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Projeto de Resolução n.º 78/XVII/1.ª
Recomenda a proteção e restauro dos ecossistemas dunares da
península de Tróia e das pradarias marinhas do estuário do Sado
Exposição de motivos:
A península de Tróia é uma restinga arenosa com mais de 25 km de comprimento formada
há cerca de 5000 anos. Pertence ao concelho de Grândola e é ladeada, a oeste, pelo oceano
Atlântico e, a este, pelo estuário do Sado. Está parcialmente incluída na Reserva Natural do
Estuário do Sado (RNES) que goza de vários estatutos internacionais de proteção. A RNES
é formada em grande parte por planícies aluviais e por outros tipos de formações como dunas,
extensas praias fluviais e marítimas, pinhais e habitats com diversas espécies de f auna e
flora, algumas com estatuto de proteção especial1.
A península de Tróia abriga, assim, ecossistemas protegidos no âmbito da RNES e é
reconhecida como sendo um dos patrimónios naturais mais valiosos do litoral português,
desempenhando um papel crucial na conservação da biodiversidade e na manutenção de
serviços essenciais do ecossistema. Algumas das espécies que a RNES alberga são raras
ou protegidas, incluindo aves migratórias, mamíferos como o golfinho-roaz do Sado e plantas
endémicas2.
São inegáveis os serviços ecossistémicos que uma estrutura como a península de Tróia
presta. Desde logo, protege a linha de costa contra a erosão costeira e a recarga dos
aquíferos e funciona como barreira natural contra fenómenos naturais, o aumento do ní vel
médio das águas do mar e a intrusão salina no estuário do Sado3.
A península representa a conectividade ecológica vital entre o Atlântico e o estuário do Sado
e é essencial para a saúde ambiental da região. Para além do seu valor intrínseco, todas as
espécies - incluindo algumas protegidas pela Diretiva Habitats da Rede Natura 2000 - que lá
residem são o garante de atividades económicas importantes para a região, como o turismo,
a pesca ou a observação de aves e cetáceos.
Entre os habitats mais sensíveis e importantes da região destacam-se as pradarias marinhas,
especialmente as formadas pela espécie Zostera marina, classificada como Vulnerável (VU)
na Lista Vermelha da Flora Vascular de Portugal Continental 4. As pradarias marinhas são
1 Reserva Natural do Estuário do Sado • Informação (ICNF)
2 PDM Setúbal - Revisão (agosto 2024)
3 Reserva Natural do Estuário do Sado - ICNF (Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas)
4 Zostera marina – Lista Vermelha da Flora Vascular de Portugal Continental
reconhecidas aliadas no combate às alterações climáticas, uma vez que capturam carbono
até 35 vezes mais rápido do que as florestas tropicais. Representam 10-18% da capacidade
de armazenamento total de carbono no oceano, apesar de cobrirem menos de 0,1% do fundo
marinho5. Além disso, desempenham um papel vital na proteção contra a erosão costeira,
são berçários para diversas espécies marinhas e contribuem para a manutenção da qualidade
ambiental geral.
Por essas razões, as pradarias de ervas marinhas estão incluídas na Lista OSPAR 6 das
espécies e habitats ameaçados e/ou em declínio7. Entre as principais causas de ameaça ou
pressão incluem-se as alterações das dinâmicas de erosão/sedimentação, eutrofização e a
destruição e fragmentação das pradarias marinhas por ação humana (por exemplo, através
de dragagens ou da pesca de arrasto).
Como outros ecossistemas estuarinos, o Sado está sob grande pressão causada pela
atividade humana, como a navegação, a pesca, a expansão urbana e o turismo, que têm
contribuído para a degradação dos habitats naturais, a poluição das águas superficiais e
subterrâneas e a perturbação das espécies residentes.
As dragagens, por exemplo, têm sido uma fonte constante de polémica e contestação pública,
gerando uma intensa oposição entre as organizações locais e ambientalistas. O projeto de
melhoria da acessibilidade marítima ao Porto de Setúbal foi, em 2018, alvo d e grande
contestação popular com manifestações em Setúbal e até ações judiciais8.
Em 2025, após novo pedido para efetuar dragagens e submergir até 2 milhões de m 3 de
dragados na zona da restinga de Tróia, a sociedade civil tem denunciado a falta de informação
sobre os resultados das medidas compensatórias e de monitorização exigidas pela
Declaração de Impacte Ambiental das dragagens anteriores. Sem a disponibilização pública
e a análise consequente destes dados, qualquer nova intervenção pode agravar a erosão
costeira, a destruição de pradarias marinhas e impactar espécies de ictiofauna ameaçadas,
além de comprometer a atividade da pesca e a biodiversidade do estuário. Tudo isto é
particularmente importante tendo em conta que está iminente a atribuição de um novo Título
de Utilização Privativa do Espaço Marítimo (TUPEM) para novas dragage ns (previstas para
janeiro de 2026).
