Documento integral
Projeto de Resolução n.º 150/XVII/1
Recomenda ao Governo a reorganização voluntária da produção vitivinícola na Região
Demarcada do Douro com realocação dos direitos de benefício
Exposição de Motivos
A Região Demarcada do Douro (RDD) é uma das mais antigas regiões vitivinícolas
regulamentadas do mundo e uma referência do património agrícola, económico e cultural de
Portugal. Reconhecida pela UNESCO como Património Mundial da Humanidade, a região é
responsável pela produção de vinhos com elevada reputação internacional, como o Vinho do
Porto e os vinhos do Douro. Para além do seu peso na balança comercial, a vitivinicultura
duriense constitui um pilar essencial da economia e do modo de vida de milhares de pequenos
e médios produtores que, em condições adversas, mantêm viva a paisagem e a tradição da
região.
No entanto, o setor atravessa atualmente uma crise estrutural. O acúmulo de stocks de vinho, a
quebra sucessiva nos quantitativos de benefício atribuídos para a produção de Vinho do Porto e
a crescente dificuldade no escoamento da produção têm levado à perda de rendimentos,
desmotivação dos produtores e, em casos extremos, ao abandono de uvas por vindimar. Os
pequenos e médios produtores, a base do tecido produtivo do Douro, são os mais penalizados
por este desequilíbrio entre produção e mercado.
Ao mesmo tempo, a pressão causada pela concorrência de vinhos importados ou não
certificados como provenientes da região contribui para a desvalorização dos produtos durienses.
Esta realidade, amplamente reconhecida por autarcas, associações de produtores e entidades
locais, exige soluções estruturais que reforcem a liberdade de gestão, da produção e
o poder de negociação dos viticultores, ao invés de dependerem exclusivamente de respostas
conjunturais ou apoios públicos de emergência.
Três fatores interligados colocam em risco a sustentabilidade da viticultura duriense: os
excedentes persistentes de vinho, em particular nas adegas cooperativas; a rentabilidade
reduzida das explorações; e a escassez crónica de mão-de-obra, agravada pelo envelhecimento
da população e pela fraca atratividade para novas gerações. A dificuldade crescente em escoar
a produção, aliada à mecanização limitada pelas características físicas do território, torna
insustentável a manutenção de muitas das explorações, especialmente as de menor dimensão.
Apesar de a região continuar a beneficiar de programas públicos de apoio ao investimento e
reestruturação de vinhas, essas medidas têm-se revelado insuficientes para garantir um
rendimento estável e adequado, muitos produtores continuam com margens reduzidas ou
mesmo negativas e dificuldades de sustentabilidade. As limitações quantitativas impostas
anualmente pelo Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto (IVDP) à produção de vinho do Porto
– principal fonte de receita para os viticultores – contribuem para acentuar essa pressão. Nos
últimos anos, a resposta a esta crise tem passado por soluções como a colheita em verde e a
destilação de crise, que, sendo compreensíveis em contexto de emergência, não oferecem
sustentabilidade a médio prazo e representam encargos significativos para o erário público e
resistência dos produtores.
Não podemos ignorar que a região do Douro é altamente marcada pelo turismo, seja ele fluvial,
enoturismo ou turismo rural, muito graças à beleza das suas paisagens e biodiversidade, não
podendo continuar a ignorar o abandono do território nem os baixos rendimentos de quem torna
esta região um atrativo turístico nacional.
A Iniciativa Liberal considera que a resposta a esta crise deve assentar num novo paradigma,
centrado na liberdade de gestão, na eficiência económica e na redução dos constrangimentos
administrativos. Os produtores devem poder reorganizar as suas explorações com flexibilidade,
aproveitando os instrumentos legais e de mercado para adaptar a produção à realidade do setor,
sem dependência permanente do Estado.
A valorização dos vinhos do Douro, enquanto produto agrícola de alto valor acrescentado, exige
mais do que subsídios. A sua qualidade é reconhecida nacional e internacionalmente, mas o seu
posicionamento comercial permanece aquém do que se verifica em países como França, Itália
ou Espanha. O apoio público deve focar-se na criação de condições para que os produtores se
organizem, cooperem e acedam a mercados mais exigentes e valorizados. É por isso essencial
simplificar a constituição de Organizações de Produtores, reforçar as estruturas associativas e
facilitar a certificação e promoção dos produtos durienses nos mercados externos. A organização
voluntária dos produtores pode potenciar ganhos de eficiência, reforçar o poder negocial junto
do comércio e permitir uma melhor valorização dos vinhos produzidos. Em vez de políticas
públicas centradas em apoios financeiros avulsos, é essencial apostar na capacitação dos
produtores e no reforço da sua autonomia económica.
Nesse sentido, propõe-se a criação de um mecanismo voluntário de arranque de vinha com
realocação de direitos de benefício para outras parcelas já existentes, a ser regulado pelo
Governo através do IVDP. Essa realocação pode ocorrer dentro da mesma exploração ou entre
diferentes produtores, mediante compra ou venda de licenças, proporcionando a liberdade e a
oportunidade aos pequenos produtores de obterem mais rendimento. A medida deverá prever
um limite global de arranque, a definir em articulação com as entidades regionais, bem como a
possibilidade de reversão caso o contexto económico se altere. Com base nos dados de
produção atuais, esta solução permitiria aos produtores aumentar significativamente o seu
rendimento por hectare, reduzindo simultaneamente os custos de produção e a necessidade de
mão-de-obra, sem aumentar a produção global da região. Trata-se de uma medida sem custos
para o Estado, de adesão voluntária, que promove o equilíbrio do setor, tem o potencial de atrair
mais jovens para o setor promovendo a renovação geracional e recompensar a gestão racional
da produção.
A Iniciativa Liberal acredita que o futuro da viticultura duriense passa por soluções que respeitem
a liberdade de escolha dos produtores, valorizem a sua organização e permitam um modelo de
desenvolvimento sustentável, competitivo e atrativo para as novas gerações.
Resolução
Ao abrigo das disposições constitucionais e regimentais aplicáveis, a Assembleia da
República delibera recomendar ao Governo:
1. Crie um programa de reorganização voluntária da produção vitivinícola na Região
Demarcada do Douro, que permita o arranque de vinha com realocação dos direitos de
benefício para outras parcelas, com possibilidade de sobreposição e com limite global de
arranque, a ser regulamentado pelo IVDP para a sustentabilidade e manutenção das
características da região.
2. Garanta que esse mecanismo de realocação e sobreposição de direitos seja de adesão
livre, sem encargos para o Estado e acessível também a arrendatários com exploração
legalmente constituída, permitindo aumentar os rendimentos dos vitivinicultores.
3. Simplifique os processos de constituição e reconhecimento de Organizações de
Produtores, incentivando a sua criação como forma de reforçar a agregação voluntária
de pequenas explorações, aumentar a eficiência económica, fortalecer o poder negocial
dos viticultores e valorizar as marcas e os produtos da região.
4. Reforce a qualificação e a promoção externa dos produtos vitivinícolas da Região
Demarcada do Douro, canalizando o apoio institucional para ações de certificação,
acesso a mercados diferenciados e campanhas de valorização comercial que promovam
a notoriedade e competitividade internacional dos vinhos da região.
Palácio de S. Bento, 4 de julho de 2025
Os Deputados da Iniciativa Liberal,
Mário Amorim Lopes
Angélique Da Teresa
Carlos Guimarães Pinto
Joana Cordeiro
Jorge Miguel Teixeira
Mariana Leitão
Miguel Rangel
Rodrigo Saraiva
Rui Rocha
Abrir texto oficial