Documento integral
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Projeto de Resolução n.º 869/XVII/1.ª
Recomenda ao Governo a adoção de medidas urgentes para a conservação,
salvaguarda e valorização da Anta Grande do Zambujeiro, em Évora
Exposição de motivos
A Anta Grande do Zambujeiro, localizada nas imediações d a aldeia de Valverde, no
Município de Évora, constitui um dos mais relevantes e imponentes monumentos
megalíticos da Península Ibérica e da Europa, representando um testemunho
absolutamente excecional das comunidades neolíticas que habitaram o território
atualmente correspondente a Portugal há mais de cinco mil anos.1
Classificada como Monumento Nacional pelo Decreto -Lei n.º 516/71, de 22 de
novembro2, a Anta Grande do Zambujeiro integra o vasto complexo megalítico da região
de Évora, uma das mais importantes paisagens arqueológicas da Europa, onde se
incluem também outros sítios de reconhecido valor, como o Cromeleque dos
Almendres, constituindo um conjunto patrimonial de inequívoca relevância histórica ,
científica e identitária.3
Será de fazer notar que a Anta Grande do Zambujeiro é a maior a nta da Península
Ibérica4, constituindo um dos seus mais imponentes e complexos monumentos
megalíticos e distinguindo-se, não apenas pela sua escala, mas igualmente pela
sofisticação da sua estrutura arquitetónica.
1 Vide https://imovel.patrimoniocultural.gov.pt/detalhes.php?code=70498
2 Vide https://files.dre.pt/1s/1971/11/27400/17981799.pdf
3 Vide https://www.cm-evora.pt/en/60-anos-da-descoberta-do-cromeleque-dos-almendres-e-da-anta-
grande-do-zambujeiro-celebrados-com-exposicao-no-palacio-de-d-manuel/
4 Vide https://www.e-cultura.pt/patrimonio_item/8459
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Do ponto de vista arquitetónico e construtivo, este monumento é composto por uma
câmara funerária poligonal formada por sete esteios de granito de dimensões
excecionais5, alguns dos quais atingem cerca de oito metros de altura, sendo precedida
por um corredor com cerca de doze metros de comprimento.6
O conjunto encontrava -se originalmente coberto por uma mamoa de grandes
dimensões, o que reforça a monumentalidade e o impacto paisagístico da construção.
À data da escavação, em 196 4-1968, por Henrique Leonor Pina, o monumento
encontrava-se integralmente selado no interior da respetiva mamoa, sendo apenas
visíveis, à superfície, as cimalhas dos esteios, que emergiam no topo do cabeço que a
cobria, uma elevação artificial com cerca de 50 metros de diâmetro na base.
No decurso dos trabalhos arqueológicos foram exumados materiais de elevado valor
histórico e científico, representativos do universo cultural associado ao megalitismo da
região de Évora, incluindo placas de xisto com representação idoliforme, báculos,
elementos de adorno pessoal, artefactos metálicos em cobre e abundante cerâmica
característica das chamadas taças carenadas do Alentejo.7
Este conjunto contribuiu , de forma decisiva , para o conhecimento das práticas
funerárias e das expressões simbólicas das comunidades pré-históricas que ergueram o
monumento.
Importa, contudo, assinalar que os métodos de escavação então utilizados têm sido
objeto de apreciação crítica à luz dos padrões técnicos atuais, nomeadamente por não
terem assegurado, de forma adequada, a estabilização estrutural do monumento antes
da remoção da mamoa, que desempenhava uma função essencial de contenção e
suporte.
5 Vide https://www.antenalivre.pt/saude/o-granito-para-la-de-geologia
6 Vide http://www.monumentos.gov.pt/Site/APP_PagesUser/SIPA.aspx?id=1233
7 Vide https://www.chaia.uevora.pt/uploads/pdfs/5bf0b7478aabb5bb7ae3c19e1c95a6a8124af29b.pdf
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Em consequência, a estrutura ficou exposta a fatores de degradação, agravados pelo
significativo peso dos esteios e pela perda do equilíbrio proporcionado pelo
revestimento original.
Nestes termos, a Anta Grande do Zambujeiro apresenta, na atualidade, sinais evidentes
de fragilidade estrutural, decorrentes da exposição progressiva dos esteios que
compõem o monumento, em part icular ao nível do corredor de acesso , apresentando
fraturas em alguns dos esteios e fenómenos de alteração material, como a cristalização
de sais em determinados elementos pétreos.
