Documento integral
Projeto de Resolução n.º 269/XVII/1.ª
Recomenda ao Governo que reforce a cooperação e demonstre solidariedade para
com o Japão face às ameaças da Rússia, da China e da Coreia do Norte
Exposição de motivos
O Japão é uma das mais antigas democracias da Ásia e um parceiro essencial para o
equilíbrio da ordem internacional baseada em regras. É também um país com o qual
Portugal mantém laços históricos seculares e únicos: em 1543, na ilha de Tanegashima,
marinheiros portugueses tornaram-se os primeiros europeus a estabelecer contacto
com o Japão, levando consigo novas tecnologias, como as armas de fogo, e dando início
a um período de intenso intercâmbio cultural, comercial e científico. O século XVI ficaria
marcado pela chegada dos missionários jesuítas e pelo florescimento de uma relação
que deixou marcas profundas na história japonesa, como os célebres “Namban screens”
ou o envio da embaixada Tenshō à Europa em 1582.
Apesar das vicissitudes que a história trouxe, incluindo o período de isolamento do
Japão durante o sakoku, a relação entre Portugal e o Japão manteve-se como símbolo
de diálogo entre civilizações, de encontro entre culturas distantes e da importância da
diplomacia assente no respeito e na curiosidade mútua. É, pois, com este
enquadramento histórico que hoje Portugal olha para o Japão: não apenas como um
país longínquo, mas como um parceiro com raízes comuns no Pacífico, e com o qual
partilha valores universais.
No presente, o Japão enfrenta um dos contextos de segurança mais desafiantes da sua
história contemporânea. As disputas territoriais com a Federação Russa em torno das
ilhas Curilas, que os japoneses designam Ilhas Chishima, permanecem sem solução
desde o final da Segunda Guerra Mundial. Este litígio impede ainda hoje a assinatura de
um tratado de paz definitivo entre os dois países, mais de setenta e oito anos após o fim
do conflito. O arquipélago em disputa, situado a norte da ilha de Hokkaido, tem um valor
estratégico acrescido, tanto em termos militares como de recursos marítimos e
energéticos, sendo alvo de uma política de facto de ocupação russa que Tóquio continua
a contestar.
No mesmo espaço geográfico, a ilha de Sacalina, ou Karafuto em japonês, permanece
como memória viva da competição entre impérios e da complexidade das fronteiras do
Pacífico Norte. Este cenário é agravado pela retórica recente do Kremlin,
nomeadamente de altos responsáveis da segurança russa, que acusaram o Japão de
seguir uma “política suicida de militarização”, numa tentativa clara de intimidar Tóquio
e de condicionar a sua política externa soberana.
Simultaneamente, a península coreana mantém-se como foco de preocupação
permanente. A Coreia do Norte prossegue um programa nuclear e balístico que
representa uma ameaça não apenas para o Japão, mas para todo o sistema de segurança
internacional. Ao longo da última década, múltiplos testes de mísseis norte-coreanos
sobrevoaram o espaço aéreo japonês ou caíram nas suas zonas económicas exclusivas,
provocando alertas de emergência à população civil. A ameaça de um arsenal nuclear
norte-coreano plenamente operacional, aliado a uma retórica agressiva e imprevisível,
torna esta questão numa das mais graves fontes de instabilidade no nordeste asiático.
A leste, a República Popular da China intensifica a sua presença militar e naval em todo
o Mar do Sul da China e, em particular, em redor de Taiwan. A pressão chinesa sobre
Taiwan representa não apenas um risco para a segurança da ilha democrática, mas
também para todo o equilíbrio estratégico do Indo-Pacífico. Qualquer conflito naquela
região teria consequências devastadoras para a economia mundial, dado o papel central
de Taiwan na produção de semicondutores e o papel vital do Japão como elo de ligação
entre a Ásia e o Pacífico Norte. Para Tóquio, a possibilidade de um confronto militar em
torno de Taiwan não é uma hipótese distante: é uma ameaça imediata e concreta à sua
segurança nacional.