Outras preocupações prendem -se com a potencial construção de uma central
dessalinizadora na região e a construção de um projeto imobiliário numa zona protegida da
Rede Natura 2000, algo a que a sociedade civil também tem estado atenta 9,10,11. De facto, a
crescente construção na península de Tróia, impulsionada por investimentos avultados em
5 Planting hope - How seagrass can tackle climate change | WWF
6 Convenção marinha regional para a proteção do meio marinho do Atlântico Nordeste, assinada em 1992. (OSPAR
Commission)
7 OSPAR commits to reducing marine litter and protecting vulnerable species and habitats in the North -East Atlantic | OSPAR
Commission
8 Sado: Falhas na monitorização das dragagens | Expresso
9 Água e urbanização de Troia preocupam ambientalistas | Expresso
10 "Na Praia": o resort de luxo da filha do fundador da Zara, em Tróia, contestado por oito organizações de ambiente | CNN
Portugal
11 Grândola quer acomodar duas vezes mais camas turísticas do que o número da população residente atual | Expresso
hotéis e empreendimentos residenciais, tem colocado em risco a integridade dos
ecossistemas dunares12,13,14.
Qualquer intervenção num ecossistema tão sensível gera impactos que acabam por ser
agravados pelo efeito das alterações climáticas - que aumentam a frequência de fenómenos
extremos - e pela insuficiente fiscalização e implementação de medidas de conservaçã o.
Também por isso, as intervenções têm de ser suportadas por dados científicos e sócio -
económicos que atestem a sua absoluta necessidade. A realidade é que o estuário do Sado
e a península de Tróia formam um sistema com uma fortíssima conexão ecológica, o nde os
processos naturais se influenciam mutuamente, tornando impossível dissociar os impactos
ambientais de um e do outro.
O Regulamento do Restauro da Natureza (Regulamento (UE) 2024/1991 do Parlamento
Europeu e do Conselho de 24 de junho de 2024) estabelece metas vinculativas para a
recuperação dos ecossistemas degradados da União Europeia, incluindo habitats dunares,
com cerca de 70% dos sistemas dunares a terem desaparecido na Europa no último século15.
Os habitats rochosos e dunares, particularmente as dunas costeiras e interiores, são um dos
seis grupos prioritários, estabelecendo-se o objetivo de restauro em 30% até 2030.
Foi em reconhecimento da importância destes ecossistemas que aquando da criação da
RNES em 1980, foi simultaneamente criada a Reserva Botânica das Dunas de Tróia.
Não se sabendo quando entrará em vigor o Plano Nacional de Restauro da Natureza,
obrigação imposta pelo Regulamento do Restauro da Natureza, importa, ainda em 2025,
planear ações e intervencionar alguns ecossistemas críticos e prioritários, com destaque para
os dunares e para as pradarias marinhas.
Mais do que identificar necessidades, impõe-se que o Governo seja ambicioso em matéria de
restauro, promovendo, nomeadamente a elaboração de planos locais e regionais de ação e
restauro destes ecossistemas (ainda que estes venham a ser integrados no Plano Nacional
de Restauro da Natureza). Tal está inclusivamente espelhado no considerando 37 do
Regulamento, segundo o qual “é igualmente importante que os Estados-Membros procurem
envidar esforços com o objetivo de prevenir a deterioração significativa das áre as cobertas
por esses tipos de habitats que já se encontram em bom estado ou que não se encontram
em bom estado, mas ainda não estão sujeitas a medidas de restauro”.
O património natural da península de Tróia já está ameaçado, sobretudo pelo crescimento
urbanístico e turístico, e a população tem sido muito vocal na sua defesa. É importante e
urgente preservá-lo, prevenir danos adicionais e iniciar ações de restauro prioritárias.
Assim, ao abrigo das disposições constitucionais e regimentais aplicáveis, o Grupo
Parlamentar do LIVRE propõe à Assembleia da República que , através do presente
12 Sonae Capital avança com projeto na zona mais sensível de Troia | Jornal de Negócios
13 Costa entre Troia e Sines: a "nova Ibiza", os "novos Hamptons", a "Saint-tropez do Atlântico" | SIC Notícias
14 Mais um projecto turístico com 600 camas vai ser construído no cordão dunar de Tróia | Público
15 Using dune-restricted species to assess the degree of natural diversity of dune systems on Mediterranean tourist coasts
Projeto de Resolução, delibere recomendar ao Governo que:
1. Promova a proteção efetiva das áreas dunares e zonas húmidas ainda não edificadas
da Península de Tróia, designadamente estudando a sua integração na Reserva
Natural do Estuário do Sado.
2. Instrua o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas, a Agência Portuguesa
do Ambiente e o Parque Natural do Estuário do Sado para que definam e
implementem, com urgência, medidas prioritárias de intervenção e restauro nos
ecossistemas dunares da península de Tróia e nas pradarias marinhas do estuário do
Sado, dotando-os da verba necessária para o efeito.
3. Aprove com urgência o Plano Nacional de Restauro da Natureza, bem como todas as
medidas interinas necessárias para prevenir a deterioração e proteger habitats
sensíveis prioritários, nos termos do Regulamento (UE) 2024/1991 do Parlamento
Europeu e do Conse lho de 24 de junho de 2024 (Regulamento do Restauro da
Natureza).
Assembleia da República, 24 de junho de 2025
As Deputadas e os Deputados do LIVRE
Isabel Mendes Lopes Filipa Pinto
Jorge Pinto Patrícia Gonçalves
Paulo Muacho Rui Tavares
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