Documento integral
Projeto de Resolução n.º 100/XVII/1.ª
Recomenda a implementação de medidas de conservação e
proteção da biodiversidade da Serra da Lousã
Exposição de motivos:
A Serra da Lousã, situada entre Coimbra e Leiria, é reconhecida pela riqueza da sua
biodiversidade, estando integrada na Rede Natura 2000. Os objetivos de conservação desta
Zona Especial de Conservação (ZEC) são assegurar a biodiversidade, através da
manutenção ou recuperação do estado de conservação favorável dos habitats e espécies
presentes, e manter a coerência da Rede Natura 2000. Na ZEC Serra da Lousã, ocorrem
com presença significativa 14 tipos de habitat, duas espécies da flora e sete espécies da
fauna, dos anexos I e II da Diretiva Habitats, respetivamente1.
Esta flora diversa, aliada à existência de linhas de água e diferentes altitudes, cria habitats
ideais para uma grande diversidade de espécies animais, desde mamíferos de grande porte
- como o veado, o corço e o javali - a aves de rapina, anfíbios e réptei s, alguns deles
endémicos e protegidos, como é o caso do morcego-negro ou da salamandra-lusitânica2.
O coberto vegetal inclui espécies autóctones como o carvalho, o sobreiro, o castanheiro e o
medronheiro, e ainda espécies introduzidas como o pinheiro-bravo, o eucalipto e a acácia. As
espécies autóctones que formam manchas florestais grandes e maduras desempenham um
papel importante no combate à crise climática, devido à sua eficiência a capturar e armazenar
dióxido de carbono3. Ao contrário das monoculturas de espécies exóticas, as florestas nativas
mantêm uma complexa estrutura ecológica, promovendo a biodiversidade, protegendo os
solos contra a erosão e regulando o ciclo da água, o que contribui para a estabilidade dos
ecossistemas e para a mitigação dos efeitos das alterações climáticas. Também contribuem
para manter a humidade do solo, evitar a sua degradação e promover a evapotranspiração,
processo essencial para a formação de nuvens e precipitação, mantendo a integridade d o
ciclo da água4. A sua preservação e recuperação são, por isso, essenciais.
As florestas autóctones também aumentam a resiliência do meio envolvente a eventos
extremos, como secas, inundações e incêndios, tornando as paisagens naturais menos
1 Plano de gestão da ZEC Serra da Lousã - PTCON0060 (pág. 2)
2 Baldios da Lousã | Natureza
3 Florestas autóctones: testemunho vivo da biodiversidade para a posteridade | Público
4 Manchas florestais ajudam a proteger os solos e a gerar chuva | RTP Notícias
vulneráveis. Florestas como as da Serra da Lousã são inestimáveis, assim como os serviços
ecossistémicos que fornecem.
No entanto, como grande parte do património natural e selvagem em Portugal, este território
enfrenta sérias ameaças. Desde logo, a proliferação de espécies vegetais exóticas,
especialmente nos ecossistemas aquáticos, que ameaça o seu funcionamento e
biodiversidade5. Mas também os incêndios florestais têm provocado a destruição de áreas
significativas de floresta e a fragmentação de habitats naturais, tendo mesmo um incêndio na
Serra da Lousã em 2020 provocado a morte de pelo menos 300 veados, corços e javalis6.
Por fim, a desflorestação, motivada, tanto por práticas agrícolas questionáveis, como pela
expansão de monoculturas de espécies não autóctones, agrava a pressão sobre os
ecossistemas da Serra da Lousã. Exemplo disso é a prática denunciada em 2023 pela
autarquia7, pelas populações8 e por organizações da sociedade civil9 quando, após notícia de
cortes rasos10 de árvores, sobretudo pinheiros-bravos adultos, questionaram a legalidade do
procedimento e a capacidade de fiscalização e atuação das autoridades.
Foi no decorrer desse acontecimento que surgiu a petição “Pela Preservação das Florestas
e dos Ecossistemas em Portugal”, um exercício de participação cidadã que o LIVRE saúda,
que mobilizou a população de forma significativa e chegou a discussão na Assemb leia da
República.
De resto, denúncia semelhante já havia sido feita em 2021 11, tendo mesmo motivado
moradores da Serra da Lousã a avançar com uma queixa formal para interromper os abates12.
