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Projeto de Resolução n.º 440/XVII/1.ª
Pela abertura de um escritório de representação de Portugal em Taiwan
Exposição de Motivos
O PAN considera essencial que Portugal se posicione de forma estratégica no atual
cenário económico internacional. Taiwan, com uma população de cerca de 23 milhões
de habitantes e um Produto Interno Bruto que ultrapassa os 800 mil milhões de dólares,
destaca-se como uma das economias mais inovadoras e tecnologicamente avançadas
da Ásia. Setores como os semicondutores, microel etrónica, biotecnologia, energias
renováveis e inteligência artificial colocam Taiwan na linha da frente do
desenvolvimento global, tornando -o um parceiro particularmente relevante num
momento em que a Europa procura reforçar a resiliência das suas cadeias de
abastecimento e reduzir dependências críticas.
A União Europeia tem, aliás, aprofundado a sua cooperação com Taiwan em áreas que
vão da transição energética à inovação digital, passando pela mobilidade académica,
defesa dos direitos humanos e investiga ção científica. No contexto da Estratégia
Europeia para o Indo-Pacífico, vários Estados-membros da União Europeia optaram por
criar estruturas permanentes em Taipé, como escritórios comerciais, económicos ou
culturais, que promovem os seus interesses estratégicos sem alterar o enquadramento
político decorrente da política europeia de “Uma Só China”.
Para o PAN, Portugal não deve ficar alheio a esta transformação. A crescente
necessidade de diversificar mercados, atrair investimento qualificado, apoiar a
internacionalização das empresas e garantir maior segurança nas cadeias de exportação
e importação exige uma presença ativa no Indo-Pacífico. Taiwan oferece oportunidades
particularmente relevantes para o tecido económico português, tanto na cooperação
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tecnológica e científica como no investimento, no comércio e no intercâmbio
universitário.
As economias portuguesa e taiwanesa revelam complementaridades evidentes em
áreas como as energias renováveis, cerâmica, economia digital e inovação verde.
Paralelamente, o número crescente de investigadores, estudantes, empresários e
trabalhadores portugueses radicados em Taiwan torna imprescindível garantir
estruturas de apoio institucional, representação e coordenação no território.
Acresce que Taiwan tem vindo a cultiva r relações profícuas com países lusófonos,
financiando projetos de cooperação técnica, programas educativos e iniciativas culturais
em Estados como Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Angola e Moçambique. Esta ligação
histórica ao espaço da Lusofonia reforça o potencial de Taiwan enquanto parceiro
natural numa estratégia de diplomacia económica, cultural e científica que Portugal
deve valorizar.
Diversos países da União Europeia e da OCDE, entre os quais Alemanha, França, Reino
Unido, Suécia, Finlândia, Espanh a, Países Baixos, Áustria, Dinamarca, Irlanda, Suíça,
Itália, Chéquia, Polónia e Lituânia, já dispõem de representações económicas ou
culturais em Taipé, operadas por agências equivalentes à AICEP ou por instituições
similares ao Instituto Camões e que têmpermitido defender interesses estratégicos sem
qualquer impacto sobre o quadro diplomático tradicional.
Em 13 dezembro de 2023, uma resolução do Parlamento Europeu (2023/2829(RSP)),
mantendo a sua posição a favor da política de “Uma só China”, solicitou “ à Comissão e
aos Estados-Membros que facilitem e incentivem os intercâmbios culturais e educativos,
a fim de promover a colaboração científica e académica no contexto mais vasto da
relação comercial e de investimento” e instou “a Comissão a facilitar a par ticipação de
representantes da sociedade civil, de empresas e de organizações taiwanesas na
cooperação comercial e económica”. Isto, apesar da UE “manter a sua posição a favor
da política de «Uma só China»”.
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O PAN defende, por isso, que Portugal siga o me smo caminho destes países, criando
uma representação oficial em Taiwan sob a tutela da AICEP ou do Instituto Camões. A
primeira permitiria reforçar o foco económico, tecnológico e empresarial; a segunda
privilegiaria o intercâmbio académico, cultural e lin guístico, duas dimensões nas quais
Portugal tem vasto potencial de cooperação.
A isto acresce que a atual situação, em que os assuntos relativos a Taiwan são geridos a
partir do Consulado de Portugal em Macau, acarreta limitações claras de acessibilidade,
segurança e autonomia, tanto para cidadãos portugueses como taiwaneses. Este
modelo, dependente das autoridades da República Popular da China, reveste -se
inadequado às necessidades atuais e pode comprometer o desenvolvimento de relações
bilaterais estruturadas.
Tal situação leva ainda a grandes entraves burocráticos à logística de exportação de
produtos portugueses (tais como a inexistência de linhas de contacto estabelecidas, da
possibilidades de partilha de contentores de transporte de mercadorias e de ob tenção
de licenças de importação diretamente para Taiwan), o que acaba por gerar um défice
na balança comercial portuguesa, uma vez que segundo dados do Gabinete de
Estratégia e Estudos do Ministério da Economia, em 2021 Portugal vendeu produtos a
Taiwan n o valor de quase 134 milhões de euros (0,21% do total de exportações
portuguesas), enquanto as importações ascenderem a mais de 470 milhões de euros
(0,57%).
Assim, com a presente iniciativa o PAN propõe que seja criado uma um escritório de
representação de Portugal em Taiwan, garantindo um canal direto, estável e
transparente de cooperação económica, científica e cultural, algo que seria consistente
com as orientações europeias para o Indo -Pacífico, com os interesses estratégicos do
país e com uma visão d e futuro que valorize inovação, sustentabilidade e abertura ao
mundo.
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Nestes termos, a abaixo assinada Deputada Única do PESSOAS -ANIMAIS-NATUREZA,
ao abrigo das disposições constitucionais e regimentais aplicáveis, propõe que a
Assembleia da República adote a seguinte Resolução:
A Assembleia da República resolve, nos termos do n.º 5 do artigo 166.º da Constituição
da República Portuguesa, recomendar ao Governo que:
1 - facilite e incentive os intercâmbios culturais e educativos de Portugal com
Taiwan, a fim de promover a colaboração científica e académica no contexto
mais vasto da relação comercial e de investimento; e
2 - Avalie a abertura de um escritório de representação de Portugal em Taiwan,
com sede em Taipé, com o objetivo de promover a cultura e os interesses de
Portugal, e reforçar a presença nacional na região do Indo-Pacífico.
Assembleia da República, Palácio de São Bento, 28 de Novembro de 2025
A Deputada,
Inês de Sousa Real
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