Documento integral
Projeto de Resolução n.º 71/XVII/1.ª
Recomenda ao Governo soluções que promovem a autonomia energética nacional,
através da descentralização no sistema energético, do reforço do armazenamento, da
gestão ativa e da criação de micro-redes locais e “vales solares”
O apagão que recentemente atingiu vastas regiões de Portugal e Espanha expôs
vulnerabilidades críticas nos sistemas elétricos ibéricos, colocando em causa a fiabilidade das
infraestruturas que asseguram o fornecimento de eletrici dade. Este evento demonstrou, de
forma inequívoca, a fragilidade de um modelo energético centralizado, pouco resiliente e
ainda excessivamente dependente de combustíveis fósseis e de redes interligadas sem
redundância suficiente.
Este episódio deve ser um ponto de viragem na política energética nacional. A crise climática
impõe uma transição energética profunda, baseada em energias renováveis, tecnologias de
armazenamento, produção descentralizada e modelos cooperativos. É imperativo garantir
soberania energética verde, assente em fontes renováveis, resilientes e acessíveis a todas as
pessoas.
O PAN tem defendido a necessidade urgente de construção de uma rede energética
inteligente, participativa e distribuída, capaz de integrar milhares de produtores -
consumidores locais, promovendo a democratização da energia e a redução das
desigualdades energéticas. Durante o recente apagão, diversas micro -redes com geração
descentralizada e armazenamento local mantiveram-se operacionais, em claro contraste com
a rede cen tral. Este facto reforça a necessidade de apostar decididamente na
descentralização da produção, no armazenamento — físico e virtual — e na criação de
condições para funcionamento em modo isolado ("islanding") sempre que necessário.
Um exemplo nacional con creto dessa resiliência é a micro -rede elétrica instalada no
Departamento de Engenharia Electrotécnica e de Computadores da Faculdade de Ciências e
Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC). Durante o apagão de dia 28 de abril, esta
infraestrutura conseguiu manter, com sucesso, o fornecimento de energia às cargas críticas
do edifício, operando de forma autónoma da rede pública. A micro -rede inclui sistema
fotovoltaico, dois sistemas de baterias, equipamento especializado de gestão e sincronização
de rede, permitindo, inclusive, que a energia armazenada nesses veículos alimente a rede
local. Com capacidade para funcionar até 72 horas e recarregar as baterias durante o dia
através da energia solar, este sistema representa um exemplo claro de como as micro -redes
podem substituir os tradicionais geradores a diesel e contribuir para a resiliência energética
em situações extremas1.
Em Portugal, o modelo energético continua a assentar num paradigma centralizado, ainda
pouco adaptado às exigências das redes inteligentes. Apesar dos incentivos ao autoconsumo,
como a isenção de IRS até mil euros anuais para a venda de excedentes, continuam a existir
barreiras burocráticas significativas e limitações técnicas — como o impedimento do
funcionamento "off-grid" da maioria das UPAC em caso de falha da rede.
É tecnicamente possível, com a devida certificação, permitir o funcionamento seguro e
isolado das UPAC durante falhas, desde que acompanhadas por sistemas adequados de
isolamento e armazenamento. O recurso a baterias vi rtuais, como já ocorre noutros países
europeus, permite também aumentar a rentabilidade e resiliência do autoconsumo sem
necessidade de investimento em baterias físicas, e abre espaço à solidariedade energética
entre comunidades.
Durante o apagão, diversasmicro-redes com geração descentralizada e armazenamento local
conseguiram manter-se operacionais, em contraste com a rede central. Este facto reforça a
necessidade de investir na descentralização energética e no armazenamento físico e virtual
de energia. Por outro lado, também se evidenciou a importância das interligações com outros
sistemas elétricos europeus, que podem funcionar como suporte estratégico nos momentos
de crise.
1https://www.publico.pt/2025/04/30/p3/noticia/universidade-coimbra-energia-durante-apagao-
sao-microrredes-2131428
Em Portugal, o actual modelo de produção e distribuição energética assenta, ain da, num
paradigma centralizado, pouco preparado para redes inteligentes, descentralizadas,
participativas e resilientes. O autoconsumo com base em painéis fotovoltaicos, incentivada
com o Orçamento do Estado de 2023 através da isenção de IRS até mil euros anuais para
venda de excedentes, é positiva, mas insuficiente.
