Documento integral
Projeto de Resolução n.º 629/XVII/1.ª
Constituição da Comissão Eventual sobre preparação,
acompanhamento e resposta a eventos extremos
Entre 28 de janeiro e meados de fevereiro de 2026, Portugal foi atingido por um comboio de
três depressões consecutivas — Kristin, Leonardo e Marta — que se sucederam sem que o
país tivesse tido tempo de recuperar entre cada evento 1. O balanço humano e material é
grave: 18 vítimas mortais, centenas de feridos, centenas de famílias e pessoas desalojadas,
e danos extensos em habitações, infraestruturas críticas, equipamentos públicos, vias de
comunicação e explorações agrícolas. Janeiro de 2026 foi o mês mais chuvoso dos últimos
25 anos em Portugal2.
Os distritos de Leiria, Coimbra, Santarém, Castelo Branco, Lisbo a e Setúbal foram os mais
afetados. A depressão Kristin entrou no território continental com rajadas que atingiram os
208,8 km/h em Soure 3. A depressão Marta chegou com os solos já saturados pelas
tempestades anteriores, agravando o risco de cheias e os da nos estruturais nas regiões
Centro, Lisboa e Vale do Tejo e Alentejo. A Autoridade Nacional de Emergência e Proteção
Civil (ANEPC) registou mais de 11 000 ocorrências ao longo deste período 4 e cerca de 167
000 clientes ficaram sem eletricidade durante a passagem da depressão Marta, somando-se
aos 124 000 que ainda aguardavam religação nas zonas mais afetadas pela Kristin5.
A evidência científica nesta matéria é muito clara e peritos nacionais e internacionais têm
frequentemente alertado para os riscos: os eventos extremos serão cada vez mais
frequentes, mais intensos e mais imprevisíveis 6. A questão não é se Portugal voltará a ser
atingido por eventos desta natureza, mas quando - e a questão que se impõe colocar é se
estaremos preparados para os enfrentar?
A experiência de janeiro e fevereiro de 2026, conjugada, aliás, com a experiência do apagão
de 2025, mostra que ainda há um longo caminho a percorrer e há falhas concretas que
importa nomear:
1 Comboio de tempestades atinge Portugal há 15 dias | JN
2 Portugal teve o janeiro mais chuvoso dos últimos 25 anos | Observador
3 Rajadas de 200 km/h e muita destruição: Governo decreta situação de calamidade após tempestade| Euronews
4 Mau tempo: Registadas 11.957 ocorrências nos últimos 10 dias | Jornal Económico
5 "Destruição sem precedentes". Rede de comunicações com danos | Observador
6 A lista dos 10 fenómenos mais letais dos últimos 20 anos – todos agravados pelo clima | Público
- A tempestade Kristin destruiu infraestruturas de telecomunicações em vários distritos,
deixando populações sem qualquer meio de contacto com o exterior durante horas e,
em alguns casos, dias7;
- O sistema SIRESP revelou uma dependência estrutural da rede elétrica: quando o
fornecimento de energia falhou, as comunicações de emergência deixaram de
funcionar precisamente onde mais eram necessárias8;
- A rede de distribuição elétrica registou colapsos parciais 9 — e sem que existissem
planos de redundância energética para unidades de saúde 10 e estruturas de apoio
social em territórios isolados. Em concelhos como Oleiros, mais de 70% do território
ficou sem comunicações móveis durante vários dias11.
A estas falhas de infraestrutura somaram-se dificuldades no planeamento local, já que vários
municípios chegaram às tempestades com planos de emergência desatualizados ou sem
capacidade operacional para os executar 12. A ausência ou fragilidade de estruturas
municipais de proteção civil gerou situações em que populações afetadas não sabiam a quem
recorrer nem que instruções seguir.
Já o apagão ibérico de 28 de abril de 2025 expôs as mesmas fragilidades estruturais:
infraestruturas críticas vulneráveis, ausência de planos de continuidade de serviços
essenciais e comunicações de emergência dependentes da rede elétrica13.
A dimensão destas crises exigia uma resposta do Estado robusta e coordenada mas, no
entanto, e em relação ao recente comboio de tempestades, o estado de calamidade foi
decretado apenas no dia seguinte ao evento crítico e, embora as Forças Armadas tenham
estado no terreno desde o próprio dia 28 de janeiro, a sua atuação só se tornou plenamente
coordenada com os municípios dois dias depois, revelando lacunas na articulação civil-militar
imediata14.
Os acontecimentos de janeiro e fevereiro de 2026 confirmam que se tratou de uma
oportunidade perdida e inscrevem Portugal no diagnóstico que o Relatório Niinistö 15,
elaborado a pedido da Comissão Europeia em 2024, traçou para as democracias europeias:
anos de desinvestimento nas capacidades de resiliência civil, ausência de uma cultura de
preparação enraizada na sociedade e falta de coordenação efetiva entre estruturas civis e
militares. Este relatório apela a uma mudança de abordagem: uma cultura de preparação que
envolva governos, autarquias, empresas, comunidades e cidadãos, e que coloque a
preparação para emergências no centro da função do Estado e não na sua periferia
burocrática.
