Documento integral
Projeto de Resolução n.º 89/XVII/1.ª
Recomenda a suspensão das dragagens no estuário do Sado até à avaliação e
cumprimento das medidas previstas na Declaração de Impacte Ambiental
Exposição de Motivos
O estuário do Sado constitui uma das zonas húmidas mais relevantes de Portugal e da Europa,
integrando habitats classificados como prioritários pela Diretiva Habitats e albergando
espécies com estatuto de conservação desfavorável, como a planta Zostera marina, incluída
na Lista Vermelha da Flora Vascular de Portugal Continental (classificada como Vulnerável) e
na Lista OSPAR de espécies ameaçadas.
O projeto de “Melhoria da Acessibilidade Marítima ao Porto de Setúbal”, promovido pela
Administração dos Portos de Setúbal e Sesimbra (APSS), implicou, entre 2019 e 2020, um
conjunto de dragagens de grande dimensão no estuário do Sado. Estas obras foram
autorizadas pela Agência Portuguesa do Ambiente (APA) mediante uma Declaração de
Impacte Ambiental (DIA), aprovada em 2017, que estabeleceu diversas medidas de mitigação,
monitorização e compensação ambiental, face aos impactos reconhecidamente significativos
nas praias da Arrábida, nos bancos de bivalves e nos habitats de ervas marinhas, entre outros.
Todavia, em 20 25, regressa à possibilidade de novas dragagens no Sado, previstas para o
biénio 2025 -2026, submetidas a nova Consulta Pública para emissão de um Título de
Utilização Privativa do Espaço Marítimo (TUPEM). Esta nova proposta contempla a remoção
de até 2 mil hões de metros cúbicos de sedimentos nos canais de navegação e a respetiva
submersão na zona da restinga de Tróia.
De acordo com um comunicado conjunto divulgado a 16 de junho de 2025 pelas organizações
ZERO – Associação Sistema Terrestre Sustentável 1, Clube da Arrábida, Ocean Alive e Dunas
Livres, estas dragagens levantam sérias dúvidas quanto ao cumprimento da DIA de 2017, uma
1 ZERO - Associação Sistema Terrestre Sustentável
vez que os resultados das medidas de monitorização e compensação obrigatórias nunca
foram disponibilizados publicamente, nem foram incluídos no atual processo de Consulta
Pública.
Segundo esse comunicado, continuam por apresentar estudos exigidos na DIA sobre geologia
costeira, dinâmica sedimentar, alterações na linha de costa e impactos ecológicos em praias
sensíveis como Galapinhos, Figueirinha, Alpertuche ou Portinho da Arrábida, bem como sobre
o recuo dos sapais do Sado, cuja área foi já reduzida em cerca de 50% entre 1958 e 2010.
Além disso, os estudos existentes apontam para efeitos adversos da pluma de dragagem
sobre pradarias marinhas e sobre espécies vulneráveis de ictiofauna2.
Segundo as organizações, a ausência de justificação técnica atualizada e a inexistência de
novos estudos multidisciplinares comprometem o cumprimento do princípio da precaução
ambiental e colocam em risco o equilíbrio ecológico do estuário.
A ausência desta informação impede uma avaliação séria das intervenções, dos seus impactos
acumulados e do estado atual do ecossistema. Sem o cumprimento e divulgação dessas
medidas, qualquer nova autorização comprome te os princípios da legalidade, além de
contrariar o direito da sociedade civil ao acesso à informação ambiental e à participação
informada em processos de decisão.
Os estudos previstos pela DIA incluíam, entre outros, a caracterização geológica e sedimentar
das praias adjacentes ao estuário (Tróia, Figueirinha, Galápos, Galapinhos, Portinho da
Arrábida), a monitorização da morfologia costeira e da evolução da linha de costa, a avaliação
das alterações ecológicas no sistema entre outras medidas, sendo que n ada disto é
apresentado ou referido na nova proposta.
A documentação disponibilizada pela APSS admite, inclusive, que existem alterações
geomorfológicas recentes preocupantes, como o visível desassoreamento das praias da
Arrábida, o assoreamento do Cambalh ão, a erosão da Ponta de Tróia e a evolução negativa
2 Dragagens podem voltar ao Sado. Associações contestam consulta pública | Setúbal | PÚBLICO
do sapal do estuário, que perdeu quase metade da sua área entre 1958 e 2010. Ainda assim,
insiste-se em utilizar como destino final dos dragados uma área, concretamente a restinga de
Tróia, que não apres enta défice sedimentar, desconsiderando a possibilidade de usar esses
materiais para reabilitar zonas costeiras com erosão, conforme preconizado na própria DIA.
Acresce que a nova proposta estende as dragagens a zonas interiores do estuário não
abrangidas na DIA de 2017, sem apresentar qualquer enquadramento legal ou nova avaliação
ambiental. Esta extensão geográfica levanta dúvidas sobre a legalidade do procedimento e
sobre a compatibilidade da intervenção com o quadro regulamentar vigente.
De igual modo, a deposição dos dragados na restinga de Tróia poderá afetar diversas espécies
de ictiofauna com estatuto de conservação vulnerável ou ameaçado, como as raias Raja
clavata, Raja undulata, Dasyatis pastinaca e Myliobatis aquila, bem como o tubarão Mustelus
mustelus3.
Finalmente, permanece por conhecer a verdadeira dimensão dos alegados benefícios
económicos que sustentaram a aprovação do projeto inicial. Não foram apresentados, até à
data, dados sobre a evolução do tráfego portuário e dos impactos positivos líquidos da obra
de melhoria da acessibilidade marítima, o que enfraquece a fundamentação económica para
a realização de novas dragagens.
À luz do exposto, impõe -se que as entidades competentes interrompam o atual processo,
promovam a divulgação pública dos estudos e avaliações obrigatórias, e ponderem a revisão
de toda a estratégia de dragagens e deposição de sedimentos no estuário do Sado,
respeitando os princípios da sustentabilidade ambiental, da precaução e do direito à
informação e participação dos cidadãos.
Nestes termos, a abaixo assinada Deputada Única do PESSOAS -ANIMAIS-NATUREZA, ao
abrigo das disposições constitucionais e regimentais aplicáveis, propõe que a Assembleia
da República recomende ao Governo que:
3 ZERO - Associação Sistema Terrestre Sustentável
1 - Suspenda o atual procedimento de atribuição do Título de Utilização Privativa do
Espaço Marítimo (TUPEM) relativo à submersão de dragados no estuário do Sado,
promovido pela Administração dos Portos de Setúbal e Sesimbra (APSS), até que
sejam tornados públicos os resultados das medidas de m onitorização e
compensação previstas na Declaração de Impacte Ambiental emitida em 2017;
2 - Assegure, através da Agência Portuguesa do Ambiente e demais entidades
competentes, a verificação rigorosa do cumprimento das condições impostas na
referida Declaração de Impacte Ambiental;
3 - Garanta que qualquer nova proposta de dragagem ou deposição de sedimentos
no estuário do Sado seja antecedida de uma Avaliação de Impacte Ambiental
atualizada e específica, incluindo o impacto cumulativo das dragagens anterio res e
a inclusão obrigatória da participação pública informada, com adequada divulgação;
4 - Promova a realização de um estudo independente e multidisciplinar sobre o
estado atual do estuário do Sado.
Assembleia da República, Palácio de São Bento, 27 de junho de 2025
A Deputada,
Inês de Sousa Real
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