Documento integral
PARTIDO COMUNISTA PORTUGUÊS
Grupo Parlamentar
Projeto de Resolução n.º 309/XVII/1.ª
Reforço da capacidade das unidades de saúde do SNS no distrito de Setúbal
Exposição de motivos
O Serviço Nacional de Saúde está confrontado com problemas que não são
conjunturais, são sim dificuldades estruturais que se tem vindo a agravar de
sobremaneira, que são conhecidas de todos e aos quais os governos tem optado por
não responder e em muitos casos deixado mesmo agravar.
A situação no distrito de Setúbal é exemplo marcante dessa realidade. Anos de política
de direita promovida por sucessivos governos do PS e do PSD/CDS comprovam o
deliberado objetivo de desvalorizar o SNS e aprofundar o caminho para o seu
desmantelamento.
Milhares de utentes sem médicos de família, insuficiente resposta dos centros de
saúde, hospitais com perda de valências, hospitais com urgências encerradas dias a fio,
em diversas especialidades, momentos diversos em que o distrito de Setúbal fica sem
qualquer serviço de urgência de ginecologia e obstetrícia – é este o retrato de uma
realidade que põe em causa o direito constitucional à Saúde, daquela população.
Sublinhe-se que a alternativa às urgências de ginecologia e obstetrícia na margem sul
do Tejo são os hospitais do distrito de Lisboa, o que obriga a passar as Pontes 25 de
Abril ou Vasco da Gama, que têm um trânsito crescente e podem mesmo ter situações
de interrupção, não deixando, nessa situação, qualquer alternativa, o que significa
recuar décadas.
O distrito de Setúbal tem mais de 900 mil habitantes, distribuídos por 13 concelhos.
Destes (de acordo com os dados do sítio da Internet, transparencia.sns.gov.pt), 257918
não tinham, em agosto de 2025, médico de família atribuído.
No distrito de Setúbal, em 2024, fizeram o teste do pezinho 6903 crianças.
Nos últimos meses, os encerramentos de urgências sucedem-se, sendo raros os fins de
semana em que não esteja, pelo menos, uma urgência de ginecologia e obstetrícia
encerrada e há vários momentos em que estiveram as três urgências fechadas.
Entretanto, crescem os casos de grávidas cujos partos ocorrem em ambulâncias ou em
viaturas particulares e até na rua, pondo em risco desnecessário tanto as mães como
os nascituros. Só em 2025, o número de partos em ambulâncias a nível nacional
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ascende a mais de meia centena, superando mesmo o número do total do ano
passado.
Depois de o Primeiro-Ministro ter afirmado no debate do Programa do Governo que os
problemas no distrito de Setúbal estavam resolvidos e da Ministra da Saúde ter
anunciado a milagrosa solução da contratação de uma equipa de médicos para o
Hospital Garcia de Orta, que garantiria a manutenção das urgências de ginecologia e
de obstetrícia desta unidade em funcionamento, mesmo que todas as outras
fechassem, no fim de semana de 13 e 14 de Setembro, estiveram novamente
encerradas todas as urgências, revelando o plano de degradação do SNS para justificar
novas medidas.
A Ministra da Saúde afirmou na Assembleia da República, na sequência do
requerimento do PCP para a sua audição sobre a situação nas urgências de ginecologia
e de obstetrícia, que “o Governo vai criar a curto prazo uma urgência regional de
obstetrícia na Península de Setúbal, com o Hospital Garcia de Orta a funcionar em
permanência e Setúbal a receber casos referenciados pelo SNS 24 e o INEM”.
Ora esta opção, implica o encerramento da maternidade no Hospital do Barreiro, e que
a própria Ministra reconhece ser insuficiente. Chegou mesmo a afirmar que o Hospital
Garcia de Orta, “não é suficiente para a Península de Setúbal” e que, sem uma unidade
a funcionar em permanência, a tendência é para os médicos saírem para outras
unidades, apenas vai acrescentar problemas aos problemas já existentes, deixando
uma boa parte das mulheres do distrito, a mais de 40 minutos do único hospital que
pode vir a ter urgências abertas.
