Documento integral
Projeto de Resolução n.º 245/XVII/1.ª
Recomenda a valorização dos bombeiros
das Associações Humanitárias de Bombeiros
Exposição de motivos:
As Associações Humanitárias de Bombeiros desempenham um papel fundamental na
proteção e apoio às comunidades, assegurando respostas rápidas e eficazes em situações
de emergência. O trabalho desenvolvido pelos corpos de bombeiros destas associações,
constituídas por profissionais e/ou voluntários, constitui um verdadeiro serviço de cidadania
e solidariedade, garantindo cuidados essenciais em cenários de incêndio, acidentes,
catástrofes naturais ou emergências de saúde. A dedicação e a entrega destas mulheres e
homens reforçam o sentido de comunidade e traduzem-se numa resposta vital para a
coesão social e para o bem-estar das populações. Acresce que nas regiões do interior e em
áreas mais desertificadas, onde muitas vezes os recursos e serviços de proximidade são
limitados, a presença destas associações e dos corpos de bombeiros é ainda mais decisiva,
representando uma rede de segurança indispensável para a salvaguarda de vidas
humanas, de bens e do património natural.
Todos os anos o país acompanha e reconhece a enorme importância dos bombeiros das
Associações Humanitárias de Bombeiros no combate aos fogos rurais. Esta atividade tem
um impacto físico e psicológico nos bombeiros - profissionais e voluntários - com elevados
riscos para a saúde a curto, médio e longo prazo, além do risco acrescido de acidentes de
trabalho, por comparação com a restante população, incluindo “ameaça efetiva de vida”,
conforme evidencia o Manual de Promoção da Saúde para os Bombeiros Portugueses, da
responsabilidade da Direção-Geral da Saúde1.
Os relatórios da Comissão Técnica Independente, criada na sequência dos incêndios de junho 2
e outubro 3 de 2017, identificaram problemas e propuseram soluções tendo em vista a
reorganização estrutural do setor operacional dos bombeiros. Especificamente para as
Associações Humanitárias de Bombeiros, identificaram constrangimentos estruturais
relacionados com a “redução irreversível do regime de voluntariado que atualmente se verifica
1 Promoção De Um Estilo De Vida Saudável Nos Bombeiros Portugueses, Direção-Geral da Saúde, Lisboa, 2018, pág. 8.
2 Análise e apuramento dos factos relativos aos incêndios que ocorreram em Pedrogão Grande, Castanheira de Pera, Ansião,
Alvaiázere, Figueiró dos Vinhos, Arganil, Góis, Penela, Pampilhosa da Serra, Oleiros e Sertã, entre 17 e 24 de junho de 2017.
Comissão Técnica Independente. Assembleia da República. Lisboa. 2017. 297 pp.
3 Avaliação dos incêndios ocorridos entre 14 e 16 de outubro de 2017 em Portugal Continental. Relatório Final.Comissão
Técnica Independente. Assembleia da República. Lisboa. 2018. 274 pp.
e a complexidade dos incêndios rurais, com características cada vez mais extremas”,
considerando que esta realidade “deveria[m] obrigar a uma maior profissionalização,
abrangendo os diversos setores de intervenção destes corpos, com especial incidência na
proteção de pessoas e bens”. O documento aconselha a administração local a adotar
soluções intermunicipais que permitiriam “estabilizar corpos qualificados vocacionados para
a intervenção, associados às ações de prevenção estrutural e inseridos em ambientes
profissionais”4. A Comissão Técnica Independente propõe ainda a criação de uma Unidade
de Missão para a Elaboração de Proposta de Reorganização Estrutural do Setor
Operacional de Bombeiros, à qual, entre outras competências, caberia:
● a caracterização das atribuições de Comando Operacional em operações de
proteção civil, a nível nacional, distrital e municipal;
● identificar o modelo de financiamento da estrutura de socorro confiado a bombeiros;
● definir os perfis funcionais e os modelos de qualificação e recrutamento dos cargos
de comando;
● estabelecer as carreiras profissionais;
● a incorporação de conhecimento técnico e científico5.
Enquanto não se avança com a reorganização do setor operacional dos bombeiros é, pois,
elementar proceder ao reconhecimento e valorização de quem exerce esta atividade. Nessa
senda, em outubro de 2024, a Assembleia da República aprovou na generalidade o
reconhecimento da profissão de bombeiro como de risco e de desgaste rápido 6 para os
trabalhadores da Administração Pública, iniciativa que caducou com o fim antecipado da
legislatura. Entretanto, na atual legislatura, o LIVRE apresentou novo projeto de lei no sentido de
reconhecer a profissão como sendo de desgaste rápido, permitindo o acesso antecipado à
pensão de velhice e a atribuição de um subsídio de penosidade, risco e insalubridade.
Ainda em dezembro de 2024, o Governo, na sequência da reivindicação de associações e
sindicatos do setor, constituiu um grupo de trabalho com a missão de elaborar uma proposta
relativa à carreira dos bombeiros integrados de forma profissional nos corpos de bombeiros
das associações humanitárias de bombeiros; aos benefícios e às regalias dos bombeiros
integrados de forma voluntária nestas entidades e à sua formação. O Despacho n.º
14758/2024, de 13 de dezembro, que o criou, determinava igualmente que o grupo de
trabalho deveria apresentar ao Secretário de Estado da Proteção Civil um relatório final,
com as conclusões do seu trabalho e a formulação de propostas, no prazo de 60 dias após
a sua constituição. Desconhece-se a composição efetiva deste grupo de trabalho ou se
alguma vez reuniu, sabendo-se apenas que o relatório nunca foi apresentado.
A publicação deste documento seria muito relevante para clarificar e orientar o caminho a
seguir na valorização e profissionalização dos bombeiros integrados nas associações
humanitárias, garantir direitos e condições dignas para os bombeiros voluntários e permitir a
implementação de medidas estruturais que reforcem a eficácia, segurança e
sustentabilidade dos corpos de bombeiros em Portugal.
4 Ibidem, pág. 12.
5 Ibidem, pág. 234.
6 Parlamento aprova reconhecimento da profissão de bombeiro como de desgaste rápido | Diário de Notícias
O facto é que o país volta, uma vez mais, a assistir ao drama dos fogos rurais combatidos
com o extraordinário esforço destas mulheres e homens que não têm sido objeto da justa
atenção e reconhecimento - o que urge.
Assim, ao abrigo das disposições constitucionais e regimentais aplicáveis, o Grupo
Parlamentar do LIVRE propõe à Assembleia da República que, através do presente
Projeto de Resolução, delibere recomendar ao Governo que:
1. Publique, com urgência, a composição do Grupo de Trabalho, dotando-o dos meios
necessários para que elabore e conclua o relatório a que se refere o Despacho n.º
14758/2024, de 13 de dezembro;
2. Implemente medidas para valorizar os bombeiros profissionais e voluntários das
Associações Humanitárias de Bombeiros, após a análise das conclusões do relatório
elaborado pelo Grupo de Trabalho, com o objetivo de:
a. regulamentar a carreira dos bombeiros integrados de forma profissional nos
corpos de bombeiros das Associações Humanitárias de Bombeiros;
b. rever os benefícios e regalias dos bombeiros voluntários;
c. definir os requisitos e critérios de formação de todos os bombeiros integrados
nos corpos de bombeiros nas Associações Humanitárias de Bombeiros.
Assembleia da República, 22 de agosto de 2025
As Deputadas e os Deputados do LIVRE
Isabel Mendes Lopes Filipa Pinto
Jorge Pinto Patrícia Gonçalves
Paulo Muacho Rui Tavares
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