Documento integral
Projeto de Resolução n.º 651/XVII/1.ª
Por uma gestão pública, democrática e sustentável do Serviço
Nacional de Saúde
Exposição de motivos:
O Serviço Nacional de Saúde (SNS) é uma das maiores conquistas da democracia e uma
condição essencial do exercício da liberdade das pessoas. No entanto, nos últimos anos, a
combinação de subfinanciamento crónico, gestão errática e dependência crescente de
operadores privados, tem fragilizado o SNS, pressionando os profissionais de saúde e
aumentando as desigualdades no acesso.
Em vez de uma reforma consistente e planeada, temos assistido a uma série de decisões
avulsas, muitas vezes orientadas por lógicas de curto prazo e por uma visão da saúde como
mercado, em detrimento da saúde como serviço público universal.
Para o LIVRE, o SNS não é negociável, e defender o SNS implica democratizá -lo e garantir
a sua sustentabilidade. Significa também assumir que a saúde não se concentra nos
hospitais, nem nas urgências, e que um sistema de saúde eficiente assenta em cuidados de
saúde primários sólidos, integrados com os restantes níveis de cuidados.
É a partir desta visão que o presente Projeto de Resolução apresenta um conjunto de
recomendações ao Governo para o futuro da saúde em Portugal: travar a expansão de
parcerias público‑privadas e o avanço de modelos como as USF ‑C; reforçar os cuidados de
saúde primários; garantir a autonomia de gestão das Unidades Locais de Saúde (ULS);
colocar a promoção da saúde e a prevenção no centro das políticas de saúde; democratizar
a governação das unidades do SNS; valorizar os profissionais de saúde; pôr fim à assimetria
de informação entre setor público e privado; e acelerar a transição ecológica do SNS.
Defender o SNS de modelos que o fragilizam: PPP e USF‑C
O setor privado não vai resolver os problemas estruturais do SNS quando este não consegue
dar resposta, antes pelo contrário, tende a agravar esses problemas, produzindo piores
resultados em saúde e aumentando as desigualdades no acesso aos cuidados. A evi dência
internacional reforça esta preocupação: uma revisão publicada na revista The Lancet Public
Health em 20241 concluiu que a privatização dos cuidados de saúde quase nunca melhora a
qualidade, associando-se frequentemente a piores resultados para os utentes e a cortes em
pessoal, e na qualidade dos serviços para garantir margens de lucro. Em Portugal, a própria
Entidade Reguladora da Saúde, num estudo de avaliação das parcerias público‑privadas na
saúde2, não encontrou evidência de que a gestão hospitalar em PPP se traduza em melhor
desempenho face a hospitais de gestão pública, concluindo que não existem diferenças
significativas e que, em alguns indicadores de internamento, a capacidade de resposta das
PPP foi inferior.
Nos cuidados de saúde primários, o modelo das USF‑C introduz a possibilidade de gestão de
unidades, equipas e listas de utentes por entidades privadas ou do setor social, mediante
contratos de prestação de cuidados em áreas até aqui asseguradas por unidades públicas. A
Associação Nacional de Unidades de Saúde Familiar (USF‑AN)3 e a Associação Portuguesa
de Medicina Geral e Familiar (APMGF)4 têm alertado que esta opção representa um risco de
perda de qualidade e de aumento das desigualdades entre utentes e entre profissionais. O
LIVRE defende que em vez de avançar por esta via, é necessário investir na rede pública e
consolidar os modelos já existentes no SNS.
Reforçar os cuidados de saúde primários e a integração de cuidados
Um desses modelos é a Unidade de Saúde Familiar (USF) Modelo B, que, de acordo com a
Entidade Reguladora da Saúde tem mostrado melhor desempenho na maioria dos
indicadores analisados 5 face às restantes unidades funcionais. Apesar disso, a sua
generalização está por cumprir e o país mantém mais de 1.5 milhões de pessoas sem médico
de família, ao mesmo tempo que concursos para especialistas em Medicina Geral e Familiar
ficam parcialmente desertos6. O LIVRE defende a generalização das USF Modelo B, com
recursos humanos e financeiros adequados e um plano concreto que permita a todas as
equipas que cumprem os critérios legais transitar para este modelo.
