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ASSEMBLEIA DA REPÚBLICA
PROJETO DE RESOLUÇÃO N.º 748/XVII
Por uma resposta imediata, justa e eficaz ao aumento do custo de vida, pela
proteção das famílias, do emprego e do tecido produtivo nacional
Exposição de motivos
Há momentos na vida de um país em que os números deixam de ser suficientes para
descrever a realidade. Este é um desses momentos.
Hoje, em Portugal, milhares de famílias deixaram de viver com estabilidade e passaram
apenas a sobreviver. São fa mílias que fazem contas ao cêntimo no supermercado, que
reduzem consumos essenciais de energia, que adiam despesas de saúde e que sentem,
mês após mês, uma pressão crescente sobre o seu orçamento, em particular com a
habitação, a alimentação, a eletricidad e, o gás e os combustíveis. Esta realidade não é
abstrata. É vivida diariamente por quem trabalha e, ainda assim, não consegue
acompanhar o aumento generalizado do custo de vida.
Esta realidade não é abstrata. É vivida diariamente por quem trabalha e, aind a assim,
não consegue acompanhar o aumento generalizado do custo de vida, que já vinha se
agravando desde o início do ano e entrou numa escalada que ninguém sabe onde pára,
com o espoletar do conflito EUA-Israel-Irão.
O agravamento dos preços da energia, dos combustíveis, dos bens alimentares e dos
encargos financeiros atingiu com especial intensidade as famílias de rendimentos
médios e baixos. Mas atingiu também o tecido empresarial nacional, em particular as
pequenas e médias empresas, confrontadas com aumentos significativos dos custos de
produção, transporte, energia e financiamento.
As PME representam uma parcela essencial do emprego e da capacidade produtiva
nacional. Quando estas empresas são colocadas sob pressão prolongada, o risco deixa
de ser ap enas económico e passa a ser também social, com impacto direto na
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manutenção dos postos de trabalho, na coesão territorial e na sustentabilidade de
inúmeros setores de atividade.
A resposta política a esta crise não pode, por isso, limitar -se a medidas ge néricas ou
avulsas. Exige instrumentos imediatos de mitigação do choque sobre as famílias e as
empresas, mas exige também uma estratégia de redução das vulnerabilidades
estruturais do País, designadamente no domínio da dependência energética, da
exposição aos combustíveis fósseis e dos custos fixos suportados pelo tecido produtivo.
A resposta já anunciada pelo Governo português constitui um sinal político relevante de
reconhecimento da gravidade da situação, mas revela -se, na sua configuração atual,
ainda insuficiente para enfrentar, com a amplitude necessária, os efeitos económicos e
sociais do novo choque energético.
Com efeito, o Governo anunciou o reforço da comparticipação da botija de gás solidária
para 25 euros durante três meses, a criação de um mecanismo extraordinário de apoio
ao gasóleo profissional, correspondente a um r eembolso adicional de 10 cêntimos por
litro até ao limite de 15 mil litros por veículo, também por três meses, e uma nova
redução extraordinária e temporária do ISP em 2,6 cêntimos por litro no gasóleo
rodoviário e 1,4 cêntimos por litro na gasolina sem ch umbo, com uma poupança real
anunciada de 3,2 cêntimos e 1,7 cêntimos por litro, respetivamente.
Sem prejuízo da importância dessas medidas, a comparação com a resposta adotada em
Espanha evidencia uma diferença de escala, densidade e horizonte temporal. O plano
espanhol aprovado em 20 de março de 2026 reduziu temporariamente até 30 de junho
de 2026 o IVA da eletricidade, do gás natural e dos combustíveis de 21% para 10%,além
de um subsídio direto de 20 cêntimos por litro no combustível para a agricultura,pescas
e empresas transportadoras, reforçou os descontos do bono social elétrico para 42,5%
e 57,5% e permitiu, até 31 de dezembro de 2026, a flexibilização de contratos de
fornecimento de eletricidade para trabalhadores independentes e empresas.
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A diferença não está apenas no número de medidas adotadas, mas sobretudo no facto
de a resposta espanhola combinar, de forma articulada, alívio fiscal imediato sobre
energia e combustíveis, proteção reforçada dos consumidores vulneráveis, apoio
económico orientado para os setores mais expostos e mecanismos de redução de custos
estruturais no domínio energético. Em contraste, a resposta portuguesa, sendo positiva,
permanece mais circunscrita, mais curta no tempo e mais concentrada em medidas
parcelares, não abrange ndo com a mesma intensidade a generalidade das famílias, as
pequenas e médias empresas, os setores produtivos mais dependentes da energia nem
a necessidade de reduzir custos fixos energéticos num horizonte mais duradouro.
