Documento integral
Projeto de Resolução n.º 577/XVII/1.ª
Recomenda ao Governo medidas para uma gestão integrada dos
recursos hídricos e monitorização de infraestruturas hidroelétricas
em virtude das cheias de 2026
Exposição de motivos:
O mês de janeiro de 2026 foi o segundo mais chuvoso desde 2000, com Portugal a registar
uma precipitação média de 233,4 mm, cerca de duas vezes o valor médio histórico (105 mm)
para o período 1991 -2020, segundo dados do Instituto Português do Mar e da Atmosfera
(IPMA). Todas as estações meteorológicas ultrapassaram os valores normais, com 78% a
registarem o dobro ou mais e 40% entre 2,5 e 3,5 vezes a média, especialmente no Norte,
Centro e litoral Sul1.
Na primeira metade de fevereiro de 2026, as chuvas intensas continuam a persistir, devido a
um fenómeno conhecido como um “comboio de depressões”2 que se iniciou no final de janeiro
com as tempestades Ingrid, Joseph e Kristin, seguidas pelas tempestades Leonardo e Marta.
Tudo isto provocou cheias pelo país, sendo a zona de Alcácer do Sal u ma das mais
impactadas, naquelas que já são conhecidas como as maiores cheias de que há memória na
região3. A mesma pluviosidade levou a que, por exemplo, o caudal do Tejo duplicasse 4 e
vários rios, como o Mondego5, o Sorraia6 ou o Guadiana7, galgassem as margens. Por todos
estes motivos, a Agência Portuguesa do Ambiente (APA) emitiu alertas de cheias em sete
bacias hidrográficas8. No Mondego, dois diques não resistiram à força das águas e acabaram
mesmo por colapsar e provocar inundações nos terrenos adjacentes9.
Facto é que dezenas de barragens em Portugal continental tiveram de, até ao início de
fevereiro, efetuar descargas controladas por terem as albufeiras em níveis próximos do
máximo. Esta medida consiste na libertação de água de uma forma gradual e c ontrolada
1 Janeiro de 2026 foi o segundo mais chuvoso desde o ano de 2000 | CNN Portugal
2 "Comboios de depressões" são raros e a culpa é do anticiclone dos Açores | SIC Notícias
3 Alcácer do Sal assiste às maiores cheias que há memória | Observador
4 Acionado alerta vermelho após duplicação do caudal do Tejo | Observador
5 Caudal do Rio Mondego galgou as margens e inundou várias estradas e parou comboios| RTP Notícias
6 Coruche em alerta devido à subida do nível da água e risco de galgamento do dique| Correio do Ribatejo
7 Subida do Guadiana: autarca de Mértola admite que situação possa "obrigar a retirar pessoas e bens"| SIC Notícias
8 Alerta de cheias em sete bacias hidrográficas | Agência Portuguesa do Ambiente
9 Diques do Mondego não resistiram à força das águas | Público
quando as albufeiras atingem quotas excessivas, de forma a evitar transbordamentos,
rupturas estruturais e consequente cheias e inundações.
Com efeito, em Portugal, várias barragens têm seguido esta medida, como é o caso das
barragens do Alqueva e Santa Clara (Alentejo), da Bravura10 (Algarve), de Touvedo (Minho)
e de tantas outras. Só num fim-de-semana, foi necessário libertar 500 milhões de m3 de água
das barragens nacionais para tentar controlar as cheias11.
Esta realidade não é nova em Portugal, mas a verdade é que a população, em geral, está
muito mais sensibilizada para os efeitos da seca do que para os efeitos das cheias, porque a
escassez de água tem sido uma ameaça quase permanente ao longo dos últimos anos,
sobretudo no Alentejo e Algarve. Portugal tem sofrido anos seguidos com vastas áreas em
seca severa ou extrema, o que tem naturalmente impacto direto na agricultura, no
abastecimento público e na produção hidroelétrica.
