Documento integral
Projeto de Resolução n.º 241/XVII/1.ª
Recomenda um Programa de Revitalização do Parque Natural da Serra da
Estrela mais ambicioso para fazer face aos incêndios florestais
Exposição de motivos:
A Serra da Estrela é um dos patrimónios naturais mais emblemáticos de Portugal,
destacando-se pela sua importância ecológica, cultural e paisagística. A região é rica em
biodiversidade, com habitats protegidos e espécies endémicas, como é o caso da lagartixa-
da-montanha (Iberolacerta monticola) - cujo estatuto de conservação é “vulnerável” 1 -, além
de possuir uma grande relevância para a conservação dos ecossistemas mediterrânicos.
Lamentavelmente, os incêndios de agosto de 2022 resultaram em vastos danos ambientais,
afetando 28 mil hectares na região, 25% dos quais dentro do Parque Natural da Serra da
Estrela (PNSE), pelo que, e em resposta ao maior incêndio na região em 47 anos, o Governo
desenvolveu o Programa de Revitalização do Parque Natural da Serra da Estrela (PRPNSE),
aprovado pela Resolução do Conselho de Ministros n.º 40/2024, de 15 de março.
Em janeiro de 2025, a Assembleia da República discutiu iniciativas sobre a revitalização,
valorização, reflorestação e restauração ecológica do PNSE, que recomendavam ao Governo
a implementação do PRPNSE, com medidas para planeamento e gestão adequada do
território, reforço da prevenção e combate a incêndios, e apoio à reposição do potencial
produtivo, nomeadamente nas atividades agrícolas e pecuárias locais2.
Novamente, três anos depois dos devastadores incêndios de 2022, algumas zonas em plena
Serra da Estrela voltaram a ser severamente afetadas por incêndios de grande dimensão, que
destruíram vastas áreas de floresta e habitats naturais. O fogo alastrou-se rapidamente 3
devido às condições meteorológicas, causando prejuízos ambientais significativos, como a
perda de biodiversidade e a degradação de ecossistemas raros e vulneráveis da região.
1 Iberolacerta monticola (Boulenger, 1905) | Museu Virtual da Biodiversidade
2 Parlamento aprova projetos de resolução sobre revitalização da Serra da Estrela | Observador
3 Reativação atribuída à trovoada obriga a reforço de meios | RTP Notícias
Os dados indicam que este é já o terceiro pior dos últimos 50 anos em termos de fogos em
áreas protegidas, tendo ardido quase 34 mil hectares em áreas protegidas, o que significa
4,6% do total desta rede, das quais o PNSE é o mais afetado4.
A 18 de agosto, foi noticiado que uma associação local irá avançar com a limpeza de 4000
hectares na Serra da Estrela, com o objetivo sobretudo de aumentar a resiliência do território
perante os incêndios florestais 5. Esta iniciativa envolve remoção de material combustível,
como matos e detritos, a promoção de práticas de gestão ativa do solo, a recuperação de
áreas degradadas pela passagem do fogo e a replantação de espécies autóctones. Além
disso, o projeto incluirá também ações de sensibilização junto das populações locais e
proprietários rurais, para incentivar uma maior responsabilidade coletiva na manutenção dos
espaços florestais e na adoção de medidas preventivas.
O LIVRE defende que a implementação do PRPNSE deve assegurar que quaisquer
intervenções não comprometem a integridade ecológica da Serra da Estrela, pelo que é
essencial que as estratégias de revitalização incluam medidas de preservação de habitats
nativos e a recuperação de áreas degradadas com adaptabilidade às alterações climáticas,
evitando a implementação de projetos de desenvolvimento económico à custa de mais
degradação.
