Documento integral
Projeto de Resolução n.º 576/XVII/1.ª
Recomenda a avaliação e recuperação da Mata Nacional de Leiria,
na sequência da depressão Kristin
Exposição de motivos:
No final de janeiro de 2026, a depressão Kristin atingiu gravemente Portugal continental e
deixou um rasto de destruição sobretudo no centro do país, com fortes ventos, chuvas
intensas que provocaram inundações, deslizamentos de terras e o arranque de árvores e
estruturas. O distrito de Leiria foi um dos mais afetados, tendo registado cortes generalizados
no abastecimento de eletricidade e água, falhas nas comunicações, bem como danos em
habitações e infraestruturas rodoviárias. Perante a ocorrência de vítimas mortais e dezenas
de feridos, o Governo decretou a situação de calamidade e mobilizou os meios de proteção
civil para responder à emergência.
Concretamente neste concelho, o impacto da tempestade foi descrito como “cerca de três
vezes superior ao do grande apagão de 2025”, com cerca de 450 mil pesso as sem
eletricidade e dezenas de milhares de casas e estabelecimentos danificados1. Para além das
vítimas mortais, do número significativo de feridos e desalojados, também os estragos
materiais são avultadíssimos, havendo estimativas iniciais de 20 milhões de euros em
prejuízos só na zona oeste do país2.
Os impactos da depressão Kristin não se cingiram, no entanto, a danos humanos e materiais,
estendendose também de forma profunda ao meio natural, e tendo deixado marcas
duradouras nos ecossistemas e na vid a selvagem. A queda em massa de árvores e a
destruição de áreas florestais, como no Pinhal de Leiria 3, alterou um ecossistema inteiro,
afetou habitats, fauna, flora e a qualidade do solo, impactando ainda o papel das florestas na
regulação do ciclo da água e do clima local. Os impactos e a probabilidade de estes eventos
se tornarem cada vez mais recorrentes e intensos apontam para a necessidade imperiosa de
a recuperação dos ecossistemas afetados integrar, desde o início, o restauro e a proteção do
meio natural.
É natural e desejável que, numa situação de emergência como a que a depressão Kristin
apresenta, a atenção se concentre no socorro às pessoas e na garantia da sua segurança; é
1 Depressão Kristin: impacto foi três vezes superior ao apagão, diz autarca de Leiria| Euronews
2 Prejuízos na região de Leiria deverão ultrapassar os 20 milhões de euros, indica relatório preliminar | SIC Notícias
3 Depressão Kristin devastou grande parte da Mata Nacional de Leiria | Expresso
aí que o Estado tem o dever primário de intervir. Contudo, numa fase mais adiantada, é
igualmente necessário voltar o olhar para o meio natural, promovendo a recuperação e o
restauro dos ecossistemas afetados, de modo a que a reconstrução material se faça em
paralelo com a recuperação da natureza, reforçando a resiliência dos territórios para o futuro.
A realidade é que não basta reconstruir infraestruturas ou repor o que foi destruído; é
necessário repensar a forma como é feita a gestão das florestas, linhas de água e das zonas
costeiras, reforçando a biodiversidade, a conectividade entre habitats e a capacidade dos
ecossistemas de se adaptarem e recuperarem. Esta atenção ao meio natural é, em última
análise, também uma forma de prestar um serviço de proteção às pessoas. Um ecossistema
resiliente funciona como um escudo natural, amortecendo impactos, regulando o clima
localmente e garantindo serviços essenciais como a qualidade da água, a estabilidade do
solo e a proteção contra erosão e cheias. Cuidar da natureza não é um complemento
secundário à resposta à crise, mas uma condição fundamental para a segurança, a saúde e
o bemestar duradouros das populações.
