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Projeto de Resolução n.º 568/XVII/1.ª
Recomenda ao Governo a inclusão da Caricatura Política como Património imaterial
Português
A sátira social e política em forma de desenho tem uma longa tradição na imprensa
portuguesa. E é inseparável da liberdade de expressão. Desde a monarquia
constitucional até aos dias de hoje, funcionou como barómetro do debate cívico, como
consciência crítica da sociedade. Não por acaso, foi perseguida nos períodos de ditadura
e alvo primordial das censuras de todo o tipo.
O chamado “cartoon político” é expressão máxima desta sátira, que se tornou num
género jornalístico autónomo, perfeitamente identificável e enquadrável no espaço de
opinião dos principais órgãos de informação à escala internacional. Denunciando
injustiças e arbitrariedades de todo o tipo com recurso ao humor gráfico. Através dos
tempos, beneficiando com a evolução dos recursos técnicos, passou a abranger
praticamente toda a informação gráfica, com destaque para jornais e revistas, tanto em
papel como nos meios digitais.
A caricatura política tem afinidades com as artes plásticas. Não por acaso, artistas de
grande renome em Portugal celebrizaram-se também pelo exercício desta actividade
que muitos hoje enquadram no chamado jornalismo de opinião. O desenho e a pintura
associados ao exercício do humor são elementos estruturantes desta forma peculiar de
sátira que todos os autocratas detestam.
Foram caricaturistas de grande talento artistas plásticos de reconhecido mérito cuja
memória sobreviveu ao seu desaparecimento físico, ficando imortalizada nas
publicações em que colaboraram. Com destaque para Rafael Bordalo Pinheiro, mestre
do desenho satírico que em 1875 criou o iconográfico Zé Povinho, que personifica o
povo português. Imagem que viveu e vive além das publicações impressas, tendo
representação em outras técnicas, como a cerâmica.
Tomás Leal da Câmara, Jorge Colaço, Manuel Roque Gameiro, Francisco Valença, Stuart
Carvalhais, Almada Negreiros, Jorge Barradas e Carlos Botelho foram outros cartunistas,
ilustradores e desenhadores que exercitaram a caricatura de pendor político. Uns com
humor mais elegante, outros mais corrosivos. Cultivando estilos muito diversificados em
publicações que deixaram rasto. Das quais se destacam A Lanterna Mágica, A Paródia,
Papagaio Real, O António Maria, Os Ridículos e Sempre Fixe.
Gerações posteriores souberam cultivar a arte do humor visual, honrando e
aperfeiçoando a melhor sátira em forma de desenho. Com o traço inconfundível de José
Vilhena, João Abel Manta, Sam, Augusto Cid, Pedro Palma, António Moreira Antunes e
António Maia. Prolongando-se, em gerações mais recentes, nos trabalhos de cartunistas
como Luís Afonso, José Bandeira, Cristina Sampaio, Nuno Saraiva, Vasco Gargalo,
Henrique Monteiro ou André Carrilho.
O filósofo francês Henri Bergson, galardoado com o Prémio Nobel da Literatura,
escreveu um célebre ensaio intitulado O Riso, em que celebrava o humor como atividade
exclusivamente humana. Dizia ele que o homem é o único animal dotado com o dom do
riso que se distingue por várias tonalidades, incluindo a sátira e a ironia. Para este
pensador, só o humor conduz à inteligência verdadeira, desempenhando uma relevante
função didáctica quando castiga e corrige maus hábitos, designadamente na esfera
política.
Nos tempos mais recentes, tal como há século e meio, a caricatura não pretende apenas
divertir ou fazer rir. Ambiciona também intervir socialmente, corrigir injustiças, fazer
pensar. Agora com recurso a técnicas digitais que ganharam grande popularidade e
contribuem para novas formas de observar e interpretar o mundo. Mas mantendo as
traves-mestras que remontam a épocas mais recuadas: exageração e simplificação,
numa linguagem muito própria que expressa pensamento crítico. Sem prestar vénias ao
poder político, tenha a cor ou inclinação que tiver.
