Documento integral
Projeto de Resolução n.º 633/XVII/1.ª
Proteger alunos depois das tempestades: recuperar as
infraestruturas escolares e as aprendizagens
Exposição de motivos:
O início do ano de 2026 ficou marcado, em Portugal, por uma sucessão de fenómenos
naturais extremos - tempestades prolongadas, inundações severas e episódios climáticos
que afetaram extensas regiões do país. O “comboio de tempestades” que atravessou
Portugal, “um dos mais longos de que há memória” 1, deixou pesadas marcas. Os
estabelecimentos de ensino foram particularmente atingidos, contabilizando -se já 80
agrupamentos escolares afetados2.
As escolas constituem um pilar fundamental do tecido social e comunitário: garantem a
continuidade educativa, o apoio social às famílias e o desenvolvimento integral das crianças
e jovens. Quando estas instituições sofrem danos ou interrupções prolongadas, o impacto
repercute-se não apenas na aprendizagem, mas também nas trajetórias escolares, na
estabilidade emocional, e até no bem-estar das comunidades locais. Segundo um estudo da
Missão Escola Pública, movimento cívico constituído basicamente por professores do ensino
público, as tempestades afetaram pelo menos 32.700 alunos 3, prejudicando o percurso
académico e o quotidiano familiar de muitas crianças e jov ens. Este impacto é ainda mais
agravado quando muitos destes alunos viram também as suas casas, famílias, empresas
familiares ou mesmo o local onde vivem afetados, com consequências diretas no seu bem -
estar mental e físico.
Perante este quadro, torna -se u rgente garantir um diagnóstico eficaz e abrangente das
infraestruturas escolares, preparar a recuperação e promover a prevenção que assegure a
segurança física das escolas, a continuidade pedagógica e a preparação das comunidades
educativas face a futuras ocorrências.
A inexistência de um levantamento sistemático e atualizado do estado das infraestruturas
educativas após catástrofes naturais representa um obstáculo à definição de estratégias
eficazes de resposta e planeamento futuro. É por isso essencial que, desde já, o Governo dê
1 Portugal viveu um dos comboios de tempestades mais longos de que há memória | Clima | PÚBLICO
2 Mais de 80 agrupamentos escolares afetados pelas tempestades - Expresso
3 Tempestades afectaram pelo menos 32.700 alunos e deixam a nu fragilidades das escolas
início a um inventário nacional para recolher informação detalhada sobre a extensão e
natureza dos danos materiais (estruturais, elétricos, sanitários, tecnológicos); o número de
alunos, pessoal docente e não docente afetado; as condições de funcionamento parcial ou
total de cada estabelecimento; bem como dos recursos necessários para reparações
urgentes e reconstruções estruturais.
Este levantamento, que deve ser exaustivo e abrangente, será tanto mais credível quanto
mais a recolha de dados abranja todo o sistema, com a participação dos técnicos do Ministério
da Educação, da Proteção Civil, dos municípios e de especialistas em engenharia e
planeamento, garantindo uma avaliação e análise rigorosas e transparentes. Além do
diagnóstico físico, importa igualmente quantificar o impacto pedagógico e social das
interrupções e dos impactos que o comboio de tempestades provocou nas condições de
estudo e trabalho dos alunos, avaliando tempos de inatividade letiva, deslocações de alunos
e perdas de aprendizagem.
Os efeitos da suspensão ou perturbação das atividades escolares não se limitam à
componente física das infraestruturas. Em muitas localidades, ocorreram interrupções de
semanas no normal funcionamento das aulas, comprometendo o cumprimento dos
programas e aprofundando desigualdades pré-existentes entre contextos socioeconómicos
distintos. O inquérito promovido pela Missão Escola Pública, que dá nota que “foram
diretamente atingidos cerca de 32 700 alunos”, estima igualmente que o impacto pode ter
abrangido aproximadamente 90 000 alunos a nível nacional 4, um número altamente
preocupante que exige ação, de maneira a garantir que ninguém fica para trás no seu
processo educativo devido a estas tempestades.
