, desta forma
contribuindo para melhorar os salários de todos os trabalhadores.
A elevada inflação dos últimos anos, a que se soma uma severa crise habitacional, continua
a pesar sobre os rendimentos das famílias, não sendo os aumentos salariais suficientes para
compensar a perda de poder de compra. A inflação atingiu 5,3% em 2023, desceu para cerca
de 2,4 em 2024 4 e deverá estabilizar em torno de 2% em 2025 5. A precariedade salarial e
social já era evidente em 2022, quando o Inquérito às Condições de Vida e Rendimento, do
Instituto Nacional de Estatística, indicava que 17% das pessoas estavam em risco de
pobreza, incluindo 10% de adultos em idade ativa, assin alando um aumento superior a 2%
entre os menores de 18 anos6.
Paralelamente, os custos da habitação — seja em regime de arrendamento ou aquisição —
continuam a subir. Entre abril e junho de 2025, o valor de casas vendidas registou um
aumento de 17,2%, colocando Portugal no topo da tabela na União Europeia7 e pressionando
fortemente os orçamentos familiares.
No âmbito da concertação social, o acordo tripartido 2025-2028, celebrado entre o Governo,
confederações patronais e sindicatos8, prevê aumentos anuais da retribuição mínima mensal
garantida até 2028. O valor fixado é de 870 euros em 2025, com previsão de 920 euros em
2026 e 1020 euros em 2028. Contudo, face à inflação e ao aumento das despesas com
habitação, este aumento revela-se insuficiente e precarizante.
É por isso urgente aumentar os salários - mínimo e médio -, valorizar as carreiras e profissões,
e reforçar o papel do salário mínimo nacional como instrumento de justiça social e económica.
Tal medida permitirá melhorar as condições de vida das pessoas, promover uma distribuição
mais equitativa da riqueza gerada no país, corrigir a desvalorização dos salários verificada
nas últimas décadas, reforçar as contribuições para a Segurança Social e recuperar o poder
de compra perdido devido à inflação.
Assim, o LIVRE propõe um compromisso de subida do salário mínimo nacional ao longo da
legislatura: para 2026, defende um aumento de 95 euros, passando o SMN para 965 euros,
com o objectivo de chegar aos 1250 euros em 2029, desse modo reforçando o valor do
4 Índice de preços no consumidor de dezembro de 2024, Instituto Nacional de Estatística, 13 de janeiro de 2025.
5 Boletim Económico | Outubro 2025, Banco de Portugal.
6 Inquérito às Condições de Vida e Rendimento, Instituto Nacional de Estatística, 27 de novembro de 2023.
7 House price developments in the EU Member States, Eurostat, 3 de outubro de 2025.
8 Governo assina acordo com parceiros sociais para aumentar salários, de 1 de outubro de 2024.
trabalho como componente produtiva essencial na economia, mesmo porque a economia
portuguesa é passível de crescimento sustentado.
Assim, ao abrigo das disposições constitucionais e regimentais aplicáveis, o Grupo
Parlamentar do LIVRE propõe à Assembleia da República que , através do presente
Projeto de Resolução, delibere recomendar ao Governo o aumento, em 2026, do valor
do salário mínimo nacional para os 965 euros, e o compromisso de chegar aos 1250
euros em 2029.
Assembleia da República, 28 de novembro de 2025
As Deputadas e os Deputados do LIVRE
Isabel Mendes Lopes Filipa Pinto
Jorge Pinto Patrícia Gonçalves
Paulo Muacho Rui Tavares
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