É importante restaurar as zonas ardidas, mas igualmente importante é manter o território de
forma a que futuros incêndios não ocorram ou sejam mais facilmente controlados. A
reintrodução de herbívoros, como cabras ou veados, é uma estratégia baseada na natureza,
importante para a prevenção dos incêndios florestais 6. É essencial agir com urgência no pós-
fogo para prevenir a degradação do solo, restaurar os ecossistemas afetados e garantir a
recuperação sustentável das comunidades e territórios impactados.
O PRPNSE identifica o despovoamento e o envelhecimento da população como um dos
principais problemas que afetam as Beiras e Serra da Estrela. A aposta nos serviços públicos
de proximidade é da maior importância quando o objetivo é fixar a população. Ora, para atrair
pessoas para o território, é fundamental apostar num desenvolvimento tecnológico e
económico que respeite e valorize os recursos naturais únicos da região. Devem, portanto,
ser incentivados projetos que harmonizem inovação com conservação. No entanto, a
reativação ou construção de dois aeródromos, por exemplo, num território
predominantemente rural e onde os valores naturais são tão diversos, parece um desajuste
relativamente àquilo que é o potencial e o objetivo deste Parque Natural.
O objetivo do PRPNSE deve ser simultaneamente a redução da exposição do território a
novos incêndios e o desenvolvimento económico e social dentro dos limites que o PNSE
oferece. Uma dupla abordagem irá contribuir para o aumento da fixação da população na
região, tornando-a verdadeira agente de mudança e proteção do território.
4 Este ano já é o terceiro pior dos últimos 50 anos em termos de fogos em áreas protegidas | Público
5 Associação florestal vai limpar quatro mil hectares na Serra da Estrela para aumentar resiliência aos incêndios | Expresso
6 Large Herbivores Can Help Prevent Massive Wildfires | Scientific American
Assim, ao abrigo das disposições constitucionais e regimentais aplicáveis, o Grupo
Parlamentar do LIVRE propõe à Assembleia da República que, através do presente
Projeto de Resolução, delibere recomendar ao Governo que:
1. Mobilize e intensifique esforços e meios para assistir as pessoas afetadas pelos
incêndios, incluindo apoio financeiro, psicológico e material, que garantam a
recuperação de habitações afetadas, meios de subsistência e infraestruturas
essenciais;
2. Estabeleça Gabinetes Locais de Apoio Florestal que promovam a proximidade com as
comunidades locais e capacitem os cidadãos a vários níveis, como a desenvolver
candidaturas a fundos, e a colocar em prática uma gestão territorial sustentável e
resiliente, com foco em alternativas adaptativas às alterações climáticas;
3. Com caráter prioritário, implemente medidas para prevenir a erosão do solo nas áreas
afetadas pelos incêndios no PNSE, promova a recuperação da vegetação autóctone
através da reflorestação, estabilize vertentes vulneráveis e reforce as barreiras
naturais nas linhas de água;
4. Desenvolva e implemente, em colaboração com entidades regionais e científicas, um
programa de gestão de combustível nas faixas primárias e modelação da paisagem,
que inclua a reintrodução da cabra-montês ( Capra pyrenaica ), do cavalo de raça
Garrana (Equus ferus), do veado (Cervus elaphus) e de outros herbívoros silvestres;
5. Fortaleça a coesão territorial, através do apoio a iniciativas locais e empresariais nas
áreas rurais, com vista a promover os produtos provenientes das atividades típicas da
Serra da Estrela, por exemplo com programas de certificação para os produtos
alimentares (Denominação de Origem Protegida, Indicação Geográfica Protegida ou
outros);
6. Inclua a Serra da Estrela no Plano Nacional de Restauro, com identificação das áreas
prioritárias para restauro, medidas concretas a levar a cabo, ações definidas, prazos,
mecanismos de avaliação e monitorização a longo prazo, e um orçamento dedicado.
Assembleia da República, 22 de agosto de 2025
As Deputadas e os Deputados do LIVRE
Isabel Mendes Lopes Filipa Pinto
Jorge Pinto Patrícia Gonçalves
Paulo Muacho Rui Tavares
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