Documento integral
Projeto de Resolução n.º 323/XVII/1.ª
Recomenda a adaptação das infraestruturas críticas de modo a garantir a sua
autonomia energética em eventos extremos
Exposição de motivos:
Uma infraestrutura crítica consiste numa instalação, equipamento, rede ou sistema cuja
perturbação do funcionamento ou destruição tem um efeito negativo significativo na
prestação de um serviço essencial para o funcionamento da sociedade. São exemplos de
infraestruturas críticas sistemas de distribuição de energia, água, transportes ou
telecomunicações. A interrupção ou destruição total ou parcial de um ou vários destes
sistemas pode ter consequências sérias, como a paralisação de serviços vitais com um
impacto económico significativo, podendo mesmo, em casos extremos, ameaçar a
segurança nacional e a vida e bem estar humanos.
Reconhecendo a União Europeia (UE) que, particularmente no contexto atual, garantir a
integridade e resiliência destes serviços é essencial, o Conselho Europeu adotou em junho
de 2025 uma recomendação 1 sobre um plano de ação para a coordenação da resposta a
nível da UE a perturbações em infraestruturas críticas com importante relevância
transfronteiriça2, cujo principal objetivo é reforçar a preparação e a resposta a incidentes
que possam afetar sistemas essenciais.
O plano propõe um conjunto de medidas, incluindo a partilha regular de informações, a
articulação com outros mecanismos da UE para a gestão de crises e emergências, a troca
de boas práticas em comunicação pública, a elaboração de relatórios detalhados sobre
incidentes e o fornecimento de apoio técnico, por parte de Estados-Membros ou instituições
da UE, aos países que sejam diretamente afetados.
Já em 2022 tinha sido adotada a Diretiva (UE) 2022/2557 do Parlamento Europeu e do
Conselho, de 14 de dezembro de 2022, relativa à resiliência das entidades críticas 3. Esta
Diretiva veio substituir a anterior que se focava na designação e proteção de infraestruturas
críticas europeias nos setores da energia e dos transportes, cujo impacto de uma falha seria
1 Recomendação do Conselho de 25 de junho de 2024 sobre um plano de ação para a coordenação da resposta a nível
da União a perturbações em infraestruturas críticas com importante relevância transfronteiriça
2 Infraestruturas críticas: plano de ação para proteger os cidadãos da UE e o mercado interno| Conselho da União Europeia
3 Diretiva (UE) 2022/2557 do Parlamento Europeu e do Conselho de 14 de dezembro de 2022 relativa à resiliência das
entidades críticas e que revoga a Diretiva 2008/114/CE do Conselho
significativo em pelo menos dois Estados-Membros. No entanto, após a sua avaliação em
2019, foi concluído que uma abordagem centrada num pequeno número de países era
insuficiente face à crescente interligação e dimensão transfronteiriça das operações. Assim,
tornou-se necessária uma nova estratégia, com regras mais claras e coerentes para definir
funções e obrigações das entidades críticas, reforçando a sua resiliência para prevenir,
resistir, responder e recuperar de incidentes.
Esta Diretiva foi transposta para o ordenamento jurídico interno apenas em 2025, através do
Decreto-Lei n.º 22/2025, de 19 de março, para que a proteção e resiliência destas
infraestruturas ficassem plasmadas na Lei como prioridades estratégicas, definindo que
estas “devem ser capazes de prevenir, proteger, reagir, gerir e recuperar de incidentes com
potencial para perturbar a prestação de serviços essenciais, sejam eles ataques híbridos,
catástrofes, ameaças terroristas ou emergências de saúde pública ”. O mesmo diploma
definiu que, por um lado, devem ser aprovadas a estratégia nacional para a resiliência das
entidades críticas e a avaliação nacional de risco até janeiro de 2026 e, por outro, devem
igualmente ser designadas as entidades críticas para os setores e subsetores identificados
no diploma até julho de 2026.
Pouco mais de um mês depois da sua publicação, a 28 de abril, um apagão afetou em larga
escala Portugal e Espanha durante cerca de 11 horas, e expôs de forma bastante evidente a
dependência e vulnerabilidade das infraestruturas críticas em Portugal. Durante várias horas,
milhões de pessoas, hospitais, escolas, sistemas de transporte, comunicações e empresas
ficaram sem eletricidade. Este evento demonstrou que, apesar das medidas de proteção já
existentes, as infraestruturas críticas continuam suscetíveis a falhas de grande escala e carecem
de reforço na sua resiliência, especialmente no que toca à autonomia energética e
à capacidade de resposta coordenada. O apagão pôs a nu a urgência de avançar para uma
nova abordagem que não se limite à proteção de ativos individuais, mas que promova e
implemente regras mais robustas para prevenir, resistir e recuperar de disrupções nos
serviços essenciais.
A realidade é que houve relatos de várias falhas nos geradores instalados em
infraestruturas essenciais, como foi o caso do Hospital da Guarda, onde parte das
instalações ficou sem energia, obrigando à transferência de urgências pediátricas e
obstétricas4. No rescaldo do apagão, a própria Direção Executiva do Serviço Nacional de
Saúde reconheceu que as maiores dificuldades sentidas no SNS foram no abastecimento
de combustível para os geradores, particularmente no Hospital dos Capuchos e na
Maternidade Alfredo da Costa5. Foi também noticiado que a antiguidade dos geradores dos
hospitais havia sido um dos principais problemas6.
