Documento integral
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Projeto de Resolução n.º 493/XVII
Recomenda ao Governo que avance com procedimentos concursais
direcionados para os postos de trabalho ocupados por trabalhadores
contratados via Plano de Recuperação e Resiliência
Exposição de Motivos
O desenho e execução do Plano de Recuperação e Resiliência constituiu -se
como uma oportunidade única de transformação estrutural da nossa economia
e sociedade, incluindo nos serviços públicos e na administração pública.
A sua operacionalizaçã o, na gestão e acompanhamento dos projetos e
financiamentos em si, na execução das reformas que lhes estão subjacentes e
no reforço e melhoria da re sposta da administração, foi uma inevitável fonte de
sobrecarga nas entidades envolvidas, tendo sido por isso em devido tempo
necessário contratar trabalhadores para dar corpo a este impulso transformador
um pouco em toda a administração pública e em particular nas entidades às
quais foram acometidas responsabilidades neste processo.
Está em causa um universo significati vo trabalhadores, que constituíram não
apenas um reforço das autoridades de gestão ou, nas entidades executoras ou
beneficiárias, de pessoas adstritas à execução dos fundos europeus em si, mas
que em muitos casos estão alocadas à melhoria das respostas e e quipas dos
próprios serviços da administração pública. Existem situações diversas do ponto
de vista contratual, incluindo diferentes tipos de vínculo não permanente ou de
prestação de serviços e são trabalhadores de diferentes categorias (incluindo,
desde logo, assistentes técnicos e uma larga maioria de técnicos superiores).
Certo é que são recursos humanos qualificados, muitas vezes jovens e com
elevado nível de especialização, contratados em muitos casos há vários anos e
que são hoje conhecedores da realidade e da dinâmica da execução de fundos
e projetos europeus, área da maior relevância estratégica para o país, além de
estarem em muitos casos plenamente integrados nas entidades e áreas de
política pública e da administração em que trabalham.
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Ora, tendo em conta o horizonte temporal do PRR, que caminha a passos largos
para o final,o Grupo Parlamentar do Partido Socialista tem vindo a receber sinais
e relatos de preocupação crescente com a indefinição da situação dos
trabalhadores c ontratados em diferentes serviços públicos ao abrigo deste
Plano, tanto para a gestão dos projetos em si como para concretizar as reformas
almejadas, especialmente quando são em muitas situações evidentes mais -
valias para entidades que, reconhecidamente, precisam de prosseguir o reforço
e renovação dos seus quadros.
Acresce que, mesmo nas próprias áreas relacionadas com a execução de fundos
europeus, há uma evidente necessidade de reforço da capacidade instalada na
análise e avaliação de candidaturas, processamento dos apoios e execução dos
programas e dos projetos em concreto. Assim o demonstram, por exemplo, as
dificuldades de execução no PT2030 que têm vindo a público, ilustradas pelo
facto de a taxa de execução deste ciclo de apoios se cifrar em apenas 14%
sensivelmente a meio percurso da sua vigência (dados de final de novembro de
2025), com atrasos mais visíveis na programação dirigida às empresas . É
essencial fortalecer a capacidade instalada para acelerar a execução dos fundos
europeus, e já nos próx imos anos do PT2030 em particular, sendo os recursos
humanos contratados ao abrigo do PRR valiosos para esse propósito e não
devendo por isso ser desperdiçados.
A esta necessidade adjacente à execução do PRR, de cariz mais permanente e
focada na execução de diferentes tipos e gerações de fundos europeus, que são
críticos para a economia portuguesa, acresce em qualquer caso a necessidade
estratégica de reforço e rejuvenescimento da administração pública,
nomeadamente com quadros qualificados e conhecedores das respetivas
realidades.
Por fim, ao objetivo desperdício que seria perder a mais -valia destes
trabalhadores, tanto na ótica da execução de fundos europeus como da
renovação e qualificação da administração pública, é legítima a preocupação
com a situação de pessoas que mantêm vínculos de diferentes naturezas com o
Estado, na grande maioria dos casos há vários anos, e estão agora numa
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situação de incerteza crescente sem que seja assegurada resposta positiva
sobre o seu futuro profissional.
O Partido Socialista tem vindo a questionar, desde o Verão, o Governo sobre o
futuro destes trabalhadores e a resposta dada é preocupante e errada.
Aparentemente, o Governo refugia -se na inação e na ausência de vontade
política, focando-se nas formas de contratação temporária e para fins definidos
ao invés de procurar ativamente soluções estratégicas que vão de encontro às
expetativas e necessidades não apenas das pessoas envolvidas , mas também
dos serviços públicos em causa e do interesse estratégico do país.
Pelo contrário, tendo em conta o horizonte temporal exíguo que está em causa,
impõe-se acautelar atempadamente estas situações, prevenindo situações de
insegurança e desmotivação destes trabalhadores na fase final de execução do
PRR, bem como perdas futuras deste capital humano experiente na execução
de fundos europeus e, de modo geral, com elevadas qualificações que importa
reter n a administração pública , salvaguardando não apenas as pessoas em
causa mas também a capacidade dos próprios serviços.
Assim, ao abrigo das disposições regimentais e constitucionais aplicáveis, as
Deputadas e os Deputados abaixo-assinados do Grupo Parlamentar do Partido
Socialista apresentam o seguinte projeto de resolução:
A Assembleia da República resolve, nos termos do disposto do n.º 5 do artigo
166.º da Constituição da República Portuguesa, recomendar ao Governo que:
1 - Conclua, no prazo de 30 dias, o levantamento e divulgação pública dos
trabalhadores contratados ao abrigo do PRR, por área governat iva e
serviço, e das respetivas formas de contratação.
2 - No prazo de 60 dias, lance procedimentos concursais que cubram os
postos de trabalho para os quais foram contratados trabalhadores ao
abrigo do PRR, nomeadamente com contrato de trabalho a termo certo
ou incerto ou recorrendo a prestação de serviços.
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3 - Nos concursos referidos no número anterior preveja, no integral respeito
do princípio constituciona l da igualdade de acesso à administração
pública e da legislação em vigor, uma majoração nos critérios de acesso
que valorize a experiência profissional nas áreas e nos postos de trabalho
em causa.
Palácio de São Bento, 12 de janeiro de 2026
As Deputadas e os Deputados
Marina Gonçalves
Ana Paula Bernardo
Hugo Costa
Mariana Vieira da Silva
Miguel Costa Matos
Miguel Cabrita
Nuno Fazenda
Armando Mourisco
Dália Miranda
Eduardo Pinheiro
Francisco César
Hugo Oliveira
Irene Costa
Jorge Botelho
Júlia Rodrigues
Margarida Afonso
Pedro do Carmo
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Sandra Lopes
Tiago Barbosa Ribeiro
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