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Projeto de Resolução n.º 841/XVII/1.ª
Recomenda ao Governo que defenda o povo cubano e promova o respeito pelos
direitos, liberdades e garantias fundamentais em Cuba
A situação vivida em Cuba não pode ser analisada de forma séria através das lentes
ideológicas e indulgentes com que parte da esquerda europeia e portuguesa continua a
olhar para o regime cubano. Ao longo de décadas, o discurso de romantização da
revolução cubana procurou transformar num símbolo de emancipação aquilo que, na
prática, se consolidou como um regime autoritário, fechado, assente na supressão do
pluralismo político, na limitação severa das liberdades fundamentais e na repressão
sistemática de todos quantos ousam contestar o poder instituído.
Cuba continua a ser um Estado de partido único, sem eleições livres e competitivas, sem
alternância democrática, sem liberdade de imprensa, sem espaço para oposição política
organizada e sem as garantias próprias de um Estado de direito digno desse nome. A
concentração do poder político, a ausência de escrutínio democrático efetivo, o controlo
da informação, a perseguição de dissidentes e a repressão de manifestações pacíficas
não são desvios ocasionais ou imperfeições marginais do sistema: são traços estruturais
do próprio regime comunista.
A repressão política em Cuba não constitui apenas uma realidade histórica. Continua a
manifestar-se na vigilância e intimidação de opositores, no condicionamento da
atividade cívica independente, na perseguição de jornalistas, ativistas e defensores dos
direitos humanos, e na existência de cidadãos detidos ou condenados por razões de
natureza política ou por atos de dissidência pacífica. A ausência de liberdade não é, pois,
um dado abstrato ou meramente teórico. Tem expressão concreta na vida de milhões
de cubanos que vivem privados da possibilidade de exprimir livremente as suas opiniões,
de se associarem politicamente, de participar num debate público livre ou de escolher
democraticamente os seus governantes.
A falta de liberdade política não está dissociada da realidade económica e social do país.
Pelo contrário, a estagnação, a escassez, a precariedade e a falta de perspetivas que
atingem a população cubana são inseparáveis de um modelo político e económico
fechado, centralizado e hostil à liberdade individual e à iniciativa privada. Um regime
que concentra em si o poder político e económico tende inevitavelmente à ineficiência,
à arbitrariedade, à falta de responsabilização e à incapacidade de gerar prosperidade
sustentada. A pobreza, a carência de bens essenciais, a degradação das condições de
vida e a emigração de tantos cubanos não podem ser lidas apenas como resultado de
fatores externos. Resultam também, e de forma decisiva, do fracasso prolongado de um
modelo que negou liberdade política e sufocou a liberdade económica.
A Iniciativa Liberal entende que a solidariedade com o povo cubano não pode ser
confundida com complacência para com o regime cubano. Defender o povo cubano é
defender o seu direito a viver em liberdade, a participar politicamente, a discordar sem
medo, a empreender, a prosperar e a escolher livremente o seu caminho. Não há
verdadeira solidariedade com Cuba quando se ignora o carácter repressivo do regime
ou quando se pretende reduzir toda a complexidade da realidade cubana a um simples
confronto geopolítico entre Havana e Washington.
Isso não significa, naturalmente, que Portugal deva aceitar ou legitimar declarações
impróprias de dirigentes estrangeiros suscetíveis de ser entendidas como ameaças. A
defesa da liberdade e dos direitos humanos não se confunde com qualquer tolerância
perante discursos de força ou bravatas geopolíticas. Mas importa igualmente não cair
no erro de transformar esse plano acessório no centro do debate. O problema essencial
de Cuba não é uma formulação infeliz ou mais agressiva vinda do exterior. O problema
essencial de Cuba é a persistência de um regime que nega aos cubanos aquilo que
qualquer povo deve poder exigir: direitos, liberdades, garantias, dignidade e
autodeterminação democrática.
É precisamente por isso que a posição de Portugal deve ser clara, coerente e
moralmente exigente. O nosso país deve afirmar, em todas as instâncias internacionais
relevantes, que está ao lado do povo cubano e não ao lado do regime cubano. Deve
rejeitar tanto as leituras propagandísticas que procuram absolver a ditadura cubana,
como as abordagens externas, sejam interferências e colaborações militares, sejam
embargos económicos, que ignoram a centralidade da liberdade e da dignidade das
pessoas concretas. Uma política externa orientada por princípios liberais exige uma
defesa consistente dos direitos humanos, do pluralismo democrático, do Estado de
direito e da liberdade individual.