A seca aparece recorrentemente nos alertas oficiais, nos planos de emergência e na
comunicação pública, enquanto as cheias, apesar de também serem um risco relevante,
ainda são percecionadas mais como episódios pontuais e excecionais do que como um
problema estrutural. No entanto, as alterações climáticas irão alterar radicalmente esta
perceção, intensificando ambos os fenómenos de forma mais frequente e extrema: as secas
prolongadas, com verões mais quentes e secos12 que esgotam recursos naturais, contrastam
agora com episódios de cheias intensas e rápidas devido a precipitações concentradas em
poucas horas.
Esta dualidade exige uma abordagem de gestão integrada, com investimento urgente em
infraestruturas resilientes, maior articulação entre os planos de Gestão de Região
Hidrográfica e os Planos de Gestão dos Riscos de Inundação e monitorização em tempo real,
para mitigar os impactos económicos e humanos de um sistema climático em transição para
padrões mais voláteis.
No entanto, um estudo publicado pela Comissão Europeia, em janeiro de 2026, revela que
Portugal investe menos de metade do necessário para se adaptar à crise climática,
precisando de 1667 milhões de euros anuais até 2050 para proteger ecossistemas,
infraestruturas, agricultura e saúde13. A adaptação e resiliência climáticas constroem-se com
uma abordagem proativa que equilibre a gestão de extremos hídricos, acelere medidas como
reabilitação de solos, restauro da natureza, monitorização em tempo real e planos de bacias
que incorporem cenários de secas e chuvas progressivamente mais severas, de forma a
salvaguardar populações ribeirinhas e costeiras e evitando perdas humanas.
A gestão da água é um ponto fulcral em todo este cenário, dado que determina de forma
muito direta a capacidade de resposta do país. A estratégia deve passar por um reforço da
monitorização das operações das centrais hidroelétricas, incluindo a definição,
implementação e monitorização de regimes de caudais ecológicos, níveis de armazenamento
10 Até a barragem da Bravura, afectada por seca extrema, tem agora água em excesso| Público
11 Barragens libertaram em dois dias água que equivale ao consumo de Lisboa em três anos| Público
12 Portugal vai ser dos países mais afetados pela seca: novo relatório da OCDE traça cenário alarmante| Expresso
13 Assessment of EU and member states adaptation investment needs study on the macro-economic impacts of the climate
transition (pág. 102) | Comissão Europeia
e critérios de descarga, planos integrados de bacias hidrográficas que priorizem o
abastecimento humano e ecossistemas sobre a produção de energia imediata, e
transparência total nos contratos de concessão para evitar conflitos entre interesses privados
e públicos.
Assim, ao abrigo das disposições constitucionais e regimentais aplicáveis, o Grupo
Parlamentar do LIVRE propõe à Assembleia da República que, através do presente
Projeto de Resolução, delibere recomendar ao Governo que:
1. Monitorize junto das concessionárias, através da Agência Portuguesa do Ambiente,
de forma contínua, rigorosa e transparente, as operações das centrais hidroelétricas
durante a primavera e verão de 2026, de forma a garantir níveis adequados de
armazenamento que salvaguardem as necessidades de abastecimento público e as
necessidades dos ecossistemas através do cumprimento dos caudais ecológicos,
reconhecendo que estas necessidades são absolutamente prioritárias face aos
restantes usos;
2. Publique os resultados a que se refere o número anterior;
3. Reveja e negoceie, nos contratos de concessão em vigor com vista a aproveitamentos
hidráulicos, obrigações claras e mensuráveis de desempenho hídrico e ambiental,
bem como critérios de operação em situações de seca e cheia para toda a sua
duração;
4. Considere estas obrigações e critérios nos contratos a outorgar no futuro, reduzindo
assimetrias de informação e litigância futura;
5. Instrua a Agência Portuguesa do Ambiente para que proceda à publicação anual de
um relatório público sobre a gestão de albufeiras em contexto de extremos climáticos,
incluindo critérios de descarga, níveis de armazenamento e cumprimento dos caudais
ecológicos.
Assembleia da República, 12 de fevereiro de 2026
As Deputadas e os Deputados do LIVRE
Isabel Mendes Lopes Filipa Pinto
Jorge Pinto Patrícia Gonçalves
Paulo Muacho Rui Tavares
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