Documento integral
Projeto de Resolução n.º 808/XVII
Recomenda ao Governo o reforço da resposta consular à comunidade
portuguesa e lusodescendente na Venezuela e a intensificação dos
esforços diplomáticos para a libertação de presos políticos
Exposição de motivos
A Venezuela atravessa há vários anos uma crise profunda e prolongada, de
natureza económica, social, política e humanitária, marcada pela degradação
das condições de vida, pelo colapso de serviços públicos essenciais e por graves
dificuldades no acesso a bens básicos como alimentos, medicamentos e
cuidados de saúde.
A comunidade portuguesa e lusodescendente residente naquele país, uma das
mais numerosas comunidades portuguesas no estrangeir o, tem sido
particularmente afetada por esta realidade, enfrentando dificuldades acrescidas
decorrentes da instabilidade económica, da degradação dos serviços públicos e
da incerteza quanto à evolução da situação política.
Ao longo das últimas décadas, Portugal tem mantido uma relação muito próxima
com esta comunidade, reconhecendo não apenas a sua importância histórica e
cultural, mas também o seu contributo para o desenvolvimento económico e
social da Venezuela, bem como para o reforço das ligações entre os dois países.
O Partido Socialista, em particular, tem acompanhado de forma muito atenta,
contínua e empenhada a realidade dos nossos concidadãos que integram esta
grande e importante comunidade portuguesa na Venezuela, colocando -a entre
as prioridades da sua ação política.
Este compromisso com as comunidades portuguesas, e em particular com a
comunidade portuguesa na Venezuela, tem sido reiteradamente demonstrado ao
longo dos anos e, ainda muito recentemente, tornou -se visível através do
contacto direto com portugueses e lusodescendentes residentes em Caracas,
permitindo um conhecimento aprofundado da sua realidade, bem como das
preocupações do movimento associativo e empresarial português.
Foi particularmente evidente como esta crise tem tido um impacto severo sobre
a comunidade portuguesa: desde as dificuldades no acesso a cuidados de saúde
e a escassez de medicamentos, à degradação das condições de segurança e à
instabilidade económica permanente, muitos compatriotas vivem em situação de
elevada vulnerabilidade, especialmente os mais idosos, os doentes crónicos e
aqueles que não dispõem de redes de apoio familiar.
Neste quadro, é fundamental assegurar que o Estado português mantém um
acompanhamento próximo, permanente e eficaz da situação da comunidade
portuguesa e lusodescendente, garantindo a proteção dos seus direitos e
interesses, bem como o acesso a apoios adequados às suas necessidades, que
tardam em fazer-se sentir.
Este acompanhamento assume especial relevância no plano consular e social,
designadamente no apoio a cidadãos em situação de maior vulnerabilidade, no
acesso a documentação e a serviços essenciais, desde contas bancárias ao
acesso a medicamentos e cuidados médicos.
Paralelamente, importa valorizar e apoiar a dimensão económica da presen ça
portuguesa na Venezuela. Muitos cidadãos portugueses e lusodescendentes
desenvolveram ao longo dos anos atividades empresariais relevantes,
constituindo um importante ativo económico e um potencial vetor de reforço das
relações económicas com Portugal.
Neste sentido, é particularmente importante que, neste novo contexto, se
promovam todas as condições que incentivem e apoiem o eventual regresso e o
investimento destes empresários em Portugal, que constituem uma oportunidade
relevante para o tecido económico nacional.
Por sua vez, a situação dos cidadãos portugueses e lusodescendentes detidos
na Venezuela por motivos de natureza política, em contextos marcados por
graves fragilidades do Estado de direito e por limitações significativas às
garantias fundame ntais, assume particular gravidade e constitui motivo de
profunda preocupação, exigindo uma resposta ativa, firme e continuada por parte
do Estado português. A persistência de detenções em circunstâncias associadas
a fragilidades processuais e a contextos de reduzidas garantias jurídicas reforça
a necessidade de acompanhamento político e diplomático permanente.
Apesar de já terem sido libertados alguns detidos, as informações mais recentes
indicam que, aos quatro luso-venezuelanos cuja detenção por motivos políticos
é publicamente conhecida, poderão somar -se mais dois casos até aqui não
divulgados, por vontade das respetivas famílias, o que acentua a dimensão
humana e a sensibilidade desta matéria, exigindo especial prudência, discrição
diplomática e determinação na sua abordagem.
A proteção dos direitos, da integridade e da dignidade dos cidadãos portugueses
no estrangeiro constitui uma responsabilidade indeclinável do Estado português,
impondo-se, por isso, que Portugal prossiga e intensifique todos os es forços
políticos e diplomáticos ao seu alcance com vista à libertação desses cidadãos,
à semelhança do que já ocorreu com nacionais de outros Estados europeus,
como Espanha ou Itália, afirmando de forma inequívoca que a salvaguarda dos
portugueses no exter ior é matéria de prioridade nacional e de exigência
permanente da ação externa do Estado.
Assim, ao abrigo das disposições regimentais e constitucionais aplicáveis, as
Deputadas e os Deputados abaixo-assinados do Grupo Parlamentar do Partido
Socialista apresentam o seguinte projeto de resolução:
A Assembleia da República resolve, nos termos do disposto do n.º 5 do artigo
166.º da Constituição da República Portuguesa, recomendar ao Governo que:
1. Intensifique todos os esforços políticos e diplomáticos possí veis e
necessários com vista à libertação de todos os cidadãos portugueses e
lusodescendentes atualmente detidos na Venezuela por motivos de
natureza política, à semelhança do que já ocorreu com cidadãos de outros
Estados europeus;
2. Agilize todas as dimens ões da resposta consular e mantenha uma ação
diplomática permanente, ativa e próxima que contribua para a proteção
dos interesses da comunidade portuguesa e lusodescendente na
Venezuela;
3. Reforce os instrumentos e mecanismos de apoio social e financeiro
dirigidos à comunidade portuguesa e lusodescendente residente na
Venezuela, assegurando maior adequação e eficácia na resposta às
situações de maior vulnerabilidade;
4. Desencadeie, em articulação com o Ministério da Saúde, a rede consular
e o movimento associ ativo local, todos os esforços necessários para
reforçar o apoio médico e o acesso a medicamentos essenciais aos
cidadãos portugueses e lusodescendentes em situação de maior
fragilidade;
5. Reforce a diplomacia económica e promova medidas de apoio
especificamente dirigidas aos empresários portugueses e
lusodescendentes residentes na Venezuela, valorizando a dimensão
económica da comunidade e criando condições favoráveis ao
investimento e ao eventual regresso a Portugal.
Palácio de São Bento, 31 de março de 2026
As Deputadas e os Deputados
Eurico Brilhante Dias
João Torres
Catarina Louro
Emanuel Câmara
Pedro Delgado Alves
Porfírio Silva
Rui Santos
Luís Graça
Hugo Costa
Eva Cruzeiro
Davide Amado
Rosa Isabel Cruz
Luís Dias
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