Portugal deve, por isso, contribuir para manter viva a exigência internacional de respeito
pelas liberdades fundamentais em Cuba, incluindo a liberdade de expressão, de
imprensa, de associação, de reunião e de participação política. Deve também sustentar,
com firmeza, a necessidade de libertação de todos os presos políticos e de todos os
cidadãos detidos por razões de opinião ou por participação cívica pacífica. Do mesmo
modo, deve apoiar a sociedade civil cubana independente, os jornalistas livres, os
ativistas dos direitos humanos, os artistas, académicos e cidadãos que, apesar da
repressão, continuam a trabalhar pacificamente por uma Cuba mais aberta, plural e
livre.
A defesa do povo cubano exige ainda uma compreensão política essencial: o futuro de
Cuba deve pertencer aos cubanos. Não à nomenclatura do regime, que há décadas
sequestra a liberdade do país. Não a interesses ideológicos externos que usam Cuba
como bandeira simbólica. E não a quaisquer tentações de imposição vinda de fora. O
que importa afirmar é o direito dos cubanos a decidir livremente, em democracia, com
pluralismo, com garantias, com liberdade económica e política, e com instituições
responsáveis perante os cidadãos.
Num momento em que continua a ser tentador, para algumas forças políticas, tratar
Cuba como tema de alinhamento ideológico automático, importa recentrar o debate
naquilo que verdadeiramente interessa: o povo cubano. É esse povo que sofre as
consequências de décadas de repressão, de pobreza e de ausência de liberdade. É esse
povo que merece a solidariedade de Portugal. E é esse povo que deve estar no centro
de qualquer posição política séria, equilibrada e digna de uma democracia liberal.
Assim, Portugal deve recusar a romantização de uma ditadura, rejeitar qualquer
complacência com a opressão e afirmar sem ambiguidades que a liberdade dos cubanos
não é negociável. A melhor forma de defender Cuba é defender os cubanos. A melhor
forma de respeitar a sua soberania é desejar que essa soberania deixe de ser monopólio
de um aparelho autoritário e passe a ser plenamente exercida por cidadãos livres.
Resolução
Assim, ao abrigo das disposições constitucionais e regimentais aplicáveis, o Grupo
Parlamentar da Iniciativa Liberal propõe que a Assembleia da República recomende ao
Governo que:
1. Defenda, nas suas relações bilaterais e multilaterais, o povo cubano e o seu
direito a viver em liberdade, dignidade e prosperidade, reafirmando que o
futuro de Cuba deve ser livremente determinado pelos cubanos, em ambiente
de pluralismo democrático;
2. Reitere, em todas as instâncias internacionais competentes, a preocupação de
Portugal com a situação dos direitos humanos em Cuba, nomeadamente
quanto à repressão de opositores, ativistas, jornalistas independentes e
manifestantes pacíficos, bem como quanto à existência de presos políticos;
3. Inste as autoridades cubanas a libertarem todos os cidadãos detidos por
motivos políticos ou de opinião, a cessarem a perseguição da dissidência
pacífica e a garantirem o exercício efetivo das liberdades de expressão, de
imprensa, de associação, de reunião e de participação política;
4. Apoie, em coordenação com os parceiros europeus e com outras democracias,
iniciativas de aproximação à sociedade civil cubana independente, aos
defensores dos direitos humanos, aos jornalistas independentes, aos
académicos, aos artistas e a todos os que promovem pacificamente uma
evolução democrática em Cuba;
5. Promova, no plano diplomático, uma posição clara de condenação da natureza
autoritária do regime cubano e de apoio a uma evolução pacífica de Cuba para
um regime assente no pluralismo político, no Estado de direito e no respeito
integral pelos direitos, liberdades e garantias fundamentais;
6. Defenda, junto dos seus parceiros internacionais, que a solidariedade com
Cuba deve ser dirigida ao povo cubano e não à legitimação política do regime,
devendo traduzir-se no apoio à liberdade, à responsabilidade institucional e à
abertura política, cívica e económica do país;
7. Reforce, nas instâncias internacionais adequadas, a necessidade de garantir
condições para que o povo cubano possa escolher livremente o seu futuro,
num quadro de democracia representativa, respeito pela dignidade humana e
efetiva proteção das liberdades fundamentais.
Palácio de São Bento, 15 de abril de 2026
Os Deputados da Iniciativa Liberal,
Rodrigo Saraiva
Angélique da Teresa
Carlos Guimarães Pinto
Joana Cordeiro
Jorge Miguel Teixeira
Mariana Leitão
Mário Amorim Lopes
Miguel Rangel
Rui Rocha
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