Documento integral
Projeto de Resolução n.º 858/XVII/1.ª
Recomenda ao Governo a adoção de uma estratégia plurianual para o reforço da
atratividade, retenção e valorização dos efetivos das Forças Armadas
A defesa nacional voltou a assumir uma importância central no quadro estratégico
europeu e internacional. A deterioração do ambiente de segurança no continente
europeu, a persistência da guerra na Ucrânia, a crescente competição entre potências,
a instabilidade em regiões próximas do espaço euro-atlântico e a necessidade de reforço
das capacidades de dissuasão e prontidão dos Estados aliados impõem a Portugal uma
reflexão séria e consequente sobre o estado da sua política de defesa.
Essa reflexão não pode ficar limitada ao plano declarativo, nem reduzir-se a debates
sobre percentagens do produto interno bruto, compromissos internacionais ou
aquisição de equipamentos. A credibilidade de uma política de defesa mede-se também
pela capacidade de assegurar que as Forças Armadas dispõem dos recursos humanos
necessários para cumprir, com eficácia e continuidade, as missões que lhes são
atribuídas.
Portugal enfrenta há vários anos dificuldades persistentes nesta matéria. A escassez de
efetivos, a dificuldade em recrutar para determinadas especialidades, a pressão sobre
quadros já existentes, a saída antecipada de militares e a menor atratividade da carreira
militar são sinais de um problema estrutural que não pode continuar a ser tratado de
forma avulsa ou reativa. Sem militares suficientes, preparados e valorizados, não há
investimento material que, por si só, resolva as fragilidades de fundo da defesa nacional.
As exigências colocadas atualmente às Forças Armadas são múltiplas e complexas. Para
além da missão essencial de defesa militar da República, Portugal mantém
compromissos no quadro das suas alianças e organizações internacionais, participa em
missões externas, assegura presença e vigilância em espaços estratégicos sob soberania
ou jurisdição nacional e exige das Forças Armadas capacidade de resposta em múltiplos
domínios. Tudo isto torna ainda mais evidente a necessidade de garantir efetivos
adequados, estáveis e compatíveis com o nível de ambição estratégica do Estado
português.
A resposta a este desafio não se esgota na abertura de vagas ou na aprovação pontual
de medidas dispersas. O problema exige planeamento, coerência e previsibilidade. Exige
uma visão plurianual que permita identificar necessidades, definir prioridades,
acompanhar resultados e corrigir falhas. Exige também que a política de recursos
humanos das Forças Armadas deixe de ser tratada como mera variável administrativa e
passe a ser assumida como dimensão estratégica da política de defesa.
Neste contexto, importa reconhecer que a capacidade de recrutamento e retenção está
diretamente ligada às condições concretas oferecidas aos militares. A valorização da
carreira militar, as perspetivas de progressão, os incentivos à permanência, a formação,
as condições materiais de serviço, o apoio social e familiar e a dignificação da condição
militar são fatores essenciais para garantir que as Forças Armadas conseguem atrair e
manter os recursos humanos de que necessitam.
Do mesmo modo, é fundamental assegurar maior transparência e acompanhamento
político nesta matéria. Uma política séria de defesa nacional deve assentar em objetivos
claros, em instrumentos de monitorização regulares e numa articulação coerente entre
meios humanos, meios materiais e missões atribuídas. A ausência dessa visão integrada
contribui para o agravamento das carências existentes e para a perpetuação de soluções
de curto prazo que não respondem às necessidades reais do país.
A Iniciativa Liberal entende que reforçar a defesa nacional não significa apenas discutir
estruturas, proclamar intenções ou aumentar despesa. Significa, antes de mais,
construir capacidade real. E essa capacidade real depende, em larga medida, da
existência de homens e mulheres que escolham servir Portugal nas Forças Armadas,
encontrem nessa escolha condições de dignidade, previsibilidade e valorização, e
possam exercer a sua missão num quadro de estabilidade e reconhecimento.
É, por isso, necessário que o Governo adote uma estratégia plurianual orientada
especificamente para o reforço do recrutamento, da retenção e da valorização dos
efetivos das Forças Armadas, permitindo uma abordagem mais séria, mais previsível e
mais eficaz a um dos principais desafios da defesa nacional portuguesa.
Resolução
Assim, ao abrigo das disposições constitucionais e regimentais aplicáveis, o Grupo
Parlamentar da Iniciativa Liberal propõe que a Assembleia da República recomende ao
Governo que:
1. Adote uma estratégia plurianual para o reforço da atratividade, retenção e
valorização dos efetivos das Forças Armadas, com objetivos, prioridades e
calendarização claras;
2. Defina metas concretas de reforço de efetivos, diferenciadas por ramo e por
áreas funcionais críticas, tendo em conta as necessidades operacionais e as
carências existentes;
3. Promova medidas específicas de valorização da carreira militar,
designadamente no que respeita a incentivos à permanência, condições de
serviço, progressão, formação e apoio social;
4. Assegure a articulação entre a evolução dos efetivos, as missões atribuídas às
Forças Armadas e o investimento em capacidades, equipamentos e
infraestruturas;
5. Remeta anualmente à Assembleia da República informação detalhada sobre a
evolução dos efetivos, incluindo dados sobre recrutamento, retenção, saídas
antecipadas e carências existentes;
6. Avalie periodicamente a eficácia das medidas adotadas, introduzindo as
correções necessárias para garantir maior previsibilidade, eficiência e
capacidade operacional.
Palácio de São Bento, 17 de abril de 2026
Os Deputados da Iniciativa Liberal,
Miguel Rangel
Angélique Da Teresa
Carlos Guimarães Pinto
Joana Cordeiro
Jorge Miguel Teixeira
Mariana Leitão
Mário Amorim Lopes
Rodrigo Saraiva
Rui Rocha
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