Impõe-se, de facto, uma resposta pedagógica que garanta flexibilidade, permitindo, por
exemplo, que as escolas reorganizem calendários, metodologias e tempos letivos, e também
medidas de compensação que assegurem, especialmente para alunos em anos de exame,
um reforço das oportunidades de apoio, tutoria e revisão de matérias, possibilitando
adaptações no calendário e na modalidade de avaliação externa.
Mas não só no imediato se deve agir: a preparação para situações de emergência constitui
uma dimensão essencial da segurança escolar. Apesar das recomendações existentes, a
realização de simulacros é ainda irregular, está maioritariamente focada em fogos e incêndios
em edifícios5 e, em muitos casos, é simplesmente simbólica. Todavia, o agravamento recente
dos fenómenos meteorológicos extremos exige uma cultura de prevenção mais estruturada.
Com efeito, os simulacros periódicos têm não apenas uma função prática - testar planos de
evacuação e comunicação -, mas também pedagógica: envolvem alunos, docentes,
assistentes operacionais e famílias numa lógica de responsabilidade coletiva e literacia de
risco. Isso está, aliás, descrito e definido no Plano de Prevenção e Emergência para
Estabelecimentos de Ensino6, que sugere também a articulação com os serviços municipais
4 90 mil alunos terão sido afetados pelas intempéries das últimas semanas - CNN Portugal
5 ::: DL n.º 224/2015, de 09 de Outubro
6 Plano de Prevenção e Emergência para Estabelecimentos de Ensino
e nacionais de proteção civil como forma de alinhar procedimentos, partilhar boas práticas e
reforçar a capacidade de resposta local. De facto, o exercício regular aumenta a confiança e
a capacidade de reação em situações reais, reduzindo o pânico, os danos pessoais e
materiais e assegurando uma evacuação mais célere e organizada e, por isso, é essencial
que os simulacros se tornem rotina em todos os estabelecimentos de ensino.
O reforço da resiliência do sistema educativo perante fenómenos naturais extremos constitui
um imperativo de política pública e de coesão territorial. O investimento na segurança, na
continuidade pedagógica e na prevenção traduz-se em proteção de vidas, de aprendizagens
e de futuro.
A presente iniciativa pretende garantir que o Estado português assume de forma integrada
as responsabilidades de diagnóstico, reparação, apoio pedagógico e formação cívica dos
seus cidadãos mais jovens. Trata-se, assim, não apenas de reconstruir edifícios, mas de
reafirmar a centralidade da escola como espaço seguro, inclusivo e preparador das novas
gerações para um mundo em mudança.
Assim, ao abrigo das disposições constitucionais e regimentais aplicáveis, o Grupo
Parlamentar do LIVRE propõe à Assembleia da República que, através do presente
Projeto de Resolução, delibere recomendar ao Governo que:
1. Execute, até ao final do segundo trimestre, um inventário nacional dos
estabelecimentos de educação e infraestruturas escolares danificados pelos
fenómenos naturais extremos do início de 2026, que considere o tipo e a gravidade
dos danos, o estado de operacionalidade das instalações, as necessidades de
reparação ou reconstrução e o impacto nas atividades letivas e nos alunos;
2. Assegure calendários de recuperação de aprendizagens flexíveis e adaptados às
diferentes realidades escolares e adote medidas específicas para os alunos sujeitos
a exames nacionais, ponderando adaptações ao calendário, medidas de
compensação, a garantia de igualdade de oportunidades e o reforço do apoio e
preparação para exames nacionais;
3. Incentive, em articulação com as autarquias, a realização de, pelos menos, dois
simulacros de evacuação, por ano letivo, em todos os estabelecimentos de educação,
articulados com os serviços de proteção civil e garantindo a participação de toda a
comunidade educativa.
Assembleia da República, 23 de fevereiro de 2025
As Deputadas e os Deputados do LIVRE
Isabel Mendes Lopes Filipa Pinto
Jorge Pinto Patrícia Gonçalves
Paulo Muacho Rui Tavares
Abrir texto oficial