Documento integral
Projeto de Resolução n.º 668/XVII/1.ª
Recomenda ao Governo o reforço da ação social no ensino superior e medidas de
combate ao abandono estudantil
Exposição de motivos
O acesso e a frequência do ensino superior constituem um elemento central para o
desenvolvimento económico, científico e social do país. A Constituição da República
Portuguesa consagra, nos artigos 73.º e 76.º, o direito à educação e determina que o
Estado deve garantir a igualdade de oportunidades no acesso ao ensino e promover a
qualidade do sistema de ensino.
Todavia, a realidade vivida por muitos estudantes portugueses revela que as condições
económicas continuam a constituir um obstáculo significativo à frequência do ensino
superior. O aumento generalizado do custo de vida, particularmente nas grandes áreas
metropolitanas e nas principais cidades universitárias, tem agravado substancialmente as
despesas associadas à frequência de um curso superior, designadamente em matéria de
alojamento, transportes e alimentação.
Nos últimos anos tem -se verificado uma quebra significativa no número de candidatos
ao ensino superior em Portugal, realidade que constitui um sinal preocupante para o
futuro do país. No concu rso nacional de acesso de 2025 candidataram -se 48 718
estudantes na primeira fase, o que representa menos 16,4% do que no ano anterior,
constituindo um dos valores mais baixos da última década1.
Paralelamente, foram disponibilizadas mais de 55 000 vagas no ensino superior público,
tendo sido colocados 43 899 estudantes na primeira fase, o que deixou mais de 11 500
vagas por preencher. Estes dados demonstram que o principal problema do sistema não
1 Cf.: https://www.sabado.pt/portugal/detalhe/cursos-sem-candidatos-no-ensino-superior-condicoes-
de-acesso-foram-substancialmente-agravadas
reside na falta de vagas, mas sim nas dificuldades económicas que condicionam o acesso
e a frequência do ensino superior.
Este fenómeno não pode ser dissociado do agravamento das condições económicas que
hoje afetam milhares de jovens e famílias portuguesa s. A escalada dos preços da
habitação nas cidades universitárias, os custos de deslocação e o aumento generalizado
do custo de vida têm vindo a tornar cada vez mais difícil o acesso e a permanência no
ensino superior.
De acordo com diversos estudos e relat órios recentes, o custo médio mensal suportado
por um estudante deslocado pode ultrapassar os 900 euros 2, valor que excede o salário
mínimo nacional e que representa um esforço incomportável para muitas famílias
portuguesas3.
Dados divulgados no âmbito do Plano Nacional para o Alojamento no Ensino Superior
(PNAES) indicam que , em 2024, a oferta pública cobr iu apenas cerca de 32% das
necessidades existentes, estimando -se que sejam necessárias cerca de 75 000 camas
adicionais para responder à procura atual de estudantes deslocados e, em 2025, só 13%
das camas previstas estão concluídas.
Esta insuficiência da oferta pública obriga a maioria dos estudantes a recorrer ao
mercado privado de arrendamento, onde os preços têm registado aumentos
significativos. Em 20 24, o preço médio de um quarto para estudantes atingiu cerca de
397 euros mensais – e mais de 400 euros em 2025, podendo mesmo ultrapassar os 700
euros em Lisboa - valores particularmente elevados para estudantes que dependem do
apoio das suas famílias ou de bolsas de estudo.
Apesar da existência de programas públicos destinados a aumentar a oferta de
alojamento estudantil, a execução das medidas previstas tem enfrentado atrasos
2 Cf.: https://www.jornaldenegocios.pt/economia/educacao/detalhe/estudar -no-ensino-superior-custa-
em-media-900-euros-por-mes
3 Para uma análise completa das despesas e custos de vida dos estudantes: Martins, S.C. (Coord.), B.
Machado, e R. Mauritti (2024), Inquérito às Condições Socioeconómicas e de Estudo dos Estudantes do
Ensino Superior, 2023, Lisboa, CIES_Iscte e DGES- Ministro da Educação, Ciência e Inovação, pp.53 a 82.
significativos, mantendo-se uma forte pressão sobre o mercado de arrendamento esobre
o orçamento das famílias.
Por outro lado, estudos sobre o sistema de ação social no ensino superior indicam que as
bolsas de estudo atualmente atribuídas cobrem apenas uma fração das despesas reais
dos estudantes, estimando -se que representem cerca de 20% do custo total de
frequência4.
Este contexto tem contribuído para o aumento das taxas de abandono no ensino
superior, particularmente nos primeiros anos de frequência, comprometendo a
mobilidade social e o desenvolvimento de capital humano qualificado.
Assim, o Grupo Parlamentar do CHEGA entende que o debate sobre o acesso ao ensino
superior não pode limitar -se a uma abordagem meramente quantitativa baseada no
aumento do número de vagas disponíveis, como já vimos ser intenção deste Governo. A
verdadeira prioridade deve residir na criação de condições económicas e sociais que
permitam aos estudantes ingressar, permanecer e concluir os seus estudos com sucesso.
O reforço da ação social escolar, o aumento da oferta de alojamento estudantil e a
redução do s custos de mobilidade constituem , portanto, instrumentos fundamentais
para garantir um acesso verdadeiramente equitativo ao ensino superior.
