Documento integral
Projeto de ResoluçãoN.º 708/XVII/1.ª
Recomenda ao Governo a substituição do Sistema Integrado de Redes de Emergência e
Segurança de Portugal (SIRESP)
Exposição de motivos
O Sistema Integrado de Redes de Emergência e Segurança de Portugal (SIRESP) é a rede
exclusiva de comunicações do Estado português destinada a assegurar o comando,
controlo e coordenação das comunicações em situações de emergência e de segurança,
servindo um vasto conjunto de entidades, designadamente as forças de segurança,
bombeiros, proteção civil, emergência médica e outras estruturas operacionais
essenciais.1 Apesar da relevância estratégica desta infraestrutura para toda a sociedade,
a história do SIRESP tem sido marcada, já desde a sua origem, por sucessivas polémicas,
elevados encargos públicos, dúvidas quanto ao modelo de gestão adotado, dependências
tecnológicas relevantes e repetidas falhas operacionais em momentos particularmente
críticos.
Já em agosto de 2016, no incêndio nos concelhos de Abrantes e do Sardoal, um relatório
do Ministério da Administração Interna confirmou que o sistema de comunicações de
emergência sofreu perturbações cuja normalização demorou dezassete horas.2 Em junho
e outubro d e 2017, nos trágicos incêndios que provocaram a morte de mais de cem
pessoas, o SIRESP esteve inoperacional durante dezenas de horas nos próprios teatros de
operações. 3
Estes episódios obrigaram a investimentos avultados em medidas de reforço,
nomeadamente a instalação de 451 antenas de satélite e 18 unidades de redundância
elétrica, bem como a nacionalização da empresa em dezembro de 2019, com a aquisição
pelo Estado dos restantes 67% do capital social por cerca de 7 ,9 milhões de euros,
1 https://www.siresp.pt/
2 SIRESP. Sistema de comunicações falhou no ano passado
3 Falhas no SIRESP. Comunicações bloquearam durante 14 horas e meia
operação que o próprio Tribunal de Contas considerou não ter sido precedida de estudos
ou fundamentação técnica adequada em termos de análise custo -benefício.4 Porém, os
acontecimentos mais recentes vieram demonstrar, de forma inequívoca, que os
investimentos realizados e as medidas corretivas adotadas não foram suficientes para
resolver os problemas de fundo.
O SIRESP continua assente numa arquitetura baseada na tecnologia TETRA (Terrestrial
Trunked Radio), solução que, embora tenha desempenhado durante anos um papel
relevante nas comunicações críticas, encontra -se hoje manifestamente limitada face às
exigências operacionais contemporâneas, designadamente no que respeita à
transmissão integrada de dados, imagem e vídeo, à escalabilidade do sistema, à
flexibilidade operacional e à capacidade de integração com soluções mais modernas e
resilientes. O Relatório e Contas de 2021 do SIRESP5 já afirmava que o sistema estava em
“fim de vida”, e que era necessário transitar rapidamente para as redes 4G e 5G para
evitar interrupções de serviço.
Entretanto, vários países têm vindo a evoluir para modelos de comunicações críticas
assentes em redes de banda larga, com maior capacidade tecnológica, melhor integração
de serviços e maior adaptabilidade a cenários de crise complexa. Portugal não pode
continuar preso a um sistema tecnologicamente envelhecido, operacionalmente
vulnerável e financeiramente oneroso, quando estão em causa funções absolutamente
essenciais à proteção de pessoas e bens.
