Documento integral
Projeto de Resolução n.º 770/XVII/1.ª
Por um cessar-fogo imediato no Líbano e proteção da população civil
Exposição de motivos:
A 1 de outubro de 2024, Israel invadiu o Líbano após meses de conflito com o grupo terrorista
pró-iraniano Hezbollah, que proclamou o seu apoio ao Hamas após os ataques de 7 de
outubro de 2023 contra Israel. Os ataques desproporcionais e em total violação da soberania
do estado libanês causaram mais de 2700 civis mortos, com milhares de libaneses a serem
forçados a abandonar as suas casas e vilas, e avultados prejuízos materiais resultantes da
destruição de infraestruturas essenciais. O cessar-fogo assinado a 27 de novembro de 2024
foi violado reiteradamente várias vezes, com repetidos ataques entre o Estado de Israel e o
Hezbollah1.
Desde então, a partir de 2 de março de 2026, iniciou -se uma nova guerra de Israel contra o
Líbano, onde os ataques orquestrados pelos Estados Unidos da América e Israel contra o
Irão conduziram a uma nova escalada de conflito com o Hezbollah, com graves
consequências humanitárias para a população libanesa. Desde o início das agressões, o
governo libanês tem reiterado que as ações militares do Hezbollah violam a soberania do
país e interesse nacional, condenando as suas operações de ataque a Israel, apelando ao
desarmamento do grupo e ao cessar de todas as hostilidades2.
O número de vítimas não pára de aumentar, ultrapassando já mais de 1000 vítimas mortais,
incluindo crianças, mulheres e profissionais de saúde e e milhares de feridos, segundo dados
1https://www.rtp.pt/noticias/mundo/israel-acusado-de-violar-cessar-fogo-no-libano-mais-de-50-vezes_v1618864
2 https://expresso.pt/medio-oriente/conflito/2026-03-03-exercito-israelita-ameaca-atacar-hezbollah-ate-desarmamento-
completo-do-grupo-6aef2a22
oficiais do Ministério da Saúde Pública libanês e de agências das Nações Unidas 3. Os
bombardeamentos em áreas densamente povoadas têm degradado as condições de vida e
limitado o acesso a bens e serviços essenciais, como água potável, alimentação, eletricidade
e cuidados de saúde, tornando a dimensão da crise humanitária particularmente preocupante.
Estima-se que mais de um milhão de pessoas tenham sido deslocadas internamente num
curto espaço de tempo, correspondendo a uma parte significativa da população libanesa,
muitas das quais vivem agora em condições extremamente precárias, sem acesso básico e
adequado a cuidados de saúde ou alimentação. De acordo com as informações de
organizações internacionais, incluindo as Nações Unidas, há relatos de destruição de
habitações, centros de saúde e abrigos para pessoas deslocadas, bem como de at aques
indiscriminados e deliberados contra civis e infraestruturas protegidas pelo Direito
Internacional Humanitário. Declarações públicas de responsáveis israelitas colocam a
possibilidade de impedir o regresso de populações deslocadas às suas áreas de or igem, o
que pode configurar um crime de guerra4 e uma violação grave da Carta das Nações Unidas
e do Estatuto de Roma.
Perante o agravamento da crise, a União Europeia (UE) tem vindo a reforçar o seu apoio ao
Líbano, anunciando um novo pacote de 100 milhões de euros em ajuda humanitária de
emergência e procurando responder às necessidades das populações afetadas no quadro de
um apoio financeiro mais alargado, de 1000 milhões de euros para o período 2024 -2027,
centrado no acesso a serviços básicos como saúde, alimentação e educação5.
Ademais, alguns ministros israelitas têm apelado publicamente à anexação de partes do sul
do Líbano e defendido a redefinição unilateral de novas fronteiras entre o Líbano e Israel. 6
Estas declarações e qualquer tentativa de anexação devem ser veementemente condenadas:
são ações que constituem uma clara agressão à integridade territorial do Líbano e uma
violação flagrante dos princípios fundamentais consagrados na Carta das Nações Un idas.
Não só abrem um precedente extremamente perigoso que ameaça a estabilidade na região,
como contribuem para uma escalada devastadora e para o enfraquecimento do respeito pelo
Direito Internacional. O chefe humanitário das Nações Unidas, Tom Fletcher, advertiu que o
Líbano pode tornar -se a “próxima Gaza” se a violência persistir, sublinhando que prestar
ajuda humanitária no terreno se torna cada vez mais perigoso e denunciando que equipas e
infraestruturas de saúde têm sido atingidas pelos ataques.
3 NR nº1
4 Israel’s displacement of civilians in Lebanon is a possible war crime | Human Rights | Al Jazeera
5 https://ec.europa.eu/commission/presscorner/detail/en/fs_26_646
6 https://www.aljazeera.com/news/2026/3/23/smotrich-urges-israel-to-annex-southern-lebanon-as-assault-intensifies
Face a este cenário, a comunidade internacional tem apelado para um cessar-fogo imediato,
incluindo as autoridades libanesas, diversos parceiros europeus e altos responsáveis pelas
Nações Unidas, sublinhando a urgência de travar a escalada da violência e de criar condições
para uma solução política duradoura. O Presidente do Líbano reiterou a necessidade de um
cessar-fogo imediato e de garantias de acesso humanitário pleno, seguro e desimpedido às
populações afetadas em todo o território. A União Europeia tem igualmente reafirmado o seu
compromisso com a estabilidade do Líbano e a necessidade de proteger a população civil.
Portugal, enquanto Estado -Membro da UE e comprometido com a promoção da paz, o
multilateralismo e o respeito pelo Direito Internacional, não pode permanecer indiferente à
situação de crescente violência generalizada no Líbano e na região, nem à ameaça que esta
representa para a segurança europeia e internacional.
Assim, ao abrigo das disposições constitucionais e regimentais aplicáveis, o Grupo
Parlamentar do LIVRE propõe à Assembleia da República que, através do presente
Projeto de Resolução, delibere recomendar ao Governo que:
1. Promova, no quadro da União Europeia, das Nações Unidas e de outras instâncias
multilaterais, iniciativas diplomáticas que visem um cessar‑fogo imediato e duradouro
no Líbano e o pleno respeito pelas normas de Direito Internacional.
2. Condene veementemente a ofensiva militar lançada pelo governo de Israel contra o
Líbano, incluindo o uso desproporcionado da força em áreas civis densamente
povoadas, a destruição de infraestruturas essenciais à sobrevivência da população e
a deslocação forçada de civis em larga escala, em violação do Direito Internacional
Humanitário.
3. Condene veementemente as ações terroristas do Hezbollah, que, em violação da
soberania do Estado libanês e do Direito Internacional, contribuem para a escalada
de violência e instabilidade na região.
4. Apele ao acesso rápido, seguro e sem entraves à ajuda humanitária às populações
afetadas, incluindo através da criação de corredores humanitários e a proteção
específica de profissionais e infraestruturas de saúde, educação, comunicação e
assistência humanitária.
5. Expresse total solidariedade para com o povo libanês, reiterando o compromisso com
a paz, a segurança, a integridade territorial do Líbano e o respeito pelos Direitos
Humanos.
Assembleia da República, 30 de março de 2026
As Deputadas e os Deputados do LIVRE
Paulo Muacho Filipa Pinto
Jorge Pinto Patrícia Gonçalves
Rui Tavares Tomás Cardoso Pereira
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