O Pinhal de Leiria, ou Mata Nacional de Leiria (MNL), totalmente inserido no concelho da
Marinha Grande - onde ocupa cerca de ⅔ da sua área -, constitui um dos maiores símbolos
dos estragos causados pela depressão Kristin, que arrancou pela raiz centenas ou milhares
de árvores, reduzindo extensas zonas de pinhal a troncos partidos 4. Foi assim alterada de
forma drástica a paisagem florestal que há séculos caracteriza esta mata, incluindo um
eucalipto com mais de 165 anos, símbolo da antiguidade da Mata e árvore com interesse
público5.
Esta não é, de resto, a primeira vez que o Pinhal de Leiria sofre danos extensos nos anos
mais recentes. Outros eventos têm deixado marcas profundas na MNL e têm colocado em
causa a resiliência do ecossistema e a continuidade de um património natural que, além do
seu valor ecológico, carrega um forte significado histórico e simbólico para a região e para o
país.
Em outubro de 2017, durante os incêndios que devastaram a região centro do país, quase
90% do Pinhal - mais de 9000 dos seus 11000 hectares - ficou reduzido a cinzas6. Nos anos
seguintes, foram várias as ações levadas a cabo para recuperar o Pinhal de Leiria e, quase
cinco anos depois, a MNL já tinha sido alvo de várias ações de recuperação, embora o
resultado ainda não fosse visível em muitas zonas 7. Entre as medidas que foram levadas a
cabo contam-se a limpeza de áreas ardidas, a remoção de árvores mortas e de madeira
queimada, a plantação de novos pinheiros e de outras espécies autóctones e o
aproveitamento da regeneração natural em parcelas onde a floresta se reconstitui por si
própria.
O Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) desenvolveu um plano de
intervenção para o período 2018-2024, dotado de 9 milhões de euros8, que inclui projetos de
rearborização, controlo de pragas e de espécies invasoras, além da criação de mosaicos de
4 Quilómetros de árvores caídas: drone mostra destruição no Pinhal de Leiria| SIC Notícias
5 Pinhal de Leiria decapitado, eucalipto com mais de 165 anos não resistiu| Jornal de Leiria
6 O coração de Leiria ardeu: o Pinhal está reduzido a cinzas | Público
7 Quase cinco anos depois do fogo, o Pinhal de Leiria mostra sinais de abandono| Público
8 Mata Nacional de Leiria | ICNF
combustível para reduzir o risco de incêndios futuros. Também houve parcerias com
associações ambientalistas e locais no sentido de devolver biodiversidade e resiliência à
MNL.
Todavia, entre as várias fragilidades apontadas à recuperação do Pinhal de Leiria, conta-se
por exemplo a escassez de recursos humanos. Facto é que, se antigamente trabalhavam
diretamente na gestão da Mata centenas de pessoas, atualmente a gestão é assegurada por
uma técnica superior e 11 assistentes operacionais9.
Para além do impacto do incêndio de 2017, a tempestade Leslie, no ano seguinte, dizimou
ainda mais o Pinhal de Leiria e provocou prejuízos de quase 13 milhões de euros nas matas
do centro do país10.
Em outubro de 2020, no âmbito dos trabalhos do Observatório Técnico Independente (OTI)
da Assembleia da República, foi publicado o documento intitulado “Estudo Técnico -
Recuperação da Mata Nacional de Leiria após os incêndios de outubro de 2017” 11, que
analisou detalhadamente a situação da MNL após os incêndios desse ano, bem como a
resposta por parte do Estado.
Algumas das lacunas identificadas pelo estudo foram a falta de remoção do material lenhoso
ardido ou destruído, a falta de intervenção em vastas áreas onde não existia ainda qualquer
regeneração natural e medidas eficazes para controlar a erosão hídrica e eólica em toda a
orla costeira. Um dos integrantes do OTI chegou mesmo a considerar, em entrevista, que
havia sido um erro esperar “quatro ou cinco anos para que houvesse regeneração natural,
que só há no primeiro ou segundo ano” e não avançar mais cedo com a replantação12.