Com efeito, as pedras verticais encontram -se atualmente desprovidas de par te
significativa do suporte original proporcionado pela mamoa, encontrando -se visíveis
quase até à base, circunstância que compromete a estabilidade do conjunto e agrava,
de forma gradual, o risco de desarticulação estrutural.8
Esta situação assim descrita traduz-se numa condição de vulnerabilidade crescente, na
medida em que a perda de contenção lateral e o peso considerável dos elementos
pétreos potenciam fenómenos de deslocação, fissuração e eventual colapso, caso não
sejam adotadas rapidamente as medidas de estabilização adequadas.9
Acresce que a solução de proteção provisória entretanto adotada, uma “[...] ridícula
estrutura metálica, de boa intenção, mas absolutamente incompatível com uma
envolvência equilibrada [...]”10, se revela desajustada do ponto de vista paisagístico e
patrimonial, não assegurando uma integração harmoniosa com o contexto envolvente
nem resolvendo, de forma estrutural, os problemas de conservação identificados.
Assim, n ão obstante este inequívoco valor patrimonial, científico e cul tural, a Anta
Grande do Zambujeiro apresenta, na atualidade, um estado de conservação
8 Vide https://www.publico.pt/2019/06/26/local/noticia/anta-dimensoes-evora-risco-colapso-1877723
9 Vide https://sapo.pt/artigo/anta-grande-do-zambujeiro-alguem-se-importa-em-evitar-a-queda-da-anta-
mais-alta-do-mundo-3495-689ca6024e03edf364021ec5
10 Vide http://www.monumentos.gov.pt/Site/APP_PagesUser/SIPA.aspx?id=1233
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preocupante, amplamente reconhecido por diversas fontes técnicas, institucionais e de
divulgação científica, evidenciando perda de integridade estrutural do monumento.11
Desta forma, verifica -se a necessidade de adoção de medidas de proteção física do
monumento, incluindo a instalação de estruturas de suporte e vedações, em virtude dos
riscos estruturais e de degradação progressiva , bem como do facto de o monumento
em apreço se encontrar em risco significativo de colapso e num estado de degradação
avançado, o que reforça a urgência de uma intervenção pública estruturada e eficaz.12
Importa, ainda, sublinhar que a degradação deste monumento não constitui um
fenómeno isolado, antes se inscrevendo num problema mais vasto das políticas públicas
de património, frequentemente marcadas por uma dissonância entre o reconhecimento
formal dos bens classificados e a efetiva capacidade de garantir a sua conservação
material, manutenção e valorização.
Esta realidade é particularmente grave quando se trata de um Monumento Nacional
com a relevância da Anta Grande do Zambujeiro, cuja dimensão científica, cultural e
identitária transcende largamente o plano local ou regional, assumindo u ma projeção
europeia e internacional.
Neste contexto, impõe -se uma atuação urgente, coordenada e eficaz por parte do
Governo, no sentido de assegurar não apenas a estabilização estrutural do monumento,
mas também a sua valorização, investigação contínua e integração numa estratégia mais
ampla de promoção do património megalítico nacional.
Assim, nos termos constitucionais e regimentalmente aplicáveis, os Deputados do
Grupo Parlamentar do CHEGA recomendam ao Governo que:
1 – Proceda, com carácter de urgência , à realização de um levantamento técnico
exaustivo e atualizado do estado de conservação da Anta Grande do Zambujeiro, em
11 Vide https://imovel.patrimoniocultural.gov.pt/detalhes.php?code=70498
12 Vide https://sicnoticias.pt/cultura/2019-07-06-Anta-Grande-doZambujeiroemEvora-emriscodecolapso
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Évora, incluindo a avaliação da estabilidade estrutural dos esteios, da câmara funerária
e do corredor de acesso.
2 – Elabore e imple mente, no prazo máximo de seis meses, um plano integrado de
intervenção para a conservação, estabilização e reabilitação do monumento,
contemplando, designadamente, as medidas de consolidação estrutural, a proteção
contra agentes atmosféricos e a mitigação de riscos de colapso.
3 – Assegure a afetação de financiamento específico, adequado e suficiente para a
execução das intervenções necessárias.
4 – Promova a articulação entre o Património Cultural, I.P., as entidades académicas e
científicas competentes, o Município de Évora e demais entidades relevantes,
garantindo uma intervenção coordenada, tecnicamente sustentada e eficaz.
5 – Desenvolva uma estratégia de valorização e divulgação da Anta Grande do
Zambujeiro, integrada numa política mais ampla de promoção do património megalítico
nacional, potenciando o seu valor científico, educativo e turístico.
Palácio de S. Bento, 20 de abril de 2026
Os Deputados do Grupo Parlamentar do CHEGA,
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