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Projecto de Resolução n.º 454/XVII/1.ª
Recomenda ao Governo que exerça um papel diplomático e de mediação determinante no
sentido do desanuviamento de tensões entre a República Popular da China e a República
da China (Taiwan)
Exposição de motivos
A ordem internacional vive uma conjuntura de crise profunda e agravamento generalizado
de tensões. Além da guerra espoletada pela invasão da Ucrânia pela Federação da Rússia e
da incerteza profunda quanto à estabilidade do Médio Oriente, numerosos outros fo cos de
conflito têm surgido: no Cáucaso, entre a Arménia e o Azerbaijão; em África, entre o Ruanda
e a República Democrática do Congo; no subcontinente indiano, entre a República da Índia e
da República Islâmica do Paquistão; no Sudeste Asiático, entre os reinos da Tailândia e do
Cambodja. É, contudo, o risco crescente de uma conflagração militar no Extremo Oriente,
entre a República Popular da China e a República da China (Taiwan), a constituir a ameaça
mais pungente à segurança e à prosperidade globais.
Os últimos anos têm testemunhado o agravamento inquietante da relação entre os governos
rivais de Pequim e Taipé. Sendo certo que esse estado de coisas não constitui novidade desde
que, como desfecho da Guerra Civil Chinesa, as forças do Partido Nacionalis ta da China
(Kuomintang) abandonaram o continente chinês e estabeleceram na Formosa o centro
político da República da China, não é menos claro que reacendimento das hostilidades nunca
pareceu tão próximo.
De facto, a