Documento integral
Projeto de Resolução n.º 720/XVII/1.ª
Recomenda ao Governo o reforço da resposta humanitária à crise
na Somália e o acolhimento de refugiados somalis, incluindo
refugiados cristãos
Exposição de motivos:
A Somália enfrenta uma das piores crises humanitárias do mundo, marcada pela violência
extrema e fome grave. Entre fevereiro e março de 2026, cerca de 6,5 milhões de pessoas,
quase o dobro de 2025, enfrentam níveis críticos de insegurança alimentar devido a uma seca
recorde desde 2011, que reduziu a produção de cereais no sul para apenas 15,6 mil
toneladas, o mínimo desde 1995, expondo milhões de crianças à desnutrição.1 A esta tragédia
soma-se uma grave perseguição religiosa contra minorias, incluindo cristãos. Diversos
relatórios internacionais sobre liberdade religiosa colocam a Somália entre os países mais
restritivos do mundo: a conversão do Islão é amplamente proibi da e punida ao abrigo de
interpretações da sharia, deixando estas comunidades desprotegidas. Qualquer suspeita de
cristianismo pode acarretar risco real de violência extrema, tanto por parte de familiares como
do grupo extremista Al-Shabaab, que procura ativamente eliminar a presença cristã no país.2
Paralelamente, os conflitos internos intensificam -se, com o referido grupo terrorista Al -
Shabaab, aliado da Al -Qaeda, a retomar o controlo de vários territórios no centro e sul do
país em 2025. Estes ataques provocaram centenas de vítimas civis e originaram deslocações
massivas. A título de exemplo, entre setembro e novembro de 2025, mais de 120 mil pessoas
foram forçadas a fugir na região de Hirshabelle. No total, cerca de 3,4 milhões de pessoas
permanecem deslocadas internamente, sendo que entre dezembro de 2025 e março de 2026
prevêem-se mais 212 mil deslocações de pessoas, 64% devido à seca e 36% em
consequência direta do conflito3.
1 https://www.rfi.fr/en/africa/20260301-crisis-level-hunger-in-somalia-nearly-doubles-to-6-5-million-people-un-experts-warn
2https://www.rtp.pt/noticias/mundo/extremismo-religioso-continua-a-impulsionar-violencia-em-africa_n1692622
3 https://news.un.org/pt/story/2026/02/1852472
No plano internacional, a comunidade global deve unir esforços para enfrentar a crise
humanitária na Somália, que ameaça milhões de vidas no presente ano. A ONU e os seus
parceiros, através do Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos
Humanitários (OCHA), lançaram um Plano de Necessidades e Resposta Humanitária no valor
de 852 milhões de dólares, menos 40% que em 2025, o que limita gravemente a distribuição
de alimentos, água potável e cuidados médicos, aumentando o risco propagação de doenças
nos campos de refugiados. No total, 2,4 milhões de pessoas encontram -se numa situação
vulnerável entre condições de fome e conflitos internos agravados. A esta vulnerabilidade
soma-se a violência sexual contra mulheres e raparigas, incluindo violações sistemáticas e
casamentos forçados, documentada pela Human Rights Watch 4. Neste contexto, entende o
LIVRE que Portugal deve acionar todos os seus meios diplomáticos e humanitários para
contribuir para a estabilização da Somália e para a proteção das populações mais
vulneráveis.
Face ao agravamento da crise humanitária, ao aumento das deslocações forçadas e à
perseguição de minorias religiosas, importa igualmente referir que Portugal esteja preparado
para responder, em articulação com os seus compromissos internacionais e europeus , a
eventuais fluxos de pessoas deslocadas provenientes da Somália, incluindo refugiados
cristãos vítimas de perseguição religiosa. Neste contexto, torna ‑se relevante avaliar
mecanismos de acolhimento e proteção internacional, bem como mobilizar instrument os
diplomáticos e humanitários, incluindo, se necessário, a concessão de vistos humanitários ou
outros mecanismos legais que permitam a entrada segura de pessoas particularmente
vulneráveis.
Assim, ao abrigo das disposições constitucionais e regimentais aplicáveis, o Grupo
Parlamentar do LIVRE propõe à Assembleia da República que, através do presente
Projeto de Resolução, delibere recomendar ao Governo que:
1. Condene veementemente os ataques perpetrados pelo grupo terrorista Al ‑Shabaab
contra a população civil na Somália, bem como as graves violações do Direito
Internacional Humanitário.
2. Promova, junto das Nações Unidas e de outros parceiros internacionais, a instauração
de mecanismos de apuramento de crimes graves cometidos e na responsabilização
dos seus perpetradores.
3. Reforce o apoio humanitário à Somália, em articulação com os mecanismos
internacionais existentes, nomeadamente através do aumento do contributo nacional
4 https://www.hrw.org/world-report/2026/country-chapters/somalia
para o Plano de Necessidades e Resposta Humanitária das Nações Unidas para a
Somália para 2026.
4. Avalie e pondere a criação de um programa especial de acolhimento que facilite a
viagem, emissão de visto humanitário, concessão do estatuto de refugiado e a
integração de pessoas provenientes da Somália, designadamente de grupos
particularmente vulneráveis, como minorias religiosas perseguidas.
Assembleia da República, 17 de março de 2026
As Deputadas e os Deputados do LIVRE
Paulo Muacho Filipa Pinto
Jorge Pinto Patrícia Gonçalves
Rui Tavares Tomás Cardoso Pereira
Abrir texto oficial