Documento integral
PARTIDO COMUNISTA PORTUGUÊS
Grupo Parlamentar
Projeto de Resolução n.º 328/XVII/1.ª
Recomenda ao Governo a reposição, criação e valorização das carreiras na
Administração Pública e a revogação do SIADAP
Exposição de motivos
Com a aprovação da Lei n.º 12-A/2008, de 27 de fevereiro, estabeleceram-se os
regimes de vinculação, de carreiras e de remunerações dos trabalhadores que exercem
funções publicas. Este diploma, aprovado por PS, PSD e CDS, representou um dos
maiores ataques aos direitos dos trabalhadores da Administração Pública, visando uma
profunda e estratégica desvalorização das carreiras dos trabalhadores.
O então maioritário Governo PS impôs uma profunda alteração e reconfiguração nas
relações laborais entre os trabalhadores e o Estado. Destaque para substituição do
vínculo público de nomeação pelo contrato de trabalho por tempo indeterminado;
substituição do quadro de pessoal pelo mapa de pessoal; generalização da
precariedade e instabilidade em vez de vínculos estáveis; alargamento das causas de
despedimento; criação de uma tabela única para as remunerações; destruição das
carreiras profissionais, vigorando e proliferando a polivalência de funções.
A destruição das carreiras da Administração Pública, criando três carreiras generalistas
(técnico superior, assistente técnico e assistente operacional), teve como objetivo, por
um lado, limitar a progressão na carreira e as promoções, passando estas a depender
da obtenção de 10 pontos por via do sistema de avaliação, o que, para a maioria dos
trabalhadores da Administração Pública, significa 10 anos para progredir; e por outro,
pôr fim à especialização e especificidade de funções, colocando em causa a qualidade
de serviço público.
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Passados cerca de 17 anos sobre a aprovação desta lei, a realidade de todos os dias
comprova que o PCP tinha razão quando afirmou que estava em curso um profundo
ataque aos direitos dos trabalhadores.
A reposição e criação de novas carreiras na Administração Pública, de acordo com as
especificadas de cada função em concreto, é da mais elementar justiça, na perspetiva
da valorização das carreiras profissionais dos trabalhadores e da melhoria do serviço
público que é prestado às populações.
Os trabalhadores da Administração Pública continuam, hoje, a lutar pela reposição e
pela criação de novas carreiras.
A desvalorização das carreiras dos trabalhadores da Administração Pública não está
desligada de uma Tabela Remuneratória Única, cada vez mais degradada, por força de
revisões e supostas atualizações que acentuam as suas injustiças, um sistema de
avaliação que não promove o desenvolvimento profissional e coloca severas limitações
à progressão nas carreiras.
Desde a sua criação que o PCP se opôs ao SIADAP, afirmando que “a avaliação do
desempenho tem que ser justa e deve ter como objetivo melhorar cada vez mais os
serviços” que são prestados pelos trabalhadores da Administração Pública às
populações. Mais afirmámos, então, que esta “não pode nem deve servir para
condicionar, dificultar, impedir ou instrumentalizar a promoção e a progressão da
carreira dos trabalhadores da Administração Pública”.
Mas é exatamente isso que o SIADAP significa – travão nas progressões e
desvalorização dos trabalhadores e dos serviços públicos.
O SIADAP tem, desde a sua primeira versão, um claro objetivo economicista posto em
prática através do sistema de quotas que apenas serve para impedir a progressão dos
trabalhadores, conduzindo a que mais de 75% dos que ingressem agora na
Administração Pública apenas têm a possibilidade de atingir o primeiro terço dos níveis
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de vencimento propostos, mantendo o absurdo sistema de quotas para as
classificações mais elevadas, com o objetivo de limitar a progressão na carreira.
A progressão na carreira só é obrigatória após a obtenção de oito pontos na avaliação,
mas, ao serem limitadas (com as quotas) as classificações mais elevadas, mesmo que
haja mais trabalhadores a merecerem esta classificação, ela não se verifica, ficando a
grande maioria dos trabalhadores estagnados, com legítimas pretensões de
progressão na carreira goradas e criando-se inaceitáveis injustiças na Administração
Pública.
O sistema de quotas não permite uma verdadeira avaliação, porque impõe
artificialmente um limite à avaliação e apenas visa condicionar a promoção e
progressão nas carreiras.
Também este é um elemento que afasta trabalhadores, nomeadamente jovens e os
mais qualificados, da Administração Pública, uma vez que não têm perspetiva de
construção de uma carreira que os valorize.
Este Sistema de Avaliação do Desempenho dos Trabalhadores da Administração
Pública apareceu, em 2007, pelas mãos de um Governo do PS de maioria absoluta. E
não apareceu para, de uma forma construtiva, melhorar os serviços e a qualificação
dos trabalhadores. O seu verdadeiro objetivo foi (e ainda é), através da avaliação,
impedir a progressão na carreira, facilitar despedimentos e até mesmo fundamentar o
encerramento de serviços.
Mesmo as sucessivas alterações ocorridas que dão a aparência de um sistema de
avaliação que beneficia os trabalhadores, mais não fazem senão manter este sistema
injusto e que constitui um verdadeiro ataque às carreiras da Administração Pública.
A reposição, alteração e criação de novas carreiras, bem como a construção de um
sistema de avaliação justo, transparente, formativo e potenciador das progressões é
matéria de âmbito da negociação coletiva entre as organizações representativas dos
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trabalhadores e o Governo. Esta matéria deve envolver profundamente os
trabalhadores e as suas organizações representativas, num processo sério e eficaz e
que tenha como objetivo valorizar os trabalhadores e os serviços públicos, e não o
contrário.
Pelo exposto, nos termos da alínea b) do artigo 156.º da Constituição e da alínea b) do
n.º 1 do artigo 4.º do Regimento, os Deputados do Grupo Parlamentar do PCP
propõem que a Assembleia da República adote a seguinte
Resolução
A Assembleia da República resolve, nos termos do n.º 5 do artigo 166.º da Constituição
da República, recomendar ao Governo que, durante o ano de 2025:
1. Desenvolva e concretize os processos de negociação coletiva com as
organizações representativas dos trabalhadores, com vista à reposição,
valorização e criação de novas carreiras profissionais, tendo em consideração,
em cada uma das carreiras, o seu enquadramento e as especificidades das
funções desempenhadas, definindo concretos descritivos funcionais e as
concretas funções exercidas, assegurando a valorização das carreiras, a
progressão e a consequente tradução remuneratória.
2. Revogue o atual sistema de avaliação de desempenho (SIADAP), incluindo os
sistemas específicos nele baseados, substituindo-o por um sistema de avaliação
sem quotas, formativo, transparente, equitativo e justo, que valorize realmente
os trabalhadores, potenciando a progressão profissional nas suas carreiras,
negociando-o devidamente com as organizações representativas dos
trabalhadores.
Assembleia da República, 10 de outubro de 2025
Os Deputados,
Paulo Raimundo; Alfredo Maia; Paula Santos
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