As barreiras burocráticas ao registo e venda da energia excedente (requerendo contactos com
múltiplas entidades, abertura de atividade na Autoridade Tributária e celebração de contratos
com comercializadores) constituem um entrave à democratização da energia.
Além disso, o apagão revelou um facto pouco conhecido por muitos produtores domésticos,
na maioria das instalações de autoconsumo, a produção solar cessa em caso de falha da rede,
devido às características dos inversores e ao quadro legal que impede o funcionamento em
modo "off-grid" por motivos de segurança. Embora esta norma pretenda evitar que energia
seja injetada numa rede potencialmente comprometida e para proteger trabalhadores, é
tecnicamente viável, com a devida inspeção e certificação, garantir que as Unidades de
Produção para Autoconsumo (UPAC) possam funcionar de forma isolada e segura durante
interrupções de fornecimento.
Modelos inovadores como o das baterias virtuais, já em uso em Espanha, permitem
maximizar a rentabilidade e resiliência do autoconsumo sem custos de aquisição ou
manutenção de baterias físicas, ao mesmo tempo que podem ser utilizados de forma
solidária, beneficiando comunidades vulneráveis.
As micro -redes locais, equipadas com geração descentralizada e armazenamento,
demonstraram resiliência notável durante o apagão. Elas devem ser promovidas como células
energéticas essenciais numa futura rede resiliente, podendo ser geridas por cooperativas
locais, municípios ou agregadores energéticos.
Neste quadro, torna -se essencial garantir o acesso universal e justo à energia renovável,
reforçando as comunidades de energia e os mecanismos de solidariedade energética. Neste
sentido, foi já aprovada uma iniciativa do PAN para que o Governo procedesse à criação de
um conjunto de medidas e incentivos que promovam o acesso à energia renovável e acessível
para todos, com especial enfoque na promoção em autoconsumo a partir de fontes
renováveis, no investimento nas comunidades de en ergia e na implementação de
mecanismos de energia solidária renovável (Programa SOL PARA TODOS). Esta iniciativa
prevê, entre outras medidas, a possibilidade de microprodutores de energia doarem o seu
excedente a famílias em situação de pobreza energética, bem como o incentivo à criação e
fortalecimento de cooperativas de energia. Trata -se de um passo importante para uma
transição energética mais justa, descentralizada e participada, colocando os cidadãos no
centro do sistema energético.
Adicionalmente, torna-se essencial reforçar a resiliência da rede elétrica nacional, através:
● Garantia de que os projetos de energias renováveis adotem inversores do tipo grid
forming, com parâmetros corretos para função de “ride -through” de disturbios de
voltagem e frequênc ia, que contribuem para a estabilidade da rede;
● Implementação de condensadores síncronos, STATCOM, SVC, Remedial Action
Scheme para reforçar a estabilidade da rede de transmissão contra variações
extremas de produção renovável e outros distúrbios em zonas críticas da rede elétrica;
● Exigência de conversores de sincronização em novos projetos de dimensão média;
● Promoção de micro -redes locais e, em particular, das comunidades de energia;
● Garantia de que zonas críticas — como grandes centros urbanos ou unidades
hospitalares — contem com sistemas de islanding inteligentes, que permitam a
separação automática da rede principal e o fu ncionamento autónomo durante
períodos de falha.
● Investimento na pesquisa de novas opções de armazenamento de energia em grande
escala (e.g. Baterias, Gravidade, Hidrogênio Verde em Cavernas de Sal) para absorver
variações de produção e aproveitar capacida de nao utilizada devido ao curtailment.
● Estudo de viabilidade da conversão de uma planta a carvão encerrada numa planta
moderna de ciclo combinado com mix de hidrogênio verde para integrar maiores
níveis de renováveis, para aumentar capacidade de reserva e inércia.
● Estabelecimento de uma Autoridade Nacional de Segurança Energética dentro da
Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos para proteger as infr aestruturas e
dados críticos contra ciber-ameaças, sabotagem ou pontos fracos.
● Estabelecimento de programa de treino para formar e atrair técnicos e engenheiros
para as operações elétricas, inclusive setores da população sub -representados (e.g.
mulheres) em parceria entre sindicatos, empresas, instituições educacionais,
associações técnicas, especialistas aposentados e governo ( apprenticeship); valorizar
estas carreiras com incentivos de retenção de talento; revisão de mecanismos de
manutenção e transferência de conhecimentos críticos.