De resto, a prática é reconhecida como prejudicial no próprio Plano de Gestão que indica
como medida de conservação regulamentar a interdição da “realização de cortes rasos e de
arranque de carvalhais, castinçais, sobreirais, azinhais e florestas aluviais, exceto quando
estiverem em causa razões fitossanitárias devidamente comprovadas pela entidade
competente na matéria ”13. A consulta pública deste Plano foi encerrada em dezembro de
2024, encontrando-se o plano por executar quase na sua totalidade.
O assunto chegou inclusivamente à Comissão Europeia, tendo o então Comissário Europeu
para o Ambiente, Oceanos e Pescas, Virginijus Sinkevičius, emitido, em dezembro de 2023,
uma resposta14 em que relembrava que o Tribunal de Justiça da União Europeia condenou
Portugal por não designar como ZEC 61 sítios de importância comunitária, incluindo a Serra
da Lousã, e por não adotar as medidas de conservação necessárias.
5 Cientistas alertam que as invasoras acácias ameaçam ecossistemas aquáticos | Público
6 Incêndios: biólogo estima 300 veados, corços e javalis mortos na Serra da Lousã | TVI Notícias
7 Serra da Lousã: Ministério Público recebe queixa-crime após corte (ilegal) de árvores | SIC Notícias
8 Petição “Pela Preservação das Florestas e dos Ecossistemas em Portugal”
9 Cortes rasos de árvores na Serra da Lousã são reveladores de problemas crónicos na conservação da natureza do país |
Liga para a Protecção da Natureza
10 O “corte raso” é uma prática de gestão florestal, aplicada sobretudo pela indústria madeireira, na qual a maioria ou a totalidade
das árvores numa determinada área é cortada uniformemente.
11 Cortes rasos de árvores na Serra da Lousã motivam queixas às autoridades | Público
12 Associações da Lousã travam cortes de árvores com acção popular | Público
13 Plano de gestão da ZEC Serra da Lousã - PTCON0060 (pág. 7)
14 Pergunta parlamentar E-002981/23 | E-002981/2023(ASW) | Parlamento Europeu
Apesar de, logicamente, cortes ilegais de árvores serem um problema significativo para a
sustentabilidade das florestas portuguesas, a realidade é que este é apenas um sintoma de
um problema maior e mais desafiante: a falta de ordenamento florestal e a ausência de planos
regionais e locais para a gestão florestal. A inexistência de uma estratégia integrada para o
uso e conservação dos recursos florestais conduz à fragmentação dos habitats, à proliferação
de espécies exóticas e à diminuição da biodiversidade . Além disso, a ausência de
planeamento adequado dificulta a prevenção de incêndios, a regeneração das espécies
autóctones e a valorização económica e ambiental das florestas.
Outro fator crítico é a insuficiência de fiscalização e de meios para garantir o cumprimento
das normas e a proteção efetiva das áreas florestais. A escassez de recursos humanos e
técnicos, aliada à falta de articulação entre entidades responsáveis, permit e que práticas
ilegais e insustentáveis persistam sem consequências significativas15.
Há várias ações que podem ser desenvolvidas para melhorar a gestão florestal em Portugal
e, em particular, na Serra da Lousã. Uma dessas medidas é a introdução ou reintrodução de
herbívoros (como cabras ou veados). A Lei do Restauro da Natureza dá particul ar destaque
a este tipo de soluções baseadas na natureza por serem intervenções de carácter passivo
que recorrem aos próprios processos ecológicos para restaurar e proteger os ecossistemas.
Existem estudos que concluem que a atividade de grandes herbívoros potencia a
heterogeneidade dos ecossistemas16. O veado, por exemplo, é uma espécie que, além não
provocar a compactação dos solos nem alterar a comunidade de plantas, dispersa um grande
número de sementes 17, ainda que possa ser necessário proteger vegetação jovem ou em
regeneração da sua ação18.
Existe também evidência de que a utilização de grandes herbívoros contribui para gerir e
minimizar o risco de incêndio. Os dados indicam que, tão importante como introduzir números
significativos de herbívoros com comportamento gregário, é assegurar que os grupos sejam
diversos, onde cada um desempenha uma função diferente e complementar 19. Em todas as
fases deste processo, é da maior importância reunir o conhecimento científico e empírico das
instituições de investigação científicas que conhecem o território, bem como a participação
da população que o utiliza.
Estudos nacionais demonstram igualmente que a densidade de arbustos inflamáveis é
significativamente mais alta em zonas sem veados e gamos. A presença destes animais
reduz o risco e a gravidade de incêndios e a destruição de carvalhos e promove a resiliência
da paisagem a períodos de seca20.