Nas últimas horas, voltou a ser publicamente assinalado o agravamento do custo de vida
em Portugal, com novas indicações de subida dos preços dos combustíveis e com alertas
reiterados para a pressão crescente sobre o cabaz alimentar e sobre as despesas
energéticas das famílias.
Acresce que o preço do cabaz alimentar de bens essenciais continua em trajetória
ascendente, tendo atingido, segundo a monitorização mais recente da DECO PROteste,
o valor de 254,32 euros, o mais elevado desde o início desta análise em 2022, o que
evidencia a pers istência de fortes pressões inflacionistas sobre bens indispensáveis ao
quotidiano das famílias.
A imprensa noticiou, também, que os combustíveis deverão voltar a aumentar já na
próxima semana, com previsões de subida de 16 cêntimos por litro no gasóleo e de 9
cêntimos por litro na gasolina, enquanto continuam a multiplicar -se os sinais de
encarecimento de bens essenciais e de persistência de fortes pressões sobre os preços
da alimentação e da energia.
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Esta evolução confirma que o choque inflacionista n ão está ultrapassado e reforça a
necessidade de uma resposta pública mais robusta, preventiva e proporcional, capaz de
proteger o rendimento das famílias e a atividade económica.
Importa, por isso, reforçar os apoios já anunciados pelo Governo, não para desvalorizar
o que foi feito, mas para assegurar que a resposta pública é proporcional à dimensão do
choque externo e suficientemente robusta para impedir que o agravamento dos preços
da energia e dos combustíveis se repercuta em cadeia sobre a alimentação, os
transportes, os custos de produção, o rendimento disponível das famílias e a
competitividade da economia nacional.
O impacto orçamental das medidas recomendadas deve ser enquadrado por critérios
de temporalidade, foco e proporcionalidade, devendo o re spetivo financiamento
assentar na reprogramação de despesa não prioritária, na afetação de receita fiscal
extraordinária gerada pelo contexto inflacionista, no reforço da eficiência e
fiscalização da despesa pública e, sempre que possível, na mobilização d e
instrumentos europeus de apoio à eficiência e autonomia energética.
Impõe-se, assim, uma resposta pública que conjugue alívio fiscal temporário, reforço da
proteção social, apoio direto aos setores mais afetados, promoção da eficiência
energética, incentivo ao autoconsumo e à produção descentralizada e reforço dos
mecanismos de fiscalização e transparência na formação dos preços.
Governar, neste contexto, é agir com responsabilidade, proporcionalidade e sentido de
urgência. Porque um país que não p rotege as suas famílias, os seus trabalhadores e o
seu tecido produtivo compromete inevitavelmente o seu futuro.
Face ao exposto, e ao abrigo das disposições regimentais e constitucionais aplicáveis, o
Deputado único Filipe Sousa, do Juntos pelo Povo (JPP ), propõe à Assembleia da
República que através do presente Projeto de Resolução, nos termos do n.º 5 do artigo
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166.º da Constituição da República Portuguesa, delibere, recomendar ao Governo da
República que:
1. Reduza de forma imediata o custo dos bens essenciais
a) Proceda à aplicação de taxa de IVA zero a um cabaz de bens alimentares
essenciais e estabeleça, durante a vigência da medida, um regime excecional de
estabilização dos preços do cabaz abrangido, impedindo aumentos injustificados
e assegurando q ue a redução do IVA se traduza numa diminuição efetiva do
preço final;
b) Crie um apoio extraordinário à alimentação, dirigido às famílias em situação de
maior vulnerabilidade;
c) Reforce os mecanismos de fiscalização e transparência na formação de preços
ao lon go da cadeia de abastecimento, prevenindo práticas especulativas,
margens excessivas e a neutralização dos benefícios fiscais concedidos ao cabaz
essencial.