7 Tempestade mergulhou várias zonas do país no silêncio | JN
8 Batalha sem SIRESP há mais de 30 horas | Observador
9 Governo avança com estudo para adaptar o Sistema Elétrico Nacional às alterações climáticas| ECO
10 Distribuídos 200 geradores nas zonas afectadas e há mais disponíveis| DNOTICIAS.PT
11 Mais de 70% do concelho de Oleiros sem comunicações ou com instabilidade| RTP
12 Plano de Emergência e Proteção Civil de Leiria passa a incluir cenário de pandemia| Região de Leiria
13 Investigação do Grupo de Peritos da ENTSO-E ao apagão ibérico
14 Pós-depressão Kristin. A resposta aos danos e a evolução do estado do tempo ao minuto| RTP
15 Safer together: A path towards a fully prepared Union | European Commission
O LIVRE partilha desta visão e entende que a preparação para eventos extremos é também
uma questão de justiça social e de direitos fundamentais. As populações mais expostas —
idosas, isoladas, com menos recursos económicos, nos territórios que acumulam décadas de
despovoamento e desinvestimento público — são invariavelmente as que suportam as
consequências mais graves quando a resposta do Estado é insuficiente ou tardia. Cientes
desta realidade no terreno, o Grupo Parlamentar do LIVRE propôs, aliás, uma Comissão
Parlamentar de Inquérito à preparação, prontidão e planeamento de crises e emergências de
larga escala na sequência do apagão energético de 28 de abril 16 com o objetivo de apurar
responsabilidades, identificar falhas estruturais na capacidade de resposta nacional e propor
medidas que reforçassem a resiliência do país perante situações de catástrofe, quer de
origem natural, quer tecnológica. Esta CPI acabou por ser chumbada e perdeu-se uma
oportunidade essencial para o Parlamento exercer o seu papel fiscalizador e contribuir para
o reforço das políticas públicas de prevenção e proteção civil, deixando por responder muitas
das fragilidades que continuam a expor as populações e o território a riscos inaceitáveis,
como acabou por se verificar durante os meses de janeiro e fevereiro.
A constituição desta Comissão Eventual revela-se, assim, o passo natural, necessário e
adequado para avaliar com rigor o que aconteceu, o que falhou, ouvir quem esteve no terreno
e quem foi afetado, conhecer o que correu bem e analisar o que outros países fazem melhor,
traduzindo esse trabalho de fiscalização e auscultação na promoção de políticas públicas e
iniciativas legislativas adequadas para a preparação do país em caso de cenário de crise
provocada por eventos extremos.
Assim, ao abrigo das disposições constitucionais e regimentais aplicáveis, as
Deputadas e os Deputados do Grupo Parlamentar do LIVRE apresentam o seguinte
Projeto de Resolução:
A Assembleia da República resolve, nos termos do n.º 1 do artigo 37.º do Regimento da
Assembleia da República:
1 - Constituição da Comissão Eventual sobre preparação, acompanhamento e resposta a
eventos extremos.
2 - A Comissão Eventual sobre preparação, acompanhamento e resposta a eventos extremos
que se pretende constituir destina-se a:
a) Avaliar a preparação e prontidão das estruturas do Estado — a nível nacional, regional
e local — antes, durante e após a passagem do comboio de depressões de janeiro e
fevereiro de 2026;
b) Analisar o funcionamento dos sistemas de alerta precoce, de comunicação de
emergência e de coordenação entre entidades com responsabilidades em matéria de
proteção civil;
c) Identificar lacunas nos planos de contingência, redundância e de continuidade de
serviços essenciais, incluindo energia, água, comunicações, saúde e transportes;
d) Avaliar a capacidade de resposta diferenciada em territórios de baixa densidade
populacional, áreas urbanas de alta vulnerabilidade social e áreas rurais;
16 DetalheIniciativa
e) Analisar os mecanismos de apoio às populações afetadas, com especial atenção à
proteção de pessoas e famílias em situação de maior vulnerabilidade;
f) Garantir a integração de projeções climáticas e dos cenários de risco nos instrumentos
de planeamento nacional, regional e local, assegurando que as políticas públicas
incorporam medidas de prevenção, adaptação e mitigação compatíveis com a
realidade atual e futura;
g) Acompanhar os trabalhos da Estrutura de Missão «Reconstrução da região Centro do
País», criada pela Resolução do Conselho de Ministros n.º 17-C/2026, 3 de fevereiro;
h) Formular recomendações para o reforço da resiliência nacional a eventos extremos.
3 - Para o desenvolvimento dos seus trabalhos, a Comissão Eventual pode proceder a
audições de entidades públicas da administração central e local, de especialistas do meio
académico e de representantes da sociedade civil, recolher testemunhos e contributos e
proceder à análise de boas práticas internacionais em matéria de preparação e resposta a
fenómenos extremos.
4 - A Comissão Eventual funcionará por um período de seis meses, prorrogável por igual
período e, no final do seu mandato, apresenta um relatório da sua atividade, contendo as
conclusões do seu trabalho e as recomendações dirigidas à Assembleia da República, ao
Governo e demais entidades públicas.
Assembleia da República, 20 de fevereiro de 2026
As Deputadas e os Deputados do LIVRE
Isabel Mendes Lopes Filipa Pinto
Jorge Pinto Patrícia Gonçalves
Paulo Muacho Rui Tavares
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