Além disso, também as espécies a replantar na MNL são importantes. Especialistas
consideram que a recuperação da MNL deve garantir a diversificação das espécies arbóreas
para reduzir a dependência do pinheiro-bravo e aumentar a resiliência ao fogo e às alterações
climáticas. Assim, recomendam reforçar, complementarmente ao pinheiro-bravo que é
historicamente a espécie predominante na MNL, espécies autóctones como o pinheiro-
manso, carvalhos, sobreiro ou o medronheiro13. Esta abordagem em mosaico, com diferentes
estratos vegetais, minimiza incêndios, retém água, enriquece o solo e diversifica os
rendimentos, promovendo uma floresta mais estável e sustentável. A entrada destas espécies
estava aliás prevista no Plano de Gestão Florestal (PGF) da Mata Nacional de Leiria 2019-
203814, colocado a consulta pública em 2022 e que entretanto já está em vigor.
A realidade é que é provável que o PGF da MNL, embora seja recente, necessite de uma
revisão face ao intensificar dos fenómenos naturais extremos (veja-se o incêndio de 2017, o
furacão Leslie em 2018 e a tempestade Kristin em 2026), dado que o ciclo de vida do pinheiro
bravo, em que os cortes comerciais costumam acontecer entre os 35 e os 50 anos, excede
9 Quase cinco anos depois do fogo, o Pinhal de Leiria mostra sinais de abandono| Público
10 Tempestade Leslie provocou 12,7 milhões de euros de prejuízos nas matas do Centro| SIC Notícias
11 Estudo Técnico - Recuperação da Mata Nacional de Leiria após os incêndios de outubro de 2017| Observatório Técnico
Independente para análise, acompanhamento e avaliação dos incêndios florestais e rurais que ocorram no território nacional
12 Quase cinco anos depois do fogo, o Pinhal de Leiria mostra sinais de abandono| Público
13 Pinhal de Leiria: Estado recebeu 17 milhões de euros mas só vai investir 8,3 até 2025| Público
14 Plano de Gestão Florestal da Mata Nacional de Leiria 2019-2038
largamente a ciclicidade acelerada destes eventos. Isto poderá significar que rapidamente se
tornarão obsoletas as premissas que sustentam o PGF, pelo que urge a sua revisão e
adaptação.
O OTI propôs ainda reforçar os recursos humanos e técnicos do ICNF dedicados à MNL,
integrar instituições científicas e organizações da sociedade civil ligadas à conservação da
natureza e do património histórico, e assegurar à entidade gestora plena independência
técnica, administrativa e financeira, com as receitas aplicadas exclusivamente na
conservação, gestão e melhoria do património. O OTI propôs, por fim, que a entidade fosse
financiada, em parte, pelas receitas provenientes da venda do material lenhoso retirado após
o incêndio de 2017.
Facto é que, após o evento de 2017 e com a venda do material lenhoso retirado da MNL, o
Estado arrecadou cerca de 17 milhões de euros. No entanto, até 2025, só estava previsto
investir 8,3 milhões de euros diretamente na recuperação da mata. Embora houvesse um
plano de investimento público na ordem dos 9 milhões de euros, circunscrito a 2025, parte
significativa do dinheiro obtido com a venda da madeira não foi canalizada para a MNL, o que
acabou por gerar críticas sobre a utilização desses recursos e a perceção de que o esforço
financeiro não é proporcional ao valor patrimonial e ambiental do Pinhal15.
Agora, a utilização deste material lenhoso pode ter lugar desde já. Urge proteger o solo da
MNL e, para tal, dever-se-ia proceder à trituração da madeira e espalhamento in situ da
biomassa residual de forma a produzir mulching orgânico, o que cria uma cobertura protetora
que minimiza a erosão, retém humidade, inibe o crescimento de invasoras e enriquece o solo
em matéria orgânica e carbono. Trata-se de uma técnica de bioengenharia natural, que,
enquanto não houver condições para a reflorestação, acelera a regeneração ecológica e
estabiliza o solo.
