Documento integral
Projeto de Resolução n.º 578/XVII/1.ª
Recomenda a implementação de medidas de recuperação e
restauro florestal na região centro após as tempestades de janeiro
e fevereiro de 2026
Exposição de motivos:
Entre janeiro e fevereiro de 2026, a região centro de Portugal foi atingida por uma sucessão
de depressões, em particular as tempestades Kristin e Leonardo, que trouxeram ventos muito
fortes, precipitação intensa e episódios de muita instabilidade atmosfér ica1,2,3. Estes
fenómenos concentraram-se sobretudo nos distritos de Leiria e Coimbra, onde se registaram
centenas de ocorrências relacionadas com queda de árvores, danos em infraestruturas e
cortes de energia4, refletindo a severidade das condições meteorológicas. A intensidade e a
frequência destes eventos inscreve se num contexto mais amplo de aumento da
vulnerabilidade do território a fenómenos extremos associados às alterações climáticas.
Importa, por isso, reconhecer a gravidade dos impactos ocorridos e atuar de forma célere e
estruturada, articulando medidas de emergência com ações de restauro e de adaptação aos
fenómenos climáticos extremos. Com efeito, a situação não exige somente a reparação e
apoio para resolução imediata dos danos, mas também a garantia de políticas públicas e de
modelos de gestão do território que reduzam a exposição a riscos futuros, reforcem a
resiliência das comunidades e promovam uma proteção maior dos ecossistemas florestais.
Nas áreas florestais de Leiria e Coimbra, concret amente, o impacto foi particularmente
expressivo, com muitas freguesias a relatarem avultados estragos em povoamentos
florestais, incluindo a queda e quebra de centenas de árvores e a destruição de extensas
manchas florestais, de que a Mata Nacional de Leiria é, infelizmente, exemplo.
Uma perda súbita de coberto arbóreo como esta desestrutura os ecossistemas, aumenta a
exposição do solo à erosão e compromete funções essenciais como a proteção contra cheias
rápidas e a conservação da biodiversidade, para al ém de efeitos económicos e sociais. Em
simultâneo, a acumulação de árvores derrubadas e material lenhoso no terreno cria uma
carga de combustível contínua, com implicações diretas na gestão do risco de incêndio de
1 Proteção Civil alerta para chuva intensa e ventos fortes com depressão Marta| TSF
2 Ventos destrutivos recorde de 209 km/h por alguns minutos | Observador
3 "Depressão secundária" agrava depressão Joseph: sobe para seis os distritos sob aviso vermelho devido a ventos de mais
de 100 km/h | CNN Portugal
4 Árvores caídas e semáforos avariados: os efeitos da depressão Kristin em Lisboa| Jornal de Notícias
que Portugal também sofre severamente todos os anos. A realidade é que, no médio prazo,
a combinação entre grandes volumes de biomassa depositada no solo, povoamentos
danificados e stress ecológico acrescido traduz se num aumento significativo do risco
fitossanitário e da perigosidade de incêndios florestais.
Além disso, grandes volumes de madeira danificada e caída favorecem a proliferação de
pragas e doenças, debilitando ainda mais as árvores restantes e dificultando a regeneração
dos povoamentos. Todos estes fatores tornam mais urgente a tomada de decisões e ação
para remover e tratar o material lenhoso danificado e implementar medidas de recuperação
e restauro que reforcem a resiliência dos ecossistemas. Mais: se não forem adotadas
medidas rápidas de remoção, tratamento e gestão deste material, o território poderá entrar
na época de maior risco de fogos e uma floresta mais vulnerável a novos eventos extremos.
Tendo isto em conta, torna se essencial avançar desde já com um conjunto de medidas
concretas, a implementar nos horizontes de curto e médio prazos, que permitam controlar os
riscos imediatos, preparar o restauro das áreas afetadas e orientar a gestão florestal para
modelos mais robustos e adaptados a eventos extremos.
