Documento integral
Projeto de Resolução n.º 739/XVII
Recomenda ao Governo que promova as diligências necessárias à criação do
Memorial das Vítimas da Radioatividade e do Centro Interpretativo da área
mineira da Urgeiriça
Exposição de motivos
A área mineira da Urgeiriça, localizada em Canas de Senhorim, no concelho de Nelas,
distrito de Viseu, foi uma das mais importantes explorações de rádio e urânio em
Portugal e na Europa durante o século XX.
A atividade começou em 1913, inicialmente centrada na extração de rádio, passando
mais tarde à exploração de urânio, acompanhando a crescente importância estratégica
deste mineral, sobretudo no contexto militar e energético.
Ao longo do tempo, a exploraçã o passou por diferentes entidades, incluindo a
Companhia Portuguesa de Rádio e, mais tarde, a Empresa Nacional de Urânio (ENU),
que marcou a fase final da vida produtiva da mina.
A mina atingiu uma grande complexidade técnica, com 19 níveis subterrâneos q ue
desciam até cerca de 550 metros de profundidade e se estendiam por
aproximadamente 1600 metros de comprimento, formando uma verdadeira “cidade
subterrânea” dedicada à extração do minério , desenvolvendo -se à superfície um
complexo industrial e social que incluía instalações de tratamento químico, oficinas,
edifícios de apoio e um bairro mineiro onde viviam trabalhadores e famílias, criando
uma forte identidade local ligada à atividade mineira.
Com o declínio da procura e a mudança das políticas energétic as, a exploração foi
sendo gradualmente reduzida, até ao encerramento da mina, em 1999, e ao início do
processo de liquidação da ENU, no início dos anos 2000.
A longa história de exploração deixou, porém, um legado ambiental pesado:
escombreiras a céu abe rto, barragens de rejeitados com resíduos resultantes do
tratamento do minério, solos e estruturas contaminados do ponto de vista radiológico e
químico, muitas vezes em estreita proximidade com zonas habitadas.
Estes passivos ambientais e de saúde pública colocaram a Urgeiriça no centro do
debate sobre as consequências do ciclo do urânio em Portugal e sobre as
responsabilidades do Estado na reparação dos danos.
Face a esta situação, a recuperação da área mineira foi classificada como prioritária e
deu origem a um dos mais extensos e complexos programas de reabilitação ambiental
de antigas minas em Portugal, mobilizando investimentos significativos, incluindo
financiamento europeu ao abrigo de programas como o Portugal 2020 e o PO SEUR.
As intervenções abr angeram várias frentes: a inundação controlada da mina
subterrânea, de forma a estabilizar estruturas e minimizar fluxos de drenagem ácida
contaminada; a selagem, modelação e cobertura das barragens de rejeitados e
escombreiras, para reduzir a dispersão de poeiras e o escoamento superficial
contaminado; a descontaminação de solos, edifícios e antigas áreas de tratamento de
minério; e a instalação de sistemas de drenagem e tratamento (passivo e ativo) das
águas poluídas que saem da antiga área industrial.
Este conjunto de medidas visou diminuir os riscos radiológicos e químicos para a
população e para os ecossistemas locais, garantindo condições mais seguras de uso
futuro do território.
A fase final do grande projeto de recuperação ambiental da antiga área mineira da
Urgeiriça foi inaugurada em 2021, simbolizando a conclusão formal do plano diretor de
reabilitação.
Paralelamente, parte da área requalificada começou a ser reconvertida par a novos
usos, incluindo a criação de um complexo de lazer e desporto, que representa a
tentativa de transformar um lugar marcado pela exploração intensiva e pela
contaminação num espaço de usufruto público e de integração na paisagem
envolvente.
Atualmente, a Urgeiriça integra também o Roteiro das Minas e Pontos de Interesse
Mineiro e Geológico de Portugal, sendo tratada como um local de memória industrial e
mineira, com valor educativo, científico e turístico, onde se pode compreender tanto a
importância económica e estratégica da exploração de urânio como os seus custos
sociais e ambientais.
O património industrial mineiro constitui um elemento fundamental da memória coletiva
nacional e regional, carregando consigo não apenas o testemunho de uma atividad e
económica relevante, mas também o sacrifício humano e ambiental que lhe esteve
associado.
A preservação desta memória, através da criação de espaços dedicados à valorização
da história mineira e ao reconhecimento das suas vítimas, constitui uma
responsabilidade do Estado para com as comunidades afetadas e para com a
sociedade portuguesa no seu conjunto.
A criação de um Memorial das Vítimas da Radioatividade e de um Centro Interpretativo
da área mineira da Urgeiriça, em articulação com a Associação dos ex -Trabalhadores
das Minas de Urânio e as autarquias locais, permitirá não apenas honrar e salvaguardar
a herança histórica da atividade mineira, mas também promover o estudo, a
investigação científica e a divulgação pública do património arqueológico indust rial,
enquadrado à escala nacional e atendendo aos seus impactos regionais e locais.
Trata-se de assegurar que a memória operária e mineira seja preservada, que as
vítimas da exposição à radioatividade sejam reconhecidas e que o conhecimento sobre
os impactos e efeitos da exploração de urânio em território nacional seja aprofundado
e transmitido às gerações futuras, contribuindo para a educação patrimonial e para o
fortalecimento da ligação entre as comunidades e os espaços do património.
Assim, ao abrigo d as disposições regimentais e constitucionais aplicáveis, os
Deputados abaixo-assinados apresentam o seguinte projeto de resolução:
A Assembleia da República resolve, nos termos do disposto no n.º 5 do artigo 166.º da
Constituição da República Portuguesa, recomendar ao Governo que desenvolva os
estudos e articule uma estratégia integrada entre os serviços do Estado, as autarquias
locais e a Associação dos ex -Trabalhadores das Minas de Urânio que conduza à
promoção da criação de um Memorial das Vítimas da Exposição à Radioatividade e de
um Centro Interpretativo da área mineira da Urgeiriça.
Palácio de S. Bento, 19 de março de 2026
As Deputadas e os Deputados
Armando Mourisco
Elza Pais
Paulo Lopes da Silva
Aida Carvalho
Dália Miranda
Hernâni Loureiro
Margarida Afonso
Pedro Delgado Alves
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