E para assegurar o funcionamento da urgência do Hospital Garcia de Orta, a Ministra
da Saúde assumiu, que em último caso obrigará ao deslocamento dos médicos do
Barreiro e de Setúbal. Deste modo, o Governo vai empurrar ainda mais médicos
especialistas em ginecologia e obstetrícia (cuja carência no SNS é enorme), para fora
do SNS. Com esta opção o Governo será responsável por agravar os problemas na
Península de Setúbal.
O encerramento de unidades existentes não é solução, induzindo, não só à
concentração de meios e à redução de capacidade do SNS, mas também à degradação
da qualidade do serviço. E para os utentes, quando as dificuldades de mobilidade são
crescentes, significará pior serviço e riscos acrescidos.
A solução passa por valorizar o Serviço Nacional de Saúde e não estiolá-lo ainda mais.
Passa por contratar os médicos em falta, valorizando as suas carreiras, os seus salários
e as condições de trabalho. Passa por construir as unidades em falta e desde logo o
Hospital no Seixal e requalificar o conjunto de unidades existentes, dotando-as dos
médicos e de outros trabalhadores.
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Assim, nos termos da alínea b) do artigo 156.º da Constituição e da alínea b) do n.º 1
do artigo 4.º do Regimento, os Deputados do Grupo Parlamentar do PCP propõem que
a Assembleia da República adote a seguinte
Resolução
A Assembleia da República, nos termos n.º 5 do artigo 166.º da Constituição da
República, resolve:
1) Recomendar ao Governo que reforce a capacidade do Serviço Nacional de
Saúde no distrito de Setúbal através das seguintes medidas:
a) Lançamento imediato do concurso para a construção do Hospital no Seixal;
b) Requalificação do Hospital do Montijo;
c) Reposição e reforço das valências e especialidades no Hospital de Nossa
Senhora do Rosário, no Barreiro e no Hospital de São Bernardo em Setúbal;
d) Alargamento da resposta ao nível dos cuidados de saúde primários ao nível
da saúde mental, saúde oral, saúde visual, da reabilitação física, e da
nutrição;
e) Realização de consultas de especialidade descentralizadas nos centros de
saúde;
f) Investimento no reforço e modernização dos equipamentos e instalações;
g) O funcionamento regular, das urgências de ginecologia e de obstetrícia e
das urgências de pediatria, nos Hospitais Garcia de Orta em Almada, Nossa
Senhora do Rosário no Barreiro e São Bernardo em Setúbal, 24 horas por
dia, todos os dias do ano;
h) Instalação da maternidade no Hospital do Litoral Alentejano.
2) Para dar concretização ao previsto no número anterior, assegurando os
cuidados de saúde a que os utentes têm direito, o Governo adota as seguintes
medidas para a contratação e fixação de profissionais de saúde:
a) A atribuição de médico e enfermeiros de família a todos os utentes;
b) Inicie no imediato, os processos negociais com os respetivos sindicatos para
a valorização das carreiras dos profissionais de saúde, dos seus salários, das
progressões, e a garantia de condições de trabalho;
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c) Implemente um regime de dedicação exclusiva, com majoração em 50% da
remuneração base, assim como do tempo de serviço, que abranja médicos
e enfermeiros, podendo ser alargado aos demais profissionais de saúde em
carência no SNS;
d) Proceda à integração do internato médico na carreira médica.
3) Rejeitar a intenção de concentrar e encerrar serviços de urgência de
ginecologia e de obstetrícia dos hospitais do distrito de Setúbal.
Assembleia da República, 22 de setembro de 2025
Os Deputados,
Paula Santos, Paulo Raimundo, Alfredo Maia
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