2. Mitigue o impacto dos custos energéticos e dos combustíveis
a) Crie um mecanismo automático e tempor ário de redução do Imposto sobre os
Produtos Petrolíferos e Energéticos (ISP) sobre os combustíveis, em contextos de
subida acentuada dos preços internacionais do petróleo e da energia,
assegurando a repercussão da medida no preço final ao consumidor;
b) Aplique taxa reduzida de IVA à eletricidade e ao gás natural nos consumos
essenciais das famílias;
c) Reforce temporariamente a tarifa social de energia, alargando o respetivo
universo de beneficiários e majorando o apoio atribuído em períodos de choque
inflacionista energético;
d) Estabeleça, durante o período de maior pressão inflacionista energética, um
mecanismo excecional de limitação e estabilização do preço do gás engarrafado,
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aplicável à generalidade dos consumidores, complementado por apoio
reforçado às famílias vulneráveis;
e) Crie um apoio extraordinário à energia doméstica para os agregados familiares
economicamente mais vulneráveis;
f) Estabeleça medidas extraordinárias de apoio às empresas com maior exposição
aos custos energéticos, designadamente às micro, pequenas e médias empresas
e às empresas de setores eletrointensivos;
g) Assegure mecanismos de redução ou compensação temporária de custos
regulados de energia para as empresas mais afetadas;
h) Reforce os mecanismos de monitorização, transparência e fiscalização da
formação, dos preços, da energia e dos combustíveis, prevenindo a neutralização
dos alívios fiscais concedidos.
3. Proteja as famílias com crédito à habitação
a) Promova soluções efetivas de renegociação por parte das instituições bancárias;
b) Impeça o agravamento do spread em situações de dificuldade comprovada;
c) Crie um regime temporário de bonificação de juros;
d) Elimine obstáculos à transferência de crédito entre instituições.
4. Reforce o rendimento disponível das famílias
a) Adote medidas de alívio fiscal sobre os rendimentos do trabalho;
b) Atribua apoios extraordinários às famílias mais afetadas pelo aumento do custo
de vida;
c) Atualize prestações sociais em função do agravamento do custo de vida;
d) Reforce os mecanismos de proteção dos consumidores vulneráveis perante
despesas essenciais incomportáveis.
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5. Apoie as pequenas e médias empresas e proteja o emprego
a) Crie linhas de apoio extraordinário às PME afetadas pelo aumento dos custos de
produção, energia, transporte e financiamento;
b) Reduza temporariamente en cargos fiscais e contributivos para empresas que
mantenham postos de trabalho;
c) Promova instrumentos de apoio à tesouraria, designadamente através de linhas
de crédito com garantia pública;
d) Incentive a manutenção e criação de emprego, especialmente nos seto res mais
expostos à crise;
e) Apoie a adaptação energética e a eficiência das empresas, reduzindo custos
estruturais no médio prazo;
f) Crie apoios específicos e temporários aos setores dos transportes, da agricultura
e das pescas, especialmente afetados pelo aumento dos combustíveis e dos
fatores de produção;
g) Estabeleça mecanismos excecionais de flexibilização dos contratos de
fornecimento de eletricidade e gás natural para empresas, permitindo
ajustamentos temporários de potência contratada, escalões de consu mo e
demais condições contratuais, sem penalizações desproporcionadas.
6. Reduza vulnerabilidades estruturais e reforce a autonomia energética do País
a) Promova programas de eficiência energética nas habitações e nas empresas;
b) Incentive o autoconsumo individu al e coletivo e a produção descentralizada de
energia;
c) Reforce o apoio à criação e desenvolvimento de comunidades de energia
renovável;
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d) Simplifique procedimentos administrativos e de licenciamento aplicáveis a
projetos de autoconsumo, eficiência energética e produção renovável
descentralizada;
e) Reforce o investimento em setores estratégicos para a autonomia económica e
energética do País.
7. Assegure acompanhamento, transparência e fiscalização efetiva
a) Reforce os mecanismos de monitorização dos preços da energia, dos
combustíveis e dos bens essenciais, com divulgação pública regular de
informação clara e acessível;
b) Intensifique a fiscalização do mercado, assegurando que os apoios públicos e os
alívios fiscais se repercutem efetivamente nos preços suportado s pelas famílias
e pelas empresas.
8. Reforce a disciplina na despesa pública
a) Suspenda despesas não essenciais;
b) Reveja estruturas e organismos redundantes;
c) Reduza cargos e estruturas políticas não indispensáveis;
d) Intensifique o combate à fraude e evasão fiscal;
e) Reavalie benefícios fiscais injustificados;
f) Assegure a compensação orçamental das medidas adotadas;
g) Proceda à identificação das dotações orçamentais e fontes de financiamento
adequadas à execução das medidas temporárias previstas na presente
resolução, assegurando a respetiva neutralidade orçamental tendencial no
médio prazo.
Palácio de São Bento, 24 de março de 2026,
ASSEMBLEIA DA REPÚBLICA
Juntos pelo Povo - JPP
O Deputado único
Filipe Martiniano Martins de Sousa
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