Instalações como hospitais, forças de segurança e proteção civil, se equipadas com baterias
e inversores adequados, podem gerar energia localmente e reduzir a sua dependência da
rede elétrica convencional. Para o LIVRE, a instalação de painéis solares em infraestruturas
críticas é essencial para aumentar a sua autonomia energética e garantir a continuidade dos
4 Hospital da Guarda com problemas num dos geradores | SIC Notícias
5 Quanto tempo um hospital deve aguentar-se com geradores Não está definido mas tem de ser pensado | Jornal de Notícias
6 Apagão: antiguidade dos geradores ameaça comprometer resposta de alguns hospitais | Público
serviços em caso de falha da rede elétrica. Para aumentar a autonomia energética das
infraestruturas críticas - que não se cingem a hospitais -, é fundamental investir em sistemas
de geração de energia próprios, priorizando, sempre que possível, fontes renováveis e
alternativas ao combustível de origem fóssil. Estes devem ser naturalmente
complementados com geradores de emergência convencionais.
O apagão veio reforçar, no entender do LIVRE, a necessidade de antecipação da data para
a designação das entidades críticas, definida para 17 de julho de 2026. Antecipar esta meta
permitirá que as medidas de proteção e resiliência previstas no diploma sejam
implementadas mais cedo, reforçando a capacidade nacional de prevenção, resposta e
recuperação perante incidentes que possam comprometer os serviços essenciais.
Após o apagão, foram solicitados relatórios setoriais à Autoridade Nacional da Aviação Civil
(ANAC), à Autoridade Nacional de Comunicações (ANACOM) e ao Instituto da Mobilidade e
dos Transportes (IMT), referentes aos impactos nos setores de que se ocupa cada um dos
institutos. Em junho de 2025, os relatórios (que não foram divulgados pelo Governo)
analisaram os efeitos da falha geral de energia elétrica e apresentaram medidas de curto e
longo prazos para reforçar a resposta a cenários de crise7.
Na aviação, a ANAC destacou cancelamentos significativos sobretudo no Aeroporto de
Lisboa com 66 mil passageiros afetados e defendeu planos de contingência abrangentes,
simulacros conjuntos, reforço da autonomia energética e formação contínua para lidar com
falhas tecnológicas e de energia.
No setor das telecomunicações, por sua vez, o relatório da ANACOM revelou que a falha
elétrica afetou gravemente as redes fixas e móveis, condicionando o acesso ao 112 e às
comunicações de emergência. As recomendações incluem maior autonomia energética dos
equipamentos, adoção de fontes renováveis, redundância via satélite, acesso direto das
operadoras aos pontos de atendimento de emergência, uso de tecnologia Cell Broadcast
para avisos à população e exercícios conjuntos com autoridades e operadores. Também foi
sugerida a substituição urgente do sistema SIRESP para garantir a resiliência das
comunicações críticas.
Quanto aos transportes, o IMT apontou que, embora não tenha havido danos nas
infraestruturas, registaram-se perturbações significativas no setor ferroviário e nos
metropolitanos de Lisboa, Porto e Sul do Tejo. As recomendações incluem o aumento da
resiliência da rede elétrica e das telecomunicações, instalação de sistemas de
armazenamento de energia em veículos ferroviários e realização de simulacros para
evacuação segura. O IMT considerou ainda ser necessário aumentar a autonomia
energética mínima das entidades que operam infraestruturas críticas e serviços essenciais,
incluindo as infraestruturas de transportes.
Mais recentemente, em julho de 2025, o Governo apresentou um pacote de 31 medidas para
minimizar o risco de apagão e reforçar a capacidade de resposta das infraestruturas críticas e da
rede elétrica nacional, num investimento total estimado de 400 milhões de euros. Apesar
7 ANAC, ANACOM e IMT entregam relatórios e recomendações sobre impacto do apagão elétrico| XXV Governo
Constitucional
de o plano não ter sido publicado na íntegra, na sua comunicação, o Governo destacou o
apoio financeiro para a instalação de painéis fotovoltaicos e baterias em infraestruturas
críticas, como hospitais, e o lançamento de um leilão para baterias de armazenamento até
20268.
Já em outubro de 2025, foi publicado o relatório elaborado pelo painel de peritos da Rede
Europeia de Operadores de Sistemas de Transporte de Eletricidade (ENTSOE) que aponta
para falhas no controlo dos níveis de tensão no sul de Espanha e defende que todas as
centrais, independentemente da tecnologia, deverão adotar sistemas eficazes de controlo
de tensão para evitar novos incidentes semelhantes9, não fazendo, no entanto, referência à
necessidade de adaptação de infraestruturas críticas.
Assim, ao abrigo das disposições constitucionais e regimentais aplicáveis, o Grupo
Parlamentar do LIVRE propõe à Assembleia da República que, através do presente
Projeto de Resolução, delibere recomendar ao Governo que:
1. Antecipe e conclua, até final do primeiro semestre de 2026, a designação das
entidades críticas nos setores e subsetores definidos no anexo do Decreto-Lei n.º
22/2025, de 19 de março;
2. Defina um plano e cronograma de instalação, em todas as infraestruturas críticas
identificadas no ponto anterior, de sistemas de painéis solares, baterias e inversores
adequados para permitir o seu funcionamento autónomo fora da rede elétrica,
complementando os geradores a combustível existentes;
3. Assegure que estes sistemas respeitam as normas técnicas estabelecidas, sendo
sujeitos a manutenção e testes regulares que garantam o seu funcionamento seguro
e fiável em situações de emergência.
Assembleia da República, 06 de outubro de 2025
As Deputadas e os Deputados do LIVRE
Isabel Mendes Lopes Filipa Pinto
Jorge Pinto Patrícia Gonçalves
Paulo Muacho Rui Tavares
8 Pacote “anti-apagão” ascende a €400 milhões e incluirá apoios a baterias e painéis solares para infraestruturas críticas|
Expresso
9 Após falhas em Espanha, peritos europeus que analisaram o apagão ibérico pedem maior controlo de tensão na
rede elétrica | Expresso
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