Documento integral
Projeto de Resolução n.º 222/XVII/1.ª
Recomenda ao Governo que acompanhe a situação dos direitos humanos e
liberdades fundamentais em Angola
Nas últimas semanas, multiplicaram-se em Angola episódios de repressão política, com
detenções de dirigentes associativos e políticos da oposição em circunstâncias que
suscitam sérias dúvidas quanto ao respeito pelas garantias próprias de um Estado de
Direito.
No dia 7 de agosto de 2025, o Secretário Nacional da Mobilização da JURA (ala juvenil
da UNITA), Oliveira Francisco, conhecido como “Buka Tanda”, foi detido por elementos
do Serviço de Investigação Criminal (SIC). Testemunhos da família e de dirigentes da
JURA descrevem uma detenção violenta, com a porta da residência a ser arrombada,
sem informação imediata sobre o paradeiro ou fundamentos da mesma. Apenas ao final
do dia, a Televisão Pública de Angola anunciou a imputação de crimes como
“terrorismo” e “associação criminosa”, sem acusação formal conhecida e sem que lhe
fosse garantido, desde o primeiro momento, o direito de defesa.
No mesmo contexto, permanece detido, há mais de uma semana, o vice-presidente da
Associação Nacional dos Taxistas de Angola (ANATA), Rodrigo Luciano Catimba,
alegadamente sem mandado judicial e sem apresentação de despacho acusatório. O seu
advogado denuncia a ilegalidade da detenção, sublinhando a ausência de tipificação
clara dos crimes imputados.
Estes casos não são isolados. Centenas de detenções e dezenas de mortes foram
registadas durante manifestações e paralisações de trabalhadores nas últimas semanas.
O padrão é preocupante: protestos e greves de origem pacífica transformam-se em
pretexto para operações policiais desproporcionais, que fragilizam ainda mais o espaço
cívico e associativo em Angola.
A Assembleia da República reafirma que a liberdade de expressão, reunião e
manifestação pacífica são direitos fundamentais. E que estão consagrados na
Constituição angolana, na Carta Africana dos Direitos Humanos e dos Povos e em
diversos tratados internacionais ratificados por Angola. Os protestos devem decorrer de
forma pacífica, sem violência, tumultos ou pilhagens, mas que, em contrapartida, as
forças policiais e de segurança têm o dever de agir com proporcionalidade, evitando
medidas repressivas que visem silenciar vozes críticas.
Portugal, enquanto parceiro histórico e membro fundador da Comunidade dos Países
de Língua Portuguesa (CPLP), não pode ignorar sinais de deterioração do Estado de
Direito num dos seus Estados-membros. A CPLP foi criada para promover não apenas
laços linguísticos e culturais, mas também valores democráticos. No entanto, a sua
credibilidade fica em causa quando se mantém em silêncio perante a repressão política
de “amigos no poder”, enquanto reage com indignação noutros cenários. Este silêncio
seletivo não só fragiliza a posição da CPLP no plano internacional, como a torna
irrelevante enquanto comunidade de valores, reduzindo-a a um clube protocolar sem
influência real.
A verdade é que Angola não está sozinha nesta preocupante tendência. Também em
Moçambique, episódios recentes demonstram uma crescente restrição do espaço
político e cívico, com perseguições judiciais e administrativas a opositores,
impedimentos arbitrários à participação eleitoral e uso das forças de segurança para
dispersar ou impedir manifestações pacíficas. Casos de candidatos e movimentos
impedidos de concorrer, bem como a intimidação sistemática de jornalistas e ativistas,
mostram que a criminalização da dissidência não é um fenómeno isolado, mas sim parte
de um padrão mais vasto que atravessa fronteiras na lusofonia. Em ambos os contextos,
acusações graves e muitas vezes infundadas — incluindo as de “terrorismo” — são
instrumentalizadas para afastar vozes incómodas e limitar o debate público.
A Assembleia da República considera que a defesa das liberdades fundamentais e do
Estado de Direito deve ser coerente e universal, e que o Governo português tem a
responsabilidade de o afirmar tanto no plano bilateral como no multilateral. A política
externa não pode ser refém de conveniências, sob pena de Portugal e a CPLP se
tornarem meros espectadores cúmplices perante a erosão democrática em Estados com
os quais mantêm estreitos laços históricos.
Resolução
Assim, ao abrigo das disposições constitucionais e regimentais aplicáveis, o Grupo
Parlamentar da Iniciativa Liberal propõe que a Assembleia da República recomende
ao Governo que:
1. Manifeste a sua preocupação quanto às recentes detenções e à forma como
têm sido conduzidas as operações policiais e judiciais contra dirigentes
associativos e políticos da oposição em Angola.
2. Apele ao respeito pelo Estado de Direito, pela liberdade de expressão,
reunião e manifestação pacífica, exortando ao abandono de práticas de
intimidação contra opositores políticos e líderes associativos.
3. Defenda, em sede multilateral, nomeadamente na CPLP, a necessidade de
reforçar mecanismos de monitorização e promoção das liberdades
fundamentais nos Estados-membros, aplicando o mesmo rigor e exigência a
todos, independentemente da proximidade política com os respetivos
governos.
4. Incentive um diálogo construtivo entre autoridades angolanas, partidos
políticos, sociedade civil e comunidade internacional, com vista à redução da
tensão política e à prevenção de novos episódios de repressão.
Palácio de São Bento, 8 de agosto de 2025
Os Deputados da Iniciativa Liberal,
Rodrigo Saraiva
Angélique Da Teresa
Carlos Guimarães Pinto
Joana Cordeiro
Jorge Miguel Teixeira
Mariana Leitão
Mário Amorim Lopes
Miguel Rangel
Rui Rocha
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