Documento integral
Projeto de Resolução n.º 479/XVII
Recomenda ao Governo que aumente os apoios às fileiras das raças
autóctones
Exposição de motivos
As raças autóctones portuguesas constituem um dos pilares mais valiosos do
nosso património rural. Muito para além da sua dimensão produtiva, representam
um legado genético, cultural e ambiental único, moldado por séculos de
adaptação às especificidades do território nacional. São, portanto, muito mais do
que recursos zootécnicos: são expressão viva da identidade portuguesa e da
relação harmoniosa entre o ser humano e o seu meio.
Estas raças, desenvolvidas em contextos geográficos e climáticos exigentes,
como o interior montanhoso ou as áreas de baixa prod utividade agrícola,
demonstram uma resiliência e uma adaptabilidade notáveis. Tal capacidade
permite-lhes sustentar modelos de produção sustentáveis, baseados em sistemas
extensivos e práticas agroecológicas, que valorizam os recursos locais e
preservam os ecossistemas. Em tempos de alterações climáticas e crescente
pressão sobre os recursos naturais, esta é uma vantagem estratégica que
Portugal não pode negligenciar.
Além disso, as raças autóctones contribuem de forma decisiva para a fixação das
populações em territórios vulneráveis ao despovoamento, funcionando como
motores de desenvolvimento económico e social. A produção associada a estas
raças – nomeadamente carnes, queijos, enchidos e outros produtos tradicionais
– é amplamente reconhecida pela sua qualidade superior, muitas vezes protegida
por selos como a Denominação de Origem Protegida (DOP) ou a Indicação
Geográfica Protegida (IGP). Esta valorização promove circuitos curtos de
comercialização, aumenta o rendimento dos produtores e reforça a economia
local e circular.
No entanto, este valioso património está longe de estar garantido. A sua
preservação depende diretamente de políticas públicas firmes, de um
envolvimento ativo da sociedade civil e de apoios concretos aos criadores que,
com esforço e ded icação, mantêm vivas estas raças. A Direção -Geral de
Alimentação e Veterinária (DGAV) tem desempenhado um papel relevante nesta
área, com iniciativas que vão desde a conservação genética à sensibilização
pública. Mas os desafios atuais – desde a perda de b iodiversidade até à
desertificação rural – exigem um reforço claro deste compromisso institucional.
Defender as raças autóctones é investir num futuro sustentável, equilibrado e
identitário para o nosso país. É assegurar que as próximas gerações terão acesso
a um património vivo, rico em diversidade, saber e sabor. É preservar a memória
do passado, enquanto se constrói uma ruralidade inovadora, resiliente e capaz de
enfrentar os desafios do presente e do futuro.
É necessário garantir apoios financeiros está veis e adequados, incentivos à
comercialização dos produtos derivados, programas de formação técnica para os
criadores, bem como campanhas de educação e valorização junto dos
consumidores. Esta é uma responsabilidade coletiva, que deve envolver todos os
setores da sociedade, desde as escolas até à restauração, desde os municípios
até aos centros de investigação.
Assim, ao abrigo das disposições regimentais e constitucionais aplicáveis, as
Deputadas e os Deputados abaixo -assinados do Grupo Parlamentar do Pa rtido
Socialista apresentam o seguinte projeto de resolução:
A Assembleia da República resolve, nos termos do disposto do n.º 5 do artigo
166.º da Constituição da República Portuguesa, recomendar ao Governo que:
1. Reforce os apoios financeiros aos criadores de raças autóctones;
2. Crie condições para o aumento da certificação com Denominação de
Origem Protegida (DOP) ou a Indicação Geográfica Protegida (IGP) de
produtos de raças autóctones nacionais;
3. Apoie ações de promoção, certificação e comercialização com
Denominação de Origem Protegida (DOP) ou a Indicação Geográfica
Protegida (IGP) de produtos de raças autóctones nacionais;
4. Implemente o consumo dos produtos das raças autóctones nas cantinas
do setor público, incluindo as escolas.
5. Invista em programas de con servação genética e de investigação
científica, em articulação com universidades, centros de investigação e
associações de criadores.
Palácio de S. Bento, 8 de janeiro de 2026
As Deputadas e os Deputados
Eurico Brilhante Dias
Armando Mourisco
Pedro Carmo
Júlia Rodrigues
Luís Graça
Sofia Canha
Irene Costa
Jorge Botelho
Rui Santos
Luís Dias
Elza Pais
Hugo Costa
Marina Gonçalves
Luís Moreira Testa
Eduardo Pinheiro
Pedro Sousa
Eurídice Pereira
Aida Carvalho
Susana Correia
Nuno Fazenda
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