Documento integral
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Projeto de Resolução n.º 573/XVII
Recomenda ao Governo o reforço dos apoios à comunidade portuguesa
na Venezuela e a intensificação de esforços que garantam a libertação
dos presos políticos portugueses e lusodescendentes
Exposição de motivos
A comunidade portuguesa residente na Venezuela constitui uma das mais
numerosas e historicamente enraizadas comunidades portuguesas no
estrangeiro, desempenhando há décadas um papel relevante na vida
económica, social e cultural daquele país. Composta por portugueses e
lusodescendentes de várias gerações, esta comunidade representa um
importante elo humano, económico e cultural entre Portugal e a Venezuela,
devendo, por isso, merecer uma atenção constante e prioritária por parte do
Estado português.
Atualmente, vivem na Venezuela milhares de portugueses e cidadãos de origem
portuguesa de primeira, segunda, terceira e até quarta gerações, muitos dos
quais já nascidos naquele país, filhos, netos e bisnetos de emigrantes
portugueses. Esta é, aliás, a segunda maior comunidade portuguesa e de origem
portuguesa na América Latina, apenas superada pela existente no Brasil, e uma
das maiores comunidades estrangeiras residentes na Venezuela.
A Venezuela atravessa, há vários anos, uma grave e prolongada crise
económica, social, política e humanitária, marcada por uma forte degradação
das condições de vida da população, pelo colapso de serviços públicos
essenciais, por níveis elevados de pobreza e por grandes dificuldades no acesso
a bens básicos, incluindo alimentos, med icamentos e cuidados de saúde. Esta
situação tem tido um impacto particularmente severo sobre a comunidade
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portuguesa, e muitos dos nossos compatriotas encontram-se em situação de
vulnerabilidade social extrema.
As dificuldades no acesso a cuidados de saúd e, a escassez de medicamentos,
a degradação das condições de segurança e a instabilidade económica têm
afetado de forma direta portugueses e lusodescendentes, em especial os mais
idosos, os doentes crónicos e aqueles que não dispõem de redes familiares ou
de apoio suficientes.
A recente evolução da situação política e securitária na Venezuela, agravada
pela intervenção dos EUA, veio reforçar a fragilidade do contexto vivido no país,
com reflexos diretos sobre as comunidades estrangeiras residentes, incluindo a
portuguesa. Trata-se de uma intervenção de elevada gravidade, que suscita
fundadas dúvidas quanto à sua conformidade com os princípios fundamentais
da ordem internacional assente em regras, designadamente os princípios da
soberania, da integridade territorial, da não ingerência nos assuntos internos dos
Estados e da proibição do recurso à força fora das exceções estritamente
previstas pelo direito internacional, consagrados na Carta das Nações Unidas.
Estes desenvolvimentos tornam ainda mais urgente o reforço do
acompanhamento próximo e permanente da comunidade portuguesa, bem como
a adaptação dos instrumentos de apoio existentes às especificidades da
realidade venezuelana.
Neste quadro, torna -se especialmente importante garantir que os instrumentos
de apoio social existentes, nomeadamente o Apoio Social a Idosos Carenciados
das Comunidades Portuguesas (ASIC) e o Apoio Social a Emigrantes
Carenciados das Comunidades Portuguesas (ASEC), sejam suficientemente
flexíveis, céleres e adequados à realidade conc reta do país, permitindo
responder eficazmente a situações de pobreza extrema, emergência social e
carência no acesso a cuidados de saúde.
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Paralelamente, e reconhecendo a importância da sua rede no país, importa
reforçar o apoio ao movimento associativo po rtuguês na Venezuela, que tem
desempenhado um papel essencial na prestação de apoio social, na coesão
comunitária e na preservação da identidade cultural portuguesa, funcionando
muitas vezes como primeira linha de resposta em contextos de maior dificuldade.
A suspensão das ligações aéreas asseguradas pela TAP, decisão que é já
anterior à queda de Maduro, é também muito preocupante e afeta de forma
significativa a mobilidade dos portugueses e lusodescendentes, bem como a
capacidade de resposta consular e operacional. Importa, pois, garantir que as
ligações da TAP entre Lisboa e Caracas sejam rapidamente restabelecidas,
devendo o Governo ser célere e diligente na prossecução deste desígnio.
