Documento integral
Projeto de Resolução n.º 474/XVII/1.ª
Recomenda ao Governo que reconheça a ilegitimidade do regime venezuelano e
apoie a transição democrática no país
A situação política, institucional, económica e humanitária na República Bolivariana da
Venezuela constitui uma das mais graves crises prolongadas no espaço latino-americano
contemporâneo. Ao longo dos últimos 27 anos, o país conheceu um processo contínuo
de erosão do Estado de direito, de captura das instituições por um regime autoritário e
de supressão progressiva das liberdades fundamentais, com impacto direto e
devastador na vida de milhões de cidadãos.
O regime liderado por Nicolás Maduro, sucessor político de Hugo Chávez, consolidou-se
através da manipulação sistemática de processos eleitorais, da instrumentalização do
sistema judicial, do controlo de meios de produção e de órgãos de comunicação social,
da repressão violenta da oposição política, da neutralização dos mecanismos de
separação de poderes e da condenação da população à pobreza. Diversos relatórios de
organizações internacionais independentes, incluindo das Nações Unidas,
documentaram de forma reiterada detenções arbitrárias, tortura, execuções
extrajudiciais, desaparecimentos forçados e perseguição política generalizada.
As eleições presidenciais realizadas em 2024 agravaram esta crise de legitimidade. O
processo eleitoral decorreu num contexto marcado pela exclusão de candidatos, pelo
controlo governamental das autoridades eleitorais, pela repressão de campanhas
oposicionistas e pela ausência de garantias mínimas de transparência. Observadores
independentes e múltiplos atores internacionais consideraram que o processo não
reuniu condições para ser qualificado como livre, justo e democrático.
Neste contexto, Edmundo González Urrutia emergiu como a figura sufragada por uma
maioria clara dos venezuelanos que participaram no processo eleitoral, representando
uma alternativa democrática ao regime instalado, enquanto Maria Corina Machado se
afirmou como a principal referência moral e política da oposição democrática, após anos
de resistência cívica à repressão e ao autoritarismo. A recusa do regime em reconhecer
qualquer forma de alternância política aprofundou a ruptura do contrato democrático
entre o Estado e os cidadãos.
Paralelamente, a Venezuela enfrenta uma crise humanitária de grandes proporções.
Milhões de venezuelanos foram forçados a abandonar o país, criando uma das maiores
crises migratórias do mundo, com impactos profundos nos países da região e nas
comunidades de acolhimento. Mais de 90% da população vive em situação de pobreza,
o acesso a cuidados de saúde e alimentação é severamente limitado, e infraestruturas
essenciais colapsaram em vastas zonas do território.
A repressão política permanece um elemento central do regime. Centenas de presos
políticos continuam detidos, muitos em condições desumanas, incluindo cidadãos com
dupla nacionalidade, entre os quais portugueses ou luso-descendentes, situação que
confere a Portugal uma responsabilidade acrescida no acompanhamento e denúncia
destas violações.
Os acontecimentos ocorridos no final de 2025 e início de 2026, culminando numa
operação militar dos Estados Unidos da América em território venezuelano e na captura
de Nicolás Maduro para responder a acusações criminais nos Estados Unidos,
introduziram um novo e relevante elemento no contexto da crise venezuelana. Estes
desenvolvimentos alteraram de forma significativa o quadro político interno e
internacional, acelerando o debate sobre a transição de poder, a responsabilidade
criminal individual dos dirigentes do regime e o futuro institucional do país.
Em paralelo, estes acontecimentos evidenciaram as limitações dos mecanismos
multilaterais tradicionais na resposta a crises prolongadas de natureza autoritária.
Durante anos, as organizações internacionais e os principais fóruns diplomáticos
revelaram-se incapazes de travar a degradação institucional da Venezuela ou de
promover uma transição democrática eficaz. A União Europeia, apesar de sucessivas
posições políticas e iniciativas diplomáticas, teve um papel essencialmente declarativo,
com reduzida capacidade de influência sobre a evolução da situação no terreno.
A análise da situação venezuelana deve ser feita com rigor e distinção face a outros
conflitos internacionais. A Venezuela não corresponde a um caso de agressão externa
contra um Estado democrático, mas sim a um país governado por um regime que
usurpou o poder, viciou processos eleitorais, eliminou a alternância política e reprimiu
de forma sistemática o seu próprio povo, pela violência e pela condenação à miséria. A
centralidade da legitimidade democrática, expressa através do voto e do respeito pelas
liberdades fundamentais, deve permanecer o critério essencial para avaliar os
desenvolvimentos políticos no país e as soluções que se projetam para o seu futuro.
O futuro da Venezuela deve, por isso, assentar numa transição democrática genuína,
conduzida por lideranças legitimadas pelo voto e pela vontade popular expressa nas
eleições de 2024. Nesse contexto, Edmundo González Urrutia deve ser essencial por ter
sido o candidato sufragado pela maioria dos venezuelanos, enquanto Maria Corina
Machado se afirmou como a principal líder do movimento democrático e da resistência
cívica ao regime autoritário. Essa transição deve ser acompanhada pela libertação
imediata de todos os presos políticos, pela restauração das liberdades fundamentais e
pela criação de condições para a realização de eleições livres, justas e transparentes,
supervisionadas por observadores internacionais credíveis. Qualquer solução que ignore
esta legitimidade democrática ou que substitua uma tutela autoritária interna por uma
tutela externa carecerá de legitimidade política e moral.
Portugal, quer pela presença de uma relevante comunidade portuguesa na Venezuela,
e enquanto Estado democrático, membro da União Europeia e defensor histórico dos
direitos humanos, não pode manter uma posição ambígua ou passiva perante estes
desenvolvimentos. A clareza política, a coerência de princípios e a defesa da
legitimidade democrática devem orientar a ação externa do Estado português.
Resolução
Assim, ao abrigo das disposições constitucionais e regimentais aplicáveis, o Grupo
Parlamentar da Iniciativa Liberal propõe que a Assembleia da República recomende
ao Governo que:
1. Afirme de forma clara e inequívoca que a resolução da crise venezuelana deve
assentar numa transição democrática liderada por representantes legitimados
pela vontade popular expressa nas eleições de 2024.
2. Condene as violações sistemáticas e continuadas dos direitos humanos
praticadas pelo regime venezuelano, incluindo detenções arbitrárias,
repressão política, tortura e perseguição da oposição democrática.
3. Defenda, nos fóruns europeus e internacionais, a libertação imediata e
incondicional de todos os presos políticos na Venezuela.
4. Promova, no quadro da União Europeia e das organizações multilaterais
relevantes, uma posição concertada que reconheça a ilegitimidade do regime
de Nicolás Maduro e apoie uma transição política pacífica e democrática.
5. Apoie a realização de eleições livres, justas e transparentes na Venezuela, com
observação internacional independente e garantias efetivas de pluralismo
político.
6. Reforce o acompanhamento diplomático e consular da situação dos cidadãos
portugueses e luso-descendentes na Venezuela, assegurando a defesa dos seus
direitos e da sua segurança.
7. Atue diplomaticamente no sentido de evitar uma escalada regional do conflito
e de promover uma solução política sustentável que respeite a soberania do
povo venezuelano.
Palácio de São Bento, 6 de janeiro de 2026
Os Deputados da Iniciativa Liberal,
Rodrigo Saraiva
Angélique Da Teresa
Carlos Guimarães Pinto
Joana Cordeiro
Jorge Miguel Teixeira
Mariana Leitão
Mário Amorim Lopes
Miguel Rangel
Rui Rocha
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