Importa igualmente assinalar que o Governo tem vindo a desenvolver uma proposta de
reforma do sistema de ação social no ensino superior, com o objetivo de criar um modelo
considerado mais justo e adaptado às condições económicas dos estudantes. A proposta
apresentada pelo Ministério da Educação, Ciência e Inovação pretende ajustar os apoios
sociais ao custo real de estudar, tendo em conta, e bem, fatores como o custo de vida no
concelho onde o estudante frequenta o ensino superior, o rendimento efetivo das
famílias e a situação específica dos estudantes deslocados.
4 Cf.: https://www.dn.pt/sociedade/valor-real-das-bolsas-no-superior-caiu-na-%C3%BAltima-
d%C3%A9cada-e-s%C3%B3-chega-para-20-das-despesas
Entre as medidas anunciadas inclui -se a reformulação d o cálculo das bolsas de estudo,
procurando alinhar o valor dos apoios com o custo real da frequência do ensino superior,
bem como a criação de novos instrumentos de apoio dirigidos aos estudantes
economicamente mais vulneráveis. Foi igualmente proposta a a tribuição de uma bolsa
de incentivo anual de cerca de 1 045 euros 5 para estudantes provenientes de famílias
com menores rendimentos, com o objetivo de apoiar a transição para o ensino superior
e reduzir os riscos de abandono nos primeiros anos de frequência.
Esta discussão sobre a reforma da ação social no ensino superior assume particular
relevância num contexto em que diversos estudos têm identificado limitações no sistema
atualmente em vigor, nomeadamente no que respeita à adequação do valor das bolsas
às despesas efetivamente suportadas pelos estudantes e às diferenças de custo de vida
entre regiões. A proposta apresentada pelo Governo surge, assim, como resposta a
diagnósticos que apontam para a necessidade de tornar o sistema mais progressivo, mais
transparente e mais ajustado às condições reais de frequência do ensino superior , mas
não está a resolver, de facto, um problema que não é novo e tenderá a aprofundar-se.
Para o Grupo Parlamentar do CHEGA, a discussão em torno da reforma da ação social no
ensino superior reveste-se de particular importância estratégica. O ensino superior deve
continuar a afirmar -se como uma instituição de mobilidade social, capaz de garantir
oportunidades reais de acesso a todos os jovens com mérito e vontade de prosseguir
estudos, independentemente da sua origem socioeconómica, mas também no quadro da
internacionalização e exportação de conhecimento, desde logo através de alunos
portugueses. É por isto, também, que assegurar o acesso ao ensino superior não é
suficiente. É i gualmente essencial garantir condições efetivas de permanência e de
sucesso académico ao longo de todo o percurso formativo.
Assim, qualquer reforma do sistema de ação social no ensino superior deve ser orientada
não apenas para o alargamento formal do acesso, mas sobretudo para a garantia de um
5 Cf.: https://www.rtp.pt/noticias/pais/governo-quer-ajustar-bolsas-ao-custo-de-vida-e-atribuir-extra-a-
alunos-carenciados_n1702409
acesso de qualidade, assente em condições reais de permanência e sucesso académico.
Garantir que nenhum estudante abandona o ensino superior por falta de meios
económicos deve constituir uma prioridade central das políticas públicas nesta área.
Nestes termos, torna-se necessário adotar medidas concretas que reforcem as condições
económicas de frequência do ensino superior e contribuam para reduzir o abandono
estudantil por razões financeiras.
Assim, nos termos constitucionais e regimentalmente aplicáveis, os Deputados do Grupo
Parlamentar do CHEGA, recomendam ao Governo que:
1. Reforce os mecanismos de ação social escolar no ensino superior, garantindo que
os apoios atribuídos aos estudantes acompanhem a evolução re al do custo de vida,
designadamente no que respeita às despesas com alojamento, alimentação e
transportes.
2. Promova a revisão dos critérios de elegibilidade e dos procedimentos de
atribuição das bolsas de estudo, de forma a simplificar os processos admin istrativos e a
assegurar maior previsibilidade e rapidez na atribuição dos apoiose evitando atrasos que
prejudiquem o início do ano letivo.
3. Acelere a execução do Plano Nacional para o Alojamento no Ensino Superior
(PNAES), garantindo o aumento efetivo da oferta pública de residências estudantis nas
regiões onde se verificam maiores carências.
4. Proceda ao levantamento e mobilização do património público devoluto ou
subutilizado, com vista à sua reconversão em residências para estudantes do ensino
superior, através de programas de reabilitação e de parcerias institucionais.
5. Promova a articulação entre o Estado, as instituições de ensino superior e as
autarquias locais, com vista à criação de soluções locais de alojamento estudantil a preços
acessíveis.
6. Estabeleça mecanismos de apoio à mobilidade dos estudantes do ensino superior,
designadamente através de programas de cooperação com as autarquias e autoridades
metropolitanas de transportes.
7. Avalie a implementação de regimes de gratuitidade ou forte redução tarifária dos
transportes públicos para estudantes do ensino superior, nomeadamente através da
isenção do pagamento do título de transporte para estudantes de licenciatura residentes
ou a estudar em áreas metropolitanas com elevado custo de vida.
8. Desenvolva um plano nacional de prevenção do abandono no ensino superior,
identificando as principais causas económicas e sociais associadas ao fenómeno e
definindo medidas específicas para a sua mitigação.
Palácio de São Bento, 6 de Março de 2026
Os Deputados do Grupo Parlamentar do CHEGA
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