Com o presente projeto de resolução, pretende -se contribuir para a construção de um
sistema energético mais resiliente, democrático, acessível e ambientalmente justo,
assegurando que Portugal está preparado para enfrentar os desafios das alterações climáticas
e da transição energética.
Com o presente projeto de resolução, pretende -se contribuir para a construção de um
sistema energético mais resiliente, democrático, acessível e ambientalmente justo,
assegurando que Portugal está preparado para enfrentar os desafios das alterações climáticas
e da transição energética.
É imperativo, por conseguinte, que o Governo português promova uma revisão profunda da
regulação, do planeamento energético e dos incentivos à produção descentrali zada, com o
objetivo de garantir soberania energética, justiça climática e resiliência nacional.
Nestes termos, a abaixo assinada Deputada Única do PAN, ao abrigo das disposições
constitucionais e regimentais aplicáveis, propõe que a Assembleia da República recomende
ao Governo que:
1. Crie um regime que permita o funcionamento isolado de Unidades de Produção para
Autoconsumo (UPAC) durante interrupções da rede elétrica, mediante a utilização
de tecnologia de isolamento e preveja soluções de armazenamento de e nergia que
garantam a segurança e a conformidade regulatória;
2. Desenvolva e implemente o modelo de baterias virtuais, inspirado nas experiências
de países como Espanha, permitindo o registo e aproveitamento da energia
excedente de forma flexível, incluindo:
a) A utilização do saldo energético em diferentes residências do mesmo titular;
b) A partilha com familiares ou membros da comunidade;
c) A utilização solidária, com vista à compensação de faturas energéticas de
famílias em situação de vulnerabilidade;
3. Simplifique e digitalize o processo de registo e venda de energia excedente,
nomeadamente, criando uma plataforma pública integrada de correspondência
entre microprodutores e comercializadores de energia, facilitando a celebração de
contratos;
4. Crie um prog rama nacional de incentivo à constituição de micro -redes locais
resilientes, que inclua financiamento para:
a) Instalação de produção descentralizada e soluções de armazenamento
locais, sempre que tecnicamente adequadas;
b) Sistemas digitais de gestão energética;
c) Constituição e funcionamento de cooperativas energéticas comunitárias.
5. Aumente a resiliência da rede elétrica nacional por via da:
a) Garantia de que os projetos de energias renováveis façam a migração para
inversores grid forming com capabilidade “ride-through.”;
b) Existência de Condensadores Síncronos e outras tecnologias modernas de
inércia e estabilidade da rede de transmissão, em zonas críticas, e assegurar
que novos projetos de dimensão média tenham de ter sistema de proteção,
monitorização remota e conversores de sincronização adequados, de acordo
com as últimas práticas do sector eléctrico internacional.
c) Aposta em micro-redes e em especial nas comunidades de energia; e
d) Garantia de que as zonas críticas (grandes cidades, mas também hospitais)
dispõem de sistemas de Islanding inteligentes, que permitam isolar
automaticamente aquela parte da rede, incluindo a geração de energia e as
cargas, da rede principal, continuando a operar isoladamente por minutos ou
horas.
e) Pesquisa de novas opções de armazenamento de energia em grande escala
para absorver variações de produção e aproveitar capacidade não utilizada
devido ao curtailment.
f) Análise da viabilidade da conversão de uma planta a carvão encerrada numa
planta moderna de ciclo combinado com mix de hidrogênio verde para
integrar maiores níveis de renováveis, para aumentar capacidade de reserva
e inércia.
g) Criação de uma Autoridade Nacional de Segurança Energética dentro da
Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos para proteger as
infraestruturas e dados críticos contra ciber-ameaças, sabotagem ou pontos
fracos.
h) Criação de programa de treino (apprenticeship) para formar e atrair técnicos
e engenheiros para as operações elétrica s, inclusive setores da população
sub-representados (e.g. mulheres) em parceria entre sindicatos, empresas,
instituições educacionais, associações técnicas, especialistas aposentados e
governo; valorizar estas carreiras com incentivos de retenção de talent o;
revisão de mecanismos de manutenção e transferência de conhecimentos
críticos.
6. Crie um programa de “vales solares” ou apoio direto ao investimento inicial em
Unidades de Produção para Autoconsumo (UPAC), destinado a cidadãos e famílias
sem possibilid ade para investir, que inclua financiamento parcial ou total da
instalação, linhas de crédito com condições favoráveis, e um regime de pré -
aprovação de apoios do Fundo Ambiental, garantindo previsibilidade e segurança ao
investimento.
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