Acresce que, mesmo após a passagem da empresa SIRESP, S. A., para o controlo integral
do Estado, e apesar da adjudicação, em 2022 e 2023, de um concurso internacional de
operação e manutenção da rede, lançado por 75 milhões de euros e concluído por 64
milhões, não foi assegurada a superação dos problem as de fundo que afetam esta
infraestrutura. Pelo contrário, os acontecimentos mais recentes voltaram a demonstrar
que subsistem limitações estruturais sérias.6
4 SIRESP já custou ao Estado mais de 556 milhões de euros até 2021
5 SIRESP - Relatório e Contas 2021
6 Reposição de antenas do SIRESP destruídas custa seis milhões de euros
As deficiências verificadas no contexto do apagão de abril de 2025, bem como os
constrangimentos operacionais reportados em janeiro deste ano, na sequência da
depressão Kristin, vieram novamente expor a fragilidade do sistema em situações em que
a sua fiabilidade deveria ser absoluta ou próxima desta. Num sistema desta natureza,
concebido para situações emergenciais, não basta funcionar em condições normais, tem
de resistir e continuar operacional nos m omentos críticos em que o País enfrenta
acontecimentos extremos, catástrofes naturais, falhas energéticas generalizadas ou
cenários de emergência múltiplos.
Neste seguimento, foi o próprio Governo que reconheceu , em 2025, a necessidade de
estudar a substituição urgente do SIRESP, admitindo que o sistema revelou limitações
estruturais e operacionais incompatíveis com as exigências atuais e com os próprios fins
para os que foi concebido. 7 Todavia, e apesar desse reconhecimento político, Portugal
continua sem uma solução de substituição concretizada, mantendo -se transitoriamente
dependente de um modelo cuja insuficiência e incerteza é já amplamente, e pelas piores
razões, sobejamente conhecida.
Não é aceitável que, depois de tantos anos de encargos avultados para o erário público,
num total que ultrapassa os 700 milhões de euros desde 2006,8 o Estado continue a adiar
uma decisão estratégica e essencial para a segurança interna, a proteção civil e a resposta
de emergência. O País precisa de um novo sistema nacional de comunicações de
emergência, segurança e proteção civil, tecnologicamente ava nçado, resiliente,
energeticamente autónomo, interoperável, seguro, redundante e plenamente adaptado
às necessidades operacionais do presente e do futuro.
Esse novo sistema deverá ser concebido com visão estratégica. Deverá garantir a
soberania operacional do Estado, a independência em relação a determinados
fornecedores, a capacidade de integração de comunicações de voz, dados e vídeo.
Deverá contar também com uma redundância robusta, cobertura nacional efetiva e, pelo
7 Despacho n.º 5274/2025, de 8 de maio
8 SIRESP já custou mais de 700 milhões de euros e agora vai ser reformulado
que vimos no recente "comboio de temp estades", uma cuida da e bem planeada
resistência a falhas de energia e de conectividade.
Assim, impõe-se que o Governo abandone definitivamente a lógica de mera remediação
do SIRESP e avance para a sua substituição planeada, faseada e urgente, através da
definição de um novo modelo de comunicações críticas do Estado, apto a responder às
exigências da segurança e da proteção civil em Portugal.
Assim, pelo exposto e ao abrigo das disposições constitucionais e regimentalmente
aplicáveis, os Deputados do Grupo Parlamentar do CHEGA recomendam ao Governo que:
1. Aprove, no prazo máximo de cento e vinte dias, um plano estratégico para a
substituição integral do Sistema Integrado de Redes de Emergência e Segurança de
Portugal por um novo Sistema Nacional de Comunicações de Emergência,
Segurança e Proteção Civil.
2. Este sistema deverá basear -se em tecnologias de banda larga de nova geração
(4G/LTE e 5G), com soberania operacional plena do Estado sobre a totalidade da
rede, incluindo a infraestrutura de transmiss ão, redundância diversificada
(terrestre, satelital e militar), autonomia energética prolongada das estações-base,
cobertura nacional efetiva e interoperabilidade entre todas as entidades
utilizadoras, definindo metas calendarizadas, modelo de governação e
enquadramento financeiro próprio.
Palácio de São Bento, 13 de março de 2026
Os Deputados do Grupo Parlamentar do CHEGA,
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