Acresce, ainda, a grande preocupação com a situação de cidadãos portugueses
e lusodescendentes detidos na Venezuela por motivos de natureza política, em
contextos marcados por fragilidades graves do Estado de direito e por limitações
significativas às garantias fundamentais. A proteção dos direitos, da integridade
e da d ignidade dos cidadãos portugueses no estrangeiro constitui uma
responsabilidade indeclinável do Estado português, impondo -se, por isso, que
Portugal desenvolva todos os esforços políticos e diplomáticos ao seu alcance
com vista à libertação desses cidadãos , à semelhança do que já ocorreu com
nacionais de outros Estados europeus, como Espanha ou Itália.
O país não pode falhar à comunidade luso -venezuelana. A proteção, o
acompanhamento e o apoio à comunidade portuguesa na Venezuela constituem
um dever do Estado português e uma expressão clara do interesse nacional,
exigindo uma atuação prioritária, articulada, consistente e reforçada da
diplomacia portuguesa, dos serviços consulares e outros serviços do Estado
português.
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Assim, ao abrigo das disposições regimentais e constitucionais aplicáveis, as
Deputadas e os Deputados abaixo-assinados do Grupo Parlamentar do Partido
Socialista apresentam o seguinte projeto de resolução:
A Assembleia da República resolve, nos termos do disposto do n.º 5 do artigo
166.º da Constituição da República Portuguesa, recomendar ao Governo que:
1. Proceda à simplificação temporária e excecional dos procedimentos
administrativos associados aos apoios sociais dirigidos aos portugueses
no estrangeiro, nomeadamente o ASIC e ASEC, de modo a garantir uma
resposta mais célere e eficaz às situações de maior vulnerabilidade da
comunidade portuguesa na Venezuela;
2. Reforce, de forma extraordinária e temporária, as verbas afet as aos
mecanismos de apoio social destinados à comunidade portuguesa na
Venezuela, incluindo os programas ASIC, ASEC e outros instrumentos
adequados à resposta a situações de emergência social e humanitária;
3. Adapte os critérios de elegibilidade e de avaliação socioeconómica dos
apoios sociais à realidade concreta da Venezuela e dos portugueses que
lá residem , tendo em conta o contexto de pobreza extrema, inflação
elevada, escassez de bens essenciais e degradação dos serviços
públicos, de forma a asseg urar que os apoios chegam efetivamente a
quem deles mais necessita;
4. Reforce os apoios ao movimento associativo da comunidade portuguesa
na Venezuela, reconhecendo o seu papel essencial na identificação de
situações de vulnerabilidade, na prestação de apoi o social e na
manutenção da coesão comunitária;
5. Reforce o apoio médico e o acesso a medicamentos essenciais para os
cidadãos portugueses e lusodescendentes em situação de maior
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fragilidade, em articulação com o Ministério da Saúde, a rede consular e
as estruturas associativas locais;
6. Garanta um acompanhamento consular próximo, permanente e reforçado
da comunidade portuguesa na Venezuela, assegurando a proteção dos
seus direitos, da sua segurança e do seu bem-estar;
7. Encete esforços diplomáticos necessários junto das autoridades
competentes, com vista à retoma das ligações aéreas regulares entre
Portugal e a Venezuela, designadamente através da TAP, reconhecendo
a importância estratégica dessas ligações para a comunidade portuguesa
residente no país e para a capacidade de resposta do Estado português
em situações de emergência;
8. Desencadeie e intensifique todos os esforços políticos e diplomáticos
possíveis e necessários com vista à libertação de todos os presos
políticos portugueses e lusodescendentes atual mente detidos na
Venezuela, à semelhança do que já ocorreu com cidadãos de outros
Estados europeus.
Palácio de São Bento, 11 de fevereiro de 2026
As Deputadas e os Deputados,
José Luís Carneiro
Eurico Brilhante Dias
João Torres
Catarina Louro
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Elza Pais
Marcos Perestrello
Pedro Delgado Alves
Edite Estrela
Emanuel Câmara
Rosa Isabel Cruz
Davide Amado
Luís Dias
Eva Cruzeiro
Porfírio Silva
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