Documento integral
Projeto de Resolução n.º 695/XVII/1.ª
Pela manutenção da urgência de obstetrícia e ginecologia do
Hospital do Barreiro
Exposição de motivos:
A urgência de obstetrícia e ginecologia do Hospital Nossa Senhora do Rosário, no Barreiro,
que integra a Unidade Local de Saúde do Arco Ribeirinho, constitui há décadas uma resposta
essencial para a saúde materno ‑infantil dos concelhos do Barreiro, Moita, Montijo e
Alcochete. A área de influência deste hospital abrange mais de 230 mil habitantes1.
Entrou em vigor o Decreto -Lei n.º 2/2026, de 14 de janeiro, que estabelece um modelo
organizativo que prevê o funcionamento centralizado dos serviços de urgência externa do
Serviço Nacional de Saúde. No quadro da aplicação deste regime, o Governo anunciou que
a primeira urgência externa ce ntralizada será criada na Península de Setúbal, na área de
ginecologia e obstetrícia, com concentração da urgência regional no Hospital Garcia de Orta,
em Almada, mantendo‑se apenas a atividade programada nas restantes unidades2.
Esta decisão é contestada pela população e pelos autarcas da região. Utentes, profissionais
de saúde, bombeiros e autarcas têm manifestado publicamente as suas preocupações contra
o encerramento da urgência de obstetrícia do Barreiro. Numa carta enviada ao Ministério da
Saúde, os nove presidentes de câmara da Península de Setúbal recordam que este serviço
realizou mais de 16.000 partos entre 2014 e 2024 3 e é descrito como um pilar da resposta
materno‑infantil na região. Foi uma das unidades que menos falhou durante os períodos de
constrangimentos e encerramentos rotativos, e segundo a mesma carta, o seu encerramento
é um erro estratégico. Os autarcas alertam ainda que a concentração da urgência regional no
Hospital Garcia de Orta (HGO) vai agravar a sobrecarga de um serviço que já hoje funciona
muito pressionado, e que o HGO deve manter capacidade para os casos mais diferenciados
da região4.
1 Unidade Local de Saúde do Arco Ribeirinho, Serviço Nacional de Saúde
2 Governo avança com urgências regionais para colmatar falhas no serviço | HealthNews
3 Barreiro. Autarcas contra fecho de urgência de obstetrícia – Observador
4 ibidem
Os dados do relatório SNS| A Saúde dos Números da ACSS, cujos resultados foram
publicados na imprensa5 mostram que, em 2025, houve menos casos agudos obstétricos em
vários hospitais, mas isso correspondeu sobretudo a uma deslocação da procura. No Hospital
da Amadora registou‑se uma diminuição de 14% dos casos agudos, na Maternidade Alfredo
da Costa de 15,3 %, no Barreiro ‑Montijo de 29,1% e em Setúbal de 25,2%, enquanto
aumentaram os episódios em unidades de referência: Santa Maria teve mais 89,2%, São
Francisco Xavier mais 12,2%, Almada mais 9,6% e Loures mais 5,1%6.
Em paralelo, os partos antes da chegada a uma unidade de saúde, aumentaram 114%, com
o INEM a responder a 60 partos em meios de emergência e 23 na via pública em 2025 7, o
que traduz um acréscimo de risco associado ao aumento das deslocações. Estes dados
indicam que reorganizações que empurram as grávidas para serviços mais distantes, sem
assegurar uma rede de proximidade adequada, tendem a agravar a exposição a situações de
maior risco.
Até ao momento, não foram apresentados estudos ou avaliações públicas que demonstrem
que o encerramento da urgência do Barreiro e a concentração em Almada melhoram o acesso
das populações.
A defesa do SNS exige que decisões desta importância sejam tomadas com transparência e
participação das comunidades, com base em critérios científicos claros. No caso da urgência
de obstetrícia e ginecologia do Hospital do Barreiro, os fatores demográficos , bem como a
oposição firme da população e dos seus representantes, impõem que o Governo reconsidere
a opção de encerramento e assegure a continuidade da urgência. O caminho responsável é
aproximar os cuidados das pessoas, não recentralizar à custa da segurança dos utentes.
Assim, ao abrigo das disposições constitucionais e regimentais aplicáveis, o Grupo
Parlamentar do LIVRE propõe à Assembleia da República que, através do presente
Projeto de Resolução, delibere recomendar ao Governo que:
Mantenha a urgência de obstetrícia e ginecologia do Hospital Nossa Senhora do Rosário
aberta, assegurando as condições necessárias de recursos humanos e materiais para
garantir uma resposta segura e de proximidade às populações dos concelhos do Barreiro,
Moita, Montijo e Alcochete.
Assembleia da República, 11 de março de 2026
As Deputadas e os Deputados do LIVRE
Isabel Mendes Lopes Filipa Pinto
5 SNS sem melhoras no ano passado: menos consultas, mais utentes sem médico e esperas maiores - Expresso
6 ibidem
7 ibidem
Jorge Pinto Patrícia Gonçalves
Paulo Muacho Rui Tavares
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