Neste contexto, o Japão tem vindo a reforçar as suas capacidades de defesa. O
orçamento para 2026 atingirá valores recorde, ultrapassando 60 mil milhões de dólares,
com investimentos significativos em mísseis de longo alcance, drones, defesa costeira e
ciberdefesa. A implantação antecipada dos mísseis Type-12, originalmente prevista para
2026 e agora trazida para 2025, mostra a seriedade com que Tóquio encara a
necessidade de garantir a sua dissuasão estratégica.
Ao mesmo tempo, o Japão tem aprofundado as suas alianças com democracias
afirmadas e relevantes. A cooperação trilateral com os Estados Unidos e a Coreia do Sul
ganhou novo fôlego, abrindo caminho a mecanismos de resposta coordenada em caso
de crise. A relação bilateral com o Reino Unido atingiu um “novo patamar”, simbolizado
pela recente chegada do porta-aviões HMS Prince of Wales a Tóquio, numa
demonstração inequívoca de solidariedade naval. Em paralelo, a parceria com a Itália e
o Reino Unido no programa Global Combat Air evidencia o empenho japonês em
partilhar tecnologia, inovação e responsabilidade estratégica com aliados europeus.
Perante estas iniciativas legítimas de defesa, tanto a Rússia como a China procuram
retratar o Japão como um país em escalada militar. Essa narrativa é injusta e desprovida
de fundamento. O Japão não procura agressão nem expansão territorial: procura,
seguindo a máxima "Si vis pacem, para bellum" (Se queres a paz, prepara-te para a
guerra), apenas proteger os seus cidadãos, salvaguardar a sua soberania e contribuir
para a estabilidade regional. Pelo contrário, é precisamente a agressividade russa e a
expansão naval e territorial da China que ameaçam a paz no Indo-Pacífico.
Para Portugal, este cenário não pode ser indiferente. Como Estado membro da União
Europeia e da NATO, Portugal tem responsabilidades na defesa da ordem internacional
baseada em regras. E como país que inaugurou há quase cinco séculos o diálogo com o
Japão, tem também uma responsabilidade moral e histórica em apoiar este parceiro,
que é hoje uma das vozes mais firmes da democracia na Ásia.
A solidariedade com o Japão não é apenas a solidariedade com um Estado amigo: é a
defesa de um princípio fundamental – o de que os povos livres têm o direito de se
protegerem contra ameaças externas, de escolherem os seus aliados e de determinarem
o seu próprio destino. É também a afirmação de que a paz se constrói com firmeza, com
clareza de valores e com cooperação entre democracias.
Assim, ao abrigo das disposições constitucionais e regimentais aplicáveis, o Grupo
Parlamentar da Iniciativa Liberal propõe que a Assembleia da República recomende
ao Governo que:
1. Afirme publicamente a solidariedade e o apoio político e diplomático ao Japão,
reafirmando o direito soberano do país a garantir a sua segurança nacional e a
sua defesa perante as ameaças da Rússia, da China e da Coreia do Norte;
2. Aprofunde a cooperação bilateral entre Portugal e o Japão, nomeadamente
nas áreas política, militar, económica, científica e cultural, valorizando os laços
históricos que unem os dois países desde 1543;
3. Promova, no quadro da União Europeia e da NATO, uma linha de solidariedade
clara com o Japão e uma política ativa de defesa da estabilidade e da segurança
no Indo-Pacífico, reforçando a coordenação com outras democracias;
4. Incentive a participação portuguesa em iniciativas multilaterais que fortaleçam
a segurança marítima, a liberdade de navegação, bem como a segurança aérea,
e a resiliência tecnológica no Indo-Pacífico, em articulação com o Japão e os
seus parceiros democráticos.
Palácio de São Bento, 8 de setembro de 2025
Os Deputados da Iniciativa Liberal,
Rodrigo Saraiva
Miguel Rangel
Angélique Da Teresa
Carlos Guimarães Pinto
Joana Cordeiro
Jorge Miguel Teixeira
Mariana Leitão
Mário Amorim Lopes
Rui Rocha
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