Documento integral
Projeto de Resolução n.º 804/XVII/1.ª
Recomenda ao Governo o reforço da proteção e acompanhamento
da comunidade portuguesa na Venezuela
A Venezuela atravessa uma crise profunda, com consequências severas nas dimensões social,
económica e política, que configuram um quadro de emergência humanitária já reconhecido pelas
Nações Unidas1. Neste contexto, a situação da comunidade portuguesa residente naquele país merece
atenção prioritária, já que se trata da segunda maior comunidade portuguesa na Améric a Latina, com
mais de 200 mil cidadãos inscritos nos consulados de Caracas e de Valência 2. A incerteza e a
insegurança que afetam a população venezuelana, atingem igualmente as cidadãs e os cidadãos aí
residentes, tornando indispensável uma resposta coorde nada, reforçada e eficaz por parte das redes
diplomáticas e consulares do Estado Português.
Os atropelos democráticos, os elevados níveis de inflação, que em 2025 ultrapassaram os 400% 3, a
escassez generalizada de bens essenciais, nomeadamente alimentos e medicamentos, bem como as
falhas recorrentes no acesso a serviços básicos como eletricidade e água, colocam milhares de
famílias numa situação extremamente vulnerável. A degradação das infraestruturas e o acesso limitado
a cuidados de saúde agravam ainda mais este cenário, afetando diretamente cidadãos portugueses
que possam enfrentar dificuldades acrescidas no acesso a apoio institucional e diplomático.
Neste contexto, importa reconhecer o agravamento da situação, nomeadamente no que respeita à
detenção d e, pelo menos, quatro cidadãos portugueses e luso -venezuelanos4, que suscitam
preocupação quanto à salvaguarda dos seus direitos fundamentais. Os esforços diplomáticos do
Estado português, bem como a disponibilidade manifestada pelas autoridades venezuelan as para
acompanhar estes casos, são relevantes, mas evidenciam simultaneamente a necessidade de uma
resposta mais estruturada e robusta por parte da rede consular portuguesa.
1 Chefe de direitos humanos alerta para agravamento da situação na Venezuela | ONU News
2 Comunidade Portuguesa - Embaixada de Portugal na Venezuela
3 https://www.rtp.pt/noticias/economia/venezuela-projecoes-apontam-subida-de-475-da-inflacao-em-2025_n1724261
4 https://observador.pt/2026/03/23/ministro-dos-negocios-estrangeiros-venezuelano-disponivel-para-acompanhar-questao-dos-
detidos-portugueses/
Para além da resposta imediata, a experiência de outros Estados-Membros da União Europeia
demonstra que é possível ir mais longe na proteção das comunidades nacionais em países em crise.
A França, por exemplo, opera a plataforma Ariane, que envia alertas de segurança em tempo real por
correio eletrónico ou SMS a cidadãos registados em qualquer país do mundo, com notificação
simultânea de familiar designado em França, garantindo canais de alerta precoce e comunicação
permanente mesmo em situações de elevada perturbação das infraestruturas locais 5. A Irlanda, por
sua vez, mantém o Emigrant Support Programme (ESP), que em 2026/27 atingiu a sua dotação mais
elevada de sempre (17,5 milhões de euros), distribuídos por mais de 500 organizações em 51 países,
para financiar serviços de assistência jurídica, aconselhamento em saúde mental, acesso à habitação
e mecanismos de emergência para comunidades emigrantes em situação de vulnerabilidade aguda 6.
Estas abordagens, assentes no binómio tecnologia-subsidiariedade, permitem ao Estado estender a
sua capacidade de proteção através das redes associativas da própria diáspora, multiplicando o
alcance da ação consular.
Apesar de Portugal dispor de instrumentos como o Consulado Virtual e o Registo Viajante, estes foram
concebidos, sobretudo, para viajantes temporários, pelo que não constituem um sistema estruturado
de alerta de crise e acompanhamento continuado para residentes permanentes em países de risco.
Do mesmo modo, o apoio à comunidade na Venezuela tem sido maioritariamente direto e institucional,
sem mobilizar de forma sistemática as associações e redes da diáspora portuguesa como parceiras
na prestação de apoio social de proximidade.
Torna-se, assim, imperativo não só reforçar a presença consular no terreno e agilizar respostas, mas
também modernizar os instrumentos de proteção, adaptando-os, designadamente, à especificidade da
situação venezuelana. Neste contexto, entende o LIVRE que Portugal, enquanto Estado-Membro da
União Europeia e país historicamente ligado à Venezuela, tem a responsabilidade de assegurar um
acompanhamento próximo e contínuo da comunidade portuguesa, mobilizando todos os instrumentos
necessários para garantir a sua proteção e segurança face à grave situação que o país atravessa.
Assim, ao abrigo das disposições constitucionais e regimentais aplicáveis, o Grupo
Parlamentar do LIVRE propõe à Assembleia da República que, através do presente
Projeto de Resolução, delibere recomendar ao Governo que:
1. Reforce a presença e capacidade de resposta da rede consular portuguesa na Venezuela,
assegurando meios humanos, técnicos e financeiros adequados à proteção e
acompanhamento da comunidade portuguesa residente.
2. Desenvolva uma estratégia integrada de apoio aos cidadãos portugueses na Venezuela,
incluindo mecanismos de resposta a situações de vulnerabilidade, acesso a bens essenciais
e canais permanentes e eficazes de comunicação com a comunidade.
5 Fil d'ariane
6 Minister Richmond launches 2026/2027 Emigrant Support Programme
3. Acompanhe de forma prioritária a situação dos cidadãos portugueses e luso-venezuelanos
detidos, garantindo a salvaguarda dos seus direitos fundamentais e o pleno apoio diplomático.
4. Crie um sistema de alertas de segurança em tempo real, por via eletrónica e SMS, dirigido à
comunidade portuguesa registada na Venezuela, que permita a comunicação imediata em
situações de emergência, risco para a segurança ou alteração das condições de acesso a
serviços essenciais, com a possibilidade de designação de familiar residente em Portugal
como contacto de emergência.
5. Estabeleça uma linha de financiamento dedicada a associações e organizações da
comunidade portuguesa na Venezuela, para apoio à prestação de serviços de proximidade em
áreas como assistência social, saúde mental, apoio jurídico e acesso a bens de primeira
necessidade, mobilizando a rede associativa existente como parceira ativa do Estado
português na proteção da comunidade.
Assembleia da República, 31 de março de 2026
As Deputadas e os Deputados do LIVRE
Paulo Muacho Filipa Pinto
Jorge Pinto Patrícia Gonçalves
Tomás Cardoso
Pereira
Rui Tavares
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