O cartoon político tem vivido sob permanente ameaça neste século que regista muitos
recuos em direitos fundamentais, nomeadamente a liberdade de expressão e a
liberdade de informação, a que se somam hoje dinâmicas próprias do espaço digital,
onde campanhas de intimidação e cancelamento substituem, muitas vezes, a censura
formal.
Já neste século, o humor gráfico sofreu a mais dura pena: a condenação à morte.
Desenhadores dinamarqueses, como Kurt Westergaard e Lars Vilks, foram alvos de
atentados e tiveram de receber protecção policial em 2005 por ousarem caricaturar o
profeta Maomé. Em 2015, um ataque terrorista à redação do jornal satírico francês
Charlie Hebdo provocou 12 vítimas mortais, incluindo os cartunistas Cabu, Charb,
Honoré, Tignous e Georges Wolinski.
Mesmo em países democráticos, as caricaturas políticas estão em regressão devido a
insidiosos mecanismos de autocensura. Como ficou patente na decisão, assumida pelo
New York Times em 2019, de deixar de publicar caricaturas políticas, refutando
anteriores promessas de investir em formatos de jornalismo visual.
Em Portugal, assistimos a um fenómeno semelhante, ainda que não assumido.
Publicam-se hoje cada vez menos caricaturas na nossa imprensa, os caricaturistas que
restam são cada vez mais vilipendiados por cometerem atentados ao bom gosto e
apontados a dedo por deformarem rostos (essência da caricatura) ou faltarem ao
respeito devido a altas entidades. Como se nunca tivéssemos deixado de viver no país
do “respeitinho”.
O célebre cartunista francês Plantu, fundador em 2006 da associação Cartooning for
Peace, defende que o desenho político publicado na imprensa seja reconhecido pela
Unesco como direito humano fundamental. Conta, para o efeito, com o apoio da
organização não-governamental Repórteres Sem Fronteiras. «O humor é pedra basilar
da democracia», considera Plantu, colaborador permanente do jornal Le Monde.
O inventário nacional do património cultural imaterial abrange a capeia arraiana, o fado,
a dieta mediterrânica, a equitação portuguesa, o cavaquinho, a calçada portuguesa, os
tapetes de Arraiolos, as danças tradicionais da Lousa, o “cante” alentejano, a louça preta
de Bisalhães, o barro de Estremoz, a festa em honra de Nossa Senhora da Penha de
França, as Endoenças de Entre-os-Rios, o fabrico de chocalhos, a falcoaria, a bateira
avieira no Rio Tejo, os caretos de Podence, o barco moliceiro, a arte xávega da Costa da
Caparica, as festas do povo de Rio Maior, o culto a Nossa Senhora da Piedade de Loulé,
o canto dos reis em Ovar, o Teatro Dom Roberto, a festa em honra da Senhora dos
Navegantes na Ilha da Culatra, a Festa dos Tabuleiros em Tomar e o Carnaval de Torres
Vedras, entre várias outras tradições culturais, sociais e religiosas.
Faz todo o sentido, neste contexto, e estando neste momento a decorrer, por todo o
país, diversos eventos de Comemoração dos 150 anos de Zé Povinho, incluir nesta lista
a caricatura política, como expressão inconfundível da liberdade de expressão,
barómetro da saúde democrática e baluarte da resistência histórica aos períodos de
ditadura, com longa e frutuosa tradição em Portugal.
Resolução
Assim, ao abrigo das disposições constitucionais e regimentais aplicáveis, o Grupo
Parlamentar da Iniciativa Liberal propõe que a Assembleia da República recomende
ao Governo que:
1. Incluir a caricatura política na lista do património cultural imaterial português.
2. Reconhecer, desta forma, a importância do cartoon político e do humor
gráfico, enquanto expressões essenciais da liberdade de expressão, hoje
ameaçadas por mecanismos de intolerância e autocensura até em países com
sistemas democráticos.
Palácio de São Bento, 11 de fevereiro de 2026
Os Deputados da Iniciativa Liberal,
Rodrigo Saraiva
Angélique Da Teresa
Joana Cordeiro
João Alves Ambrósio
Jorge Miguel Teixeira
Mariana Leitão
Mário Amorim Lopes
Marta Patrícia Silva
Rui Rocha
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