Documento integral
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Projeto de Resolução n.º 448/XVII/1.ª
Recomenda ao Governo a progressiva redução do valor das propinas no
Ensino Superior
Exposição de motivos
A progressiva redução do valor das propinas no Ensino Superior e o seu consequente
congelamento em 2021 vieram significar um avanço crucial para todos os estudantes
que pretendem prosseguir os seus estudos após finalizarem o Ensino Secundário. No
entanto, a história das propinas em Portugal não é simples nem livre de polémicas. Uma
discussão séria sobre a acessibilidade ao Ensino Superior em Portugal deve recordar o
caminho feito neste sentido ao longo dos anos, sob pena de nos esquecermos das
dificuldades que os estudantes do Ensino Superior enfrentaram e continuam a enfrentar
no nosso país.
Foi nos anos 90, durante a governação do XII Governo Constitucional, chefiado por
Aníbal Cavaco Silva, que os estudantes do Ensino Superior passaram de pagar 6,5 euros
por ano para passarem a pagar 250 euros a partir do ano letivo de 1991/1992. Do
movimento estudantil até ao Presidente da República, passando pelos reitores das
universidades e politécnicos, este aumento trazido pela ‘’Lei das Propinas’’ gerou ampla
contestação na sociedade portuguesa, levando a vários protestos pelo país fora contra
o consequente encarecimento do Ensino Superior. Depois de anos de protesto, três
ministros da educação e uma carga policial sobre os estudantes, foi no XIII Governo
Constitucional, liderado por António Guterres, que houve nova mexida nas propinas,
com a suspensão da lei n.º 12/92, de 14 de agosto e da lei n.º 5/94, de 14 de março,
reduzindo novamente do valor das propinas e fixando um novo regime com a aprovação
da lei n.º 113/ 97, de 16 de setembro. É em 2003, com um novo governo PSD/CDS -PP
que surgem novas alterações às propinas, passando o seu valor a corresponder, no
mínimo, a 1,3 do salário mínimo nacional. Durante 16 anos o valor das propinas não
sofreu uma nova redução, se ndo apenas durante a vigência do XXI Governo
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Constitucional, durante o período da ‘’Geringonça’’, que este valor viria a descer,
primeiramente, de 1068 euros para 856 euros em 2019/2020 e para 697 euros em
2020/2021, já no segundo governo liderado por Antó nio Costa, fixando -se neste valor
até aos dias de hoje.
É neste contexto que surge a pretensão de aumentar o valor das propinas dos recentes
governos PSD/CDS-PP. Com o objetivo de fixar este valor à taxa da inflação, os partidos
do Governo levaram à discussão do Orçamento do Estado para 2026, por via da proposta
1806C, o aumento do valor das propinas para 710 a começar no ano letivo 2026/2027,
proposta esta que contou com o voto contra do PAN e com a rejeição da maioria
parlamentar vigente, travando assim o começo de um caminho que poderia,
inevitavelmente, levar ao encarecimento galopante da frequência no Ensino Superior.
No entender do PAN, é devido à existência de uma educação pública de qualidade que
atualmente temos uma geração que é comumente designada de ‘’a mais qualificada de
sempre’’. É inegável que o caminho de redução do valor das propinas começado em
2018 contribuiu para isto mesmo, possibilitando a que mais pessoas tenham acesso ao
Ensino Superior. Inverter este caminho é abrir a porta para a el itização do Ensino
Superior, onde apenas entra no mesmo quem tem dinheiro para pagar e quem não
consegue comportar os valores das propinas fica de fora ou tem que contrair um
empréstimo dispendioso para conseguir suportar os respectivos custos. Sabemos
também que, para além do valor da propina, os estudantes têm cada vez mais despesas
com habitação e alimentação, comprometendo a sua permanência no Ensino Superior.
Não obstante a existência de políticas sociais que aliviem a fatura mensal dos
estudantes, por via do alargamento e aumento do valor das bolsas de estudo ou através
pagamento de complementos de alojamento, o Estado deve trabalhar para reduzir os
custos direitos de entrada e permanência no Ensino Superior, onde se inserem as
propinas.
Um bom princí pio na aplicação de políticas públicas é que estas sejam legisladas de
acordo com as pretensões dos seus beneficiários e não contra as mesmas. O desejo do
aumento das propinas do atual Governo recebeu a ampla rejeição dos estudantes e das
associações e federações académicas do Ensino Superior. Os estudantes querem ver o
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valor das propinas ser reduzido, pelo que esta deve ser uma das razões principais para
os partidos políticos com assento na Assembleia da República acompanharem este
objetivo. Com isto, a As sembleia da República deve dar um sinal claro aos estudantes
portugueses, posicionando -se não só contra o aumento das propinas, mas também
favoravelmente a uma política que reduza progressivamente o seu valor, com vista à sua
eliminação total.
Nestes termos, a abaixo assinada Deputada Única do PESSOAS -ANIMAIS-NATUREZA,
ao abrigo das disposições constitucionais e regimentais aplicáveis, propõe que a
Assembleia da República adote a seguinte Resolução:
A Assembleia da República resolve, nos termos do n.º 5 do artigo 166.º da Constituição
da República Portuguesa, recomendar ao Governo que promova um Ensino Superior
público tendencialmente gratuito, por via da redução progressiva do valor das
propinas no 1º ciclo de estudos do Ensino Superior.
Assembleia da República, Palácio de São Bento, 29 de dezembro de 2025
A Deputada,
Inês de Sousa Real
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