15 Bombeiros profissionais alertam para a falta de limpeza dos terrenos | Público
16 Meta-analysis shows that wild large herbivores shape ecosystem properties and promote spatial heterogeneity (2024)
Trepel et.al | Nature Ecology & Evolution
17 The ecological role of red deer on ecosystem services in Mediterranean environments (2025) Garcia | Universidade de
Coimbra
18 Integrating the deer (Cervus elaphus) in the Portuguese forests: Impacts and new challenges for forest certification (2025)
Monzón et. al | Forest Ecology and Management
19 Effects of large herbivores on fire regimes and wildfire mitigation (2021) Rouet‐Leduc et. al | Journal of Applied Ecology
20 Ungulates mediate trade‐offs between carbon storage and wildfire hazard in Mediterranean oak woodlands (2019) Lecomte
et.al | Journal of Applied Ecology
Ao alimentarem -se de arbustos lenhosos e vegetação seca, estes animais reduzem a
acumulação de combustível vegetal que potencia incêndios florestais e promovem o
crescimento de espécies autóctones através da dispersão de sementes, de fertilizante natural
e da mobilização do solo. Esta abordagem aplicada à Serra da Lousã não seria pioneira em
Portugal, uma vez que já no Vale do Côa a organização ambiental Rewilding Portugal tem
feito um esforço para reintroduzir cavalos semi -selvagens, como o cavalo Sorraia. Um
estudo21, publicado em junho de 2025, indica que, através do pastoreio natural, e de outras
interações com as paisagens e a sua vida selvagem, os cavalos selvagens e semi-selvagens
desempenham um papel ecológico essencial.
A implementação de um programa de gestão de combustível nas faixas primárias e
modelação da paisagem na Serra da Lousã, que inclua a introdução destes animais, iria
contribuir para uma melhor e mais eficiente gestão de combustível numa zona tão icónica e
poderia ser posteriormente replicado noutras áreas.
O que se propõe está alinhado com a conclusão de um estudo desenvolvido por
investigadores da Universidade de Trás -os-Montes e Alto Douro, que pretendia conjugar a
utilização do fogo controlado com o pastoreio de cavalos de raça Garrana22, respetivamente
na limpeza e manutenção das áreas de matos.
É, pois, importante manter e ampliar a rede de prevenção de incêndios através do aumento
de herbivoria e reintrodução de espécies -chave de herbívoros selvagens e semi -selvagens,
como a cabra -montês (Capra pyrenaica), o cavalo de raça Garrana ( Equus caballus) ou o
veado (Cervus elaphus).
Assim, ao abrigo das disposições constitucionais e regimentais aplicáveis, o Grupo
Parlamentar do LIVRE propõe à Assembleia da República que, através do presente
Projeto de Resolução, delibere recomendar ao Governo que:
1. Implemente o mais rapidamente possível o Plano de Gestão da Serra da Lousã, de
forma a garantir a conservação dos habitats e espécies protegidas.
2. Assegure a eficaz regulação e fiscalização das atividades humanas em todas as áreas
do Sistema Nacional de Áreas Classificadas, incluindo na Rede Natura 2000,
nomeadamente assegurando que o Instituto de Conservação da Natureza e das
Florestas e da Guarda Nacional Republicana dispõem de recursos humanos, técnicos
e financeiros adequados e têm acesso a formação contínua especializada.
3. Instrua e capacite dos recursos financeiros, humanos e logísticos adequados o
Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas para a criação de um programa
de gestão de combustível nas faixas primárias e de modelação da paisagem na Serra
da Lousã, que inclua a reintrodução da cabra-montês, do cavalo de raça Garrana, do
veado e de outros herbívoros silvestres.
4. Avalie tecnicamente a eliminação definitiva da possibilidade de se realizarem cortes
rasos em áreas classificadas, incluindo na Rede Natura 2000, exceto quando tal se
21 Semi-wild horse grazing as a rewilding strategy: assessing effects on vegetation structure and composition in the Côa
Valley, Portugal (2025) Ribeiro et. al | Frontiers in Ecology & Evolution
22 Garranos usados na prevenção de incêndios florestais | UTAD
justificar por razões fitossanitárias devidamente comprovadas pela entidade
competente na matéria.
Assembleia da República, 27 de junho de 2025
As Deputadas e os Deputados do LIVRE
Isabel Mendes Lopes Filipa Pinto
Jorge Pinto Patrícia Gonçalves
Paulo Muacho Rui Tavares
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