Documento integral
1
Projeto de Resolução n.º 887/XVII/1.ª
Recomenda ao Governo a inclusão dos profissionais de saúde entre os destinatários
das casas de função previstas na Nova Estratégia para a Habitação
Exposição de motivos
No âmbito da conferência “Futuro da Saúde na Europa”, o Diretor Regional para a
Europa da Organização Mundial da Saúde (OMS) apontou a escassez de profissionais de
saúde como um desafio crítico e comum a toda a Europa. Acrescentou que a retenção
destes profissionais não é uma questão que passe necessariamente por aumentar
salários, dando o exemplo da criação de condições de trabalho dignas, maior
flexibilidade de horários e respostas adequadas de apoio e acompanhamento aos filhos
dos trabalhadores, como medidas concretas e muitas vezes subvalorizadas que podem
ter um impacto profundo1.
Se focarmos esta análise em determinadas zonas do país, o problema agrava e traduz -
se em desigualdades persistentes com consequências no acesso dos cidadãos aos
cuidados de saúde. Um estudo do PLANAPP2 (Centro de Planeamento e de Avaliação de
Políticas Públicas) sobre disparidades regionais na distribuição de médicos especialistas
no Serviço Nacional de Saúde (SNS) , evidenciou o agravamento des tas desigualdades,
identificando carências particularmente graves em algumas áreas da Grande Lisboa, no
Alentejo e no Algarve.
Em 2025, no primeiro concurso para médicos de Medicina Geral e Familiar, apenas 231
dos 585 lugares disponibilizados foram ocupados, o que corresponde a uma t axa de
ocupação de 39%. Em algumas unidades de saúde, como é o caso do Alto Alentejo,
nenhuma vaga foi preenchida e no Algarve ficaram por ocupar 21 das 34 vagas
disponíveis3. Já na segunda época do referido concurso, em dezembro de 2025, apenas
1 https://healthnews.pt/2026/01/23/falta-de-profissionais-atinge-sistemas-de-saude-em-toda-a-europa-alerta-diretor-da-oms/
2 https://www.planapp.gov.pt/disparidades-regionais-distribuicao-medicos-especialistas-sns/
3 https://rr.pt/noticia/pais/2025/06/23/apenas-231-dos-389-novos-medicos-de-familia-escolheram-uma-vaga-no-sns/430169
2
50 das 142 vagas abertas para Medicina Geral e Familiar foram preenchidas, ou seja
mais de 60% das vagas ficaram por preencher4.
Outro indicador que merece atenção é o número de utentes sem Médico de Família ,
que atingiu, em junho de 2025 , 1.669,681, o valor mais el evado de todo o ano 5. A
tendência mantém-se em 2026, com o mês de janeiro, o último com dados disponíveis,
a manter-se com valores acima de um milhão e seiscentos mil utentes sem Médico de
Família atribuído.
Este cenário reflete falhas estruturais negligenciadas pelos sucessivos Governos, quer
na fixação e retenção d e profissionais, quer no desenvolvimento de medidas
direcionadas, numa estratégia integrada que responda de forma efetiva à realidade e às
dificuldades dos profissionais.
A Ordem dos Médicos partilha esta preocupação e alerta que a falta de médicos é hoje
um dos maiores desafios do Serviço Nacional de Saúde, comprometendo “a capacidade
de resposta, a qualidade dos cuidados e o acesso em tempo adequado”, e defende a
adoção de soluções integradas, num “plano assente em melhores condições de
trabalho, modelos de gestão com autonomia, uma carreira médica única e transversal,
incentivos atrativos para zonas carenciadas e uma forte aposta na formação contínua e
na investigação”.6
Também a Ordem dos Enfermeiros aponta para uma carência estimada de cerca de 14
mil enfermeiros e uma elevada incapacidade do SNS para atração e retenção destes
profissionais, sendo a falta de habitação um dos principais problemas identificados pela
Ordem, que já propôs ao Governo a criação de incentivos à fixação, nomeadamente
subsídios de renda7.
4 https://www.dn.pt/sociedade/mais-de-60-das-vagas-por-preencher-em-medicina-geral-e-familiar
5 Utentes Inscritos em Cuidados de Saúde Primários — Transparência
6 https://ordemdosmedicos.pt/ordem-dos-medicos-propoe-solucoes-para-atrair-e-fixar-medicos
7 https://www.ordemenfermeiros.pt/media/41354/hospitais-t%C3%AAm-340-camas-fechadas-por-falta-de-enfermeiros-
observa_15111981-observadorpt.pdf
3
O Governo tem igualmente reconhecido esta realidade, nomeadamente através dos
Despachos8 que identificam zonas geográficas qualificadas como carenciadas para
efeitos da atribuição de incentivos ao procedimento de recrutamento de pessoal
médico, contudo, a persistência e, em alguns casos, o agravamento das carências
demonstram que as medidas não têm sido capazes de contrariar o problema com
eficácia.
Neste contexto, as casas de funç ão9 readquirem atualidade e pertinência como
instrumento de política pública. Em 2023, o então Vice-Presidente da Associação
Nacional de Municípios Portugueses defendia a recuperação deste modelo como
resposta concreta à falta de profissionais em áreas ess enciais como a saúde,
sublinhando o caso do Algarve e a necessidade de atribuir aos municípios incentivos à
criação das casas de função10.
A estratégia apresentada pelo Governo, “ Construir Portugal: uma Nova Estratégia para
a Habitação ”11, faz referência exp ressa à oferta de casas de função para algumas
profissões, entre as quais professores, forças de segurança, trabalhadores agrícolas,
industriais e setor do turismo. Este reconhecimento da utilidade do instrumento torna
ainda mais pertinente igual preocupação para os profissionais de saúde.
Fica, assim, claro que a resposta pública continua a falhar na criação de condições
específicas de fixação de profissionais de saúde, sobretudo nos territórios mais
vulneráveis. A solução pode e deve assentar numa priorid ade estratégica de
aproveitamento do património público devoluto ou subutilizado, em estreita articulação
com as autarquias , num desafio político que exige coragem, visão estratégica e
planeamento de longo prazo para enfrentar um dos maiores riscos sistémi cos para a
sustentabilidade e a equidade no acesso aos cuidados de saúde.
8 https://diariodarepublica.pt/dr/detalhe/despacho/4741-a-2025-915381319
9 https://diariodarepublica.pt/dr/detalhe/decreto-lei/280-2007-637402
10 https://www.jn.pt/opiniao/artigo/casas-de-funcao-o-regresso-ao-futuro/16078977
11 https://www.portugal.gov.pt/pt/gc24/comunicacao/noticia?i=construir-portugal-uma-nova-estrategia-para-a-habitacao
4
Assim, pelo exposto e nos termos constitucionais e regimentais aplicáveis, os Deputados
do Grupo Parlamentar do CHEGA recomendam ao Governo que:
- Adote as medidas necessárias à inclusão d os profissionais de saúde,
nomeadamente médicos, enfermeiros, técnicos e todos os profissionais cuja
escassez comprometa o acesso a cuidados de saúde, entre os destinatários das casas
de função previstas na Nova Estratégia para a Habitação, com prioridade para os
territórios carenciados, de baixa densidade ou com especiais dificuldades na fixação
destes profissionais.
Palácio de São Bento, 28 de abrl de 2026
Os Deputados do Grupo Parlamentar do CHEGA
Abrir texto oficial