As primeiras ações devem concentrar-se na gestão segura e eficiente do material lenhoso
danificado, de forma a garantir a proteção de pessoas e infraestruturas. Para isso, é
fundamental realizar o corte e a remoção das árvores tombadas, fraturadas ou
estruturalmente instáveis, com prioridade para as zonas contíguas a vias de circulação,
aglomerados populacionais e infraestruturas críticas, onde o risco de queda e obstrução é
mais elevado. Em paralelo, a criação de parques e estaleiros temporários para deposição e
organização da madeira permite assegurar boas condições de acessibilidade, segurança e
controlo fitossanitário, facilitando as operações no terreno. Nestes locais, o levantamento
sistemático do material lenhoso, incluindo a quantificação e estimativa dos volumes
disponíveis, deve ser articulado com a sua monitorização, conservação e valorização
económica, promovendo a venda e o aproveitamento económico sempre que possível.
Numa segunda etapa, torna-se essencial aprofundar o conhecimento técnico sobre o estado
das áreas afetadas, de forma a orientar, de modo adequado, as opções de restauro e
reconversão florestal. A realização de uma avaliação técnica abrangente deve caracterizar
detalhadamente as condições biofísicas e ecológicas do terreno, contemplando o estado dos
solos, a situação ecológica dos ecossistemas, a vitalidade da vegetação remanescente e a
capacidade de resposta e regeneração natural das espécies presentes. Com base nesta
informação, é importante proceder a uma análise da resposta natural dos ecossistemas,
identificando onde a regeneração espontânea é suficiente e onde é necessária intervenção
ativa (por exemplo: plantação, controlo de invasoras ou reforço de espécies autóctones). Por
fim, é fundamental uma análise aprofundada das possibilidades de reconversão florestal
avaliando aspetos ecológicos, económicos e sociais, permitindo definir soluções que tornem
os povoamentos mais resilientes, diversificados e adaptados a futuros eventos climáticos
extremos.
Assim, ao abrigo das disposições constitucionais e regimentais aplicáveis, o Grupo
Parlamentar do LIVRE propõe à Assembleia da República que, através do presente
Projeto de Resolução, delibere recomendar ao Governo que:
1. Realize o corte e a remoção das árvores danificadas, incluindo exemplares tombados,
fraturados ou estruturalmente instáveis, dando prioridade às zonas próximas de vias
de circulação, aglomerados populacionais e infraestruturas críticas;
2. Proceda à criação de parques e estaleiros temporários, para deposição e organização
do material lenhoso, assegurando condições de acessibilidade, segurança e controlo
fitossanitário;
3. Efetue o levantamento do material lenhoso resultante dos danos, incluindo a
quantificação e estimativa dos volumes disponíveis, assegurando simultaneamente a
sua monitorização, conservação e valorização económica através da venda e, sempre
que possível, aproveitamento económico;
4. Realize uma avaliação técnica abrangente das áreas afetadas após a tempestade, de
forma a caracterizar de forma detalhada as condições biofísicas e ecológicas do
terreno, que inclua a análise do estado dos solos, da situação ecológica geral dos
ecossistemas e da vitalidade da vegetação remanescente, assim como a identificação
da capacidade de resposta e regeneração natural das espécies presentes;
5. Proceda a uma análise detalhada da resposta natural dos ecossistemas nas áreas
afetadas, avaliando a capacidade de regeneração espontânea das espécies vegetais
e a recuperação funcional dos habitats e dos locais que necessitam de intervenção
ativa;
6. Proceda a uma análise aprofundada das possibilidades de reconversão florestal nas
áreas afetadas, definindo um modo de ocupação e gestão que promova a resiliência,
reduzindo a vulnerabilidade a eventos climáticos extremos.
Assembleia da República, 12 de fevereiro de 2026
As Deputadas e os Deputados do LIVRE
Isabel Mendes Lopes Filipa Pinto
Jorge Pinto Patrícia Gonçalves
Paulo Muacho Rui Tavares
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