Reforçar os cuidados primários implica também melhorar a sua integração com os cuidados
hospitalares, num sistema ainda demasiado hospitalocêntrico e dependente das urgências
como porta de entrada para muitos utentes. O Segundo Barómetro que avalia a perceção dos
profissionais de saúde sobre a integração de cuidados nas Unidades Locais de Saúde,
concluiu recentemente que, embora a integração seja avaliada de forma moderadamente
positiva, persiste um longo caminho a percorrer, com fragilid ades na coordenação entre
unidades7. É necessário, por isso, o reforço da comunicação e do uso efetivo e atempado dos
sistemas de informação existentes, garantindo que as equipas de saúde familiar têm acesso
1 The effect of health -care privatisation on the quality of care , Benjamin Goodair, Aaron Reeves, The Lancet Public Health,
Volume 9, Issue 3, March 2024
2 Estudo de Avaliação das Parcerias Público-Privadas na Saúde, Entidade reguladora da Saúde, Maio de 2016 (p4).
3 USF-AN alerta para risco de perda de qualidade nas futuras USF-C geridas por privados, in Health News
4 Abertura de USF em modelo C promove clima de incerteza nos CSP e pode aumentar desigualdades, Associação Portuguesa
de Medicina Geral e Familiar
5 Cuidados de Saúde Primários - Qualidade e Eficiência nas UCSP e USF, Entidade Reguladora da Saúde, março 2024
6 Das 142 vagas para médicos de Família só 50 foram ocupadas, em Lisboa e Vale do Tejo 60 ficaram vazias, Diário de Notícias
7 Barometro de Integração de Cuidados, Associação Portuguesa dos Administradores Hospitalares (APAH)
à informação relevante sobre episódios hospitalares dos seus utentes e que o percurso no
sistema se faz de forma integrada.
Colocar a promoção da saúde e a prevenção no centro
Mais do que rever as estruturas existentes, é preciso também realinhar os objetivos do SNS,
olhando para metas a longo prazo, e não só ganhos pontuais de curto prazo. Um sistema de
saúde sustentável não se pode limitar a responder à doença: deve colocar a promoção da
saúde e a prevenção da doença no centro da sua ação, atuando sobre determinantes sociais,
ambientais e comportamentais da saúde e envolvendo as comunidades. Apesar de
documentos estratégicos reconhecerem esta prioridade, o Orçamento do Estado p ara 2026
prevê uma despesa para a área da prevenção pouco mais superior a 1% do total das
despesas previstas na área da saúde, quando a média dos países da OCDE ronda os 3%8.
O LIVRE sempre defendeu, e continua a defender, que a promoção da saúde e a prevenção
da doença sejam assumidas como eixo central das políticas públicas de saúde e da própria
gestão do SNS. Isso passa por garantir, para além da elaboração de documentos
estratégicos, que o financiamento, a organização dos serviços, e a própria atividade
assistencial das ULS priorize estas dimensões em todos os níveis de cuidados.
Democratizar a governação do SNS
A governação das unidades do SNS é também um fator determinante para o seu
funcionamento e a sua estabilidade. O modelo atual de nomeação dos conselhos de
administração (CA) das unidades locais de saúde (ULS) e de outras entidades públicas
empresariais tem sido criticado pela sua opacidade, pela elevada rotatividade dos seus
titulares, mas também, e principalmente, pela abertura que cria para nomeações
político‑partidárias. Esta situação dificulta a implementação consistente de estratégias
coerentes e continuadas nas ULS.
O LIVRE apresentou o Projeto de Lei n.º 149/XVII/1.ª, que prevê a eleição dos presidentes
dos CA das ULS, com pré ‑seleção de candidatos pela CReSAP, e escolha final pelos
profissionais com vínculo à unidade, através de processo democrático. Apesar de ter s ido
rejeitado no processo de generalidade, continua a ser uma prioridade para o LIVRE,
juntamente com o reforço da participação de profissionais e utentes nos conselhos
consultivos, garantindo representação significativa e acesso à informação necessária.