Por fim, importa dizer que a relevância da MNL também se refletiu no processo orçamental.
O orçamento do Estado para 2020, através do artigo 207.º, destinou 5 milhões de euros à
recuperação e rearborização da mata. No ano seguinte, o Orçamento para 2021, no artigo
212.º, voltou a assegurar um montante mínimo de 5 milhões de euros, determinando ainda
que as receitas obtidas com a venda da madeira ardida fossem totalmente aplicadas à
reflorestação. Já o Orçamento de 2022, no artigo 166.º, reduziu essa verba para 1,5 milhões
de euros, tendo sido o último a fazer referência direta à MNL, o que não se vê como coadunar
com o reconhecimento da emergência climática, inequivocamente declarada no artigo 2.º, n.º
1 da Lei de Bases do Clima, aprovada através da Lei n.º 98/2021, de 31 de dezembro: “É
reconhecida a situação de emergência climática.”
Assim, ao abrigo das disposições constitucionais e regimentais aplicáveis, o Grupo
Parlamentar do LIVRE propõe à Assembleia da República que, através do presente
Projeto de Resolução, delibere recomendar ao Governo que diligencie e leve a cabo as
seguintes ações considerando os diferentes graus de emergência que lhes estão
associados:
15 Pinhal de Leiria: Estado recebeu 17 milhões de euros mas só vai investir 8,3 até 2025| Público
1. Instrua o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas para que, em
articulação com os municípios e os gabinetes técnicos florestais, efetue, até ao final
do primeiro semestre de 2026, um levantamento combinado, aéreo e de campo, com
o objetivo de mapear as áreas totalmente devastadas, as zonas com danos parciais
e os locais que apresentem risco de queda de árvores, em sequência da depressão
Kristin;
2. Instrua o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas para que avalie e
proceda, assim que possível, à trituração da madeira e espalhamento in situ na Mata
Nacional de Leiria para proteção do solo;
3. Instrua o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas para que, em
articulação com os municípios e os gabinetes técnicos florestais intermunicipais,
defina as zonas de intervenção prioritária, designadamente áreas de maior
biodiversidade e áreas com valor patrimonial;
4. Estruture circuitos de recolha e valorização da madeira proveniente da queda de
árvores, com vista à minimização do desperdício e à geração de receitas destinadas
às ações de recuperação, garantindo que a receita resultante da sua venda seja
integralmente afeta à reflorestação;
5. Privilegie, a par da reflorestação de pinheiro-bravo, a reflorestação com espécies
alternativas autóctones como o pinheiro-manso, carvalhos, sobreiro, medronheiro,
entre outras, de forma a criar mosaicos mais biodiversos que melhorem a resiliência
climática;
6. Garanta um acompanhamento próximo, regular e continuado das áreas reflorestadas,
com monitorizações periódicas no terreno e intervenções seletivas, de modo a
prevenir e controlar a proliferação de espécies invasoras que possam comprometer o
sucesso da regeneração ecológica;
7. Autorize o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas a proceder à
contratação, com carácter de urgência, do número adequado de funcionários para
reforçar os quadros operacionais na gestão e vigilância da Mata Nacional de Leiria,
nomeadamente equipas especializadas em monitorização, reflorestação, controlo de
espécies invasoras e prevenção de riscos;
8. Instrua o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas no sentido da revisão
do Plano de Gestão Florestal da Mata Nacional de Leiria, de forma a considerar a
intensificação dos fenómenos climáticos extremos.
Assembleia da República, 12 de fevereiro de 2026
As Deputadas e os Deputados do LIVRE
Isabel Mendes Lopes Filipa Pinto
Jorge Pinto Patrícia Gonçalves
Paulo Muacho Rui Tavares
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