Valorizar os recursos humanos
Não há Serviço Nacional de Saúde sem os seus profissionais de saúde. E por isso qualquer
política de saúde tem de assentar em grande parte na valorização dos profissionais que nele
trabalham Más condições de trabalho e progressão de carreira imprevisível o u insatisfatória
empurram os profissionais para o setor privado ou para o estrangeiro. Entre 2022 e 2024,
mais de 2700 médicos pediram à Ordem dos Médicos certidões para exercer no estrangeiro9,
8 Health expenditure on prevention and primary healthcare, Health at a Glance 2025, Indicators, OECD
9 Emigração Médica: 2700 Médicos Portugueses Buscam Oportunidades no Estrangeiro
com 803 pedidos em 2022, 944 em 2023 e 972 em 2024, configurando uma vaga de saída
que se aproxima de mil médicos por ano e que é apontada pela própria Ordem como tendo
um impacto “brutal” no SNS10. Em simultâneo, o recurso a médicos aposentados atingiu um
máximo histórico: no final de 2024, havia 713 médicos aposentados a trabalhar no SNS 11,
mais de metade em cuidados de saúde primários, ao abrigo de um regime excecional que
tem sido sucessivamente prorrogado para colmatar a falta de médicos em várias
especialidades e regiões.
É também notório que o recurso crescente a contratos de prestação de serviços na
modalidade de tarefa tornou-se estrutural com o passar dos anos, o que acarreta custos muito
elevados e fragiliza a coesão das equipas e a continuidade de cuidados.
O LIVRE apresentou três propostas em sede de Orçamento do Estado para 2026 para limitar
a renovação destes contratos, facilitar a reintegração dos profissionais no SNS, e agilizar os
processos concursais e de contratação no SNS. A par disso, o Projeto de L ei n.° 346/XVII/1
para a valorização da carreira médica no Serviço Nacional de Saúde, e as várias iniciativas
apresentadas na defesa da carreira de enfermagem, apontam para um mesmo objetivo
central: substituir soluções precárias e dispendiosas por vínculo s estáveis capazes de fixar
profissionais no SNS.
Exigir mais transparência por parte do setor privado da saúde
A relação entre o SNS e o setor privado da saúde é marcada por uma profunda assimetria de
informação: sobre o SNS existem dados detalhados de produção, financiamento, recursos
humanos e desempenho, enquanto sobre o setor privado, incluindo operadores que recebem
volumes significativos de financiamento público, a informação é fragmentada e pouco
acessível. Essa assimetria de informação gera um desequilíbrio não só do ponto de vista
negocial mas também da gestão dos meios do setor da saúde em Portugal, gestão esta que
é essencial no dia -a-dia e se reflecte num adequado planeamento das políticas públicas e
das reformas necessárias para a melhoria da eficiência e capacidade de resposta do SNS. É
por isso essencial que o Estado saiba, com rigor, as condições e a capacidade do setor
privado, nomeadamente no que diz respeito aos seus equipamentos, meios de diagnóstico e
tratamento, à sua capacidade de internamento e de prestação de cuidados intensivos, à
capacidade dos seus blocos operatórios, das especialidades e procedimentos, especialistas
e todos os profissionais de saúde de que dispõe.
Para o LIVRE, a relação entre os vários agentes de saúde deve ser transparente, honesta e
regulada, e no sentido da capacitação do SNS nas áreas em que seja deficitário. Apenas com
uma adequada regulação do setor privado pode o Estado compreender verdadeiramente as
lacunas no SNS e agir no sentido de as colmatar.
Transição ecológica do SNS
10 Idem
11 SNS com "recorde" de 713 médicos aposentados a trabalhar no final de 2024
O setor da saúde é um ator importante na transição ecológica. Se, por um lado, as alterações
climáticas aumentam doenças respiratórias e infecciosas, por outro, a realidade é que
hospitais e unidades de saúde são também consumidores de recursos, como energia e água,
tornando-se necessário implementar medidas de sustentabilidade ambiental em todas as
unidades, com metas claras de redução de emissões, aumento de energias renováveis,
gestão sustentável de resíduos e critérios ambientais nas compras públicas em saúde.
Os dados indicam que os sistemas de saúde são responsáveis por cerca de 6% das emissões
totais de gases de efeito estufa nos países ocidentais. Globalmente, as emissões de gases
de efeito estufa dos sistemas de saúde são equivalentes às de 514 centrais termoelétricas a
carvão12, o que salienta a necessidade de descarbonizar estes sistemas.
O NHS, o serviço nacional de saúde do Reino Unido, tem demonstrado ser possível adequar
a sua atuação e torná -la mais sustentável, indicando que reduziu a sua própria pegada
carbónica em 68% comparativamente a 1990 13, tornou -se o primeiro serviço nacional de
saúde do mundo a assumir o compromisso de se tornar neutro em carbono14 e desenvolveu
uma metodologia que pode, com os devidos ajustes, ser replicada noutros contextos.
Algumas das alterações a que o NHS procedeu incluem novas formas de prestar cuidados
em casa ou mais perto de casa (o que significa menos deslocações dos pacientes), tornar a
sua frota mais ecológica, reduzir, sempre que possível, o desperdício de produtos
consumíveis e optar por alternativas de baixo carbono, garantir que novos hospitais e edifícios
sejam construídos com zero emissões líquidas e sensibilizar todos os recursos humanos para
a necessidade e para a prática de poupança de energia15.
O LIVRE defende, por isso, a integração da dimensão ambiental na saúde e a adoção de
políticas de “Saúde em todas as políticas”, ligando ambiente, bem‑estar e justiça social.
Assim, ao abrigo das disposições constitucionais e regimentais aplicáveis, o Grupo
Parlamentar do LIVRE propõe à Assembleia da República que, através do presente
Projeto de Resolução, delibere recomendar ao Governo que:
1. Rejeite a celebração de novas parcerias público ‑privadas na área da saúde, bem
como a retoma ou extensão das existentes, designadamente na gestão de unidades
hospitalares integradas no Serviço Nacional de Saúde, e no desenvolvimento e
generalização do modelo das USF‑C.
2. Garanta o reforço dos cuidados de saúde primários através da generalização das
Unidades de Saúde Familiar modelo B.
3. Reforce a autonomia das Unidades Locais de Saúde, garantindo -lhes maior
autonomia na organização dos serviços e na gestão de recursos humanos e
12 How healthcare systems negatively impact environmental health? The need for institutional commitment to reduce the
ecological footprint of medical services. Piscitelli et al., Epidemiologia, 4(4), 521-524, Novembro, 2023
13 NHS becomes the world’s first national health system to commit to become ‘carbon net zero’, backed by clear deliverables
and milestones | Greener NHS
14 Five years of a greener NHS: progress and forward look | NHS England
15 ibid
financeiros, de forma a responder de forma mais adequada às necessidades das
populações que servem.
4. Priorize a promoção da saúde e a prevenção da doença como eixo central das
políticas públicas de saúde, garantindo que os planos de atividades, o financiamento
e a organização dos serviços colocam estas prioridades no centro da sua atividade,
em todos os níveis de cuidados.
5. Promova a participação dos profissionais de saúde e dos utentes nos órgãos de
governação e consulta das unidades do SNS, incluindo nos conselhos consultivos, e
assegure a escolha transparente e democrática das respetivas unidades.
6. Agilize os procedimentos de recrutamento de profissionais de saúde para o SNS,
assegurando, maior flexibilidade dos concursos, mecanismos de mobilidade mais
eficientes e que valorizem as carreiras dos profissionais.
7. Negoceie, durante o ano 2026, com as organizações sindicais representativas, a
valorização de todas as carreiras de saúde, assegurando que as condições de
trabalho, a progressão na carreira, e as respetivas remunerações sejam ajustadas e
valorizem os profissionais do SNS.
8. Exija aos operadores privados na área da saúde em Portugal um reporte de dados de
gestão e atividade equivalente à que o Serviço Nacional de Saúde está sujeito,
tornando-se esta uma condição necessária para parcerias e acordos com o Estado.
9. Reforce a transição ecológica do Serviço Nacional de Saúde, implementando medidas
de sustentabilidade ambiental em todas as unidades, com metas claras de eficiência
energética e descarbonização, aumento do recurso a fontes de energia renovável,
redução e g estão sustentável de resíduos e adoção de critérios ambientais nas
compras públicas em saúde.
Assembleia da República, 27 de fevereiro de 2026
As Deputadas e os Deputados do LIVRE
Isabel Mendes Lopes Filipa Pinto
Jorge Pinto Patrícia Gonçalves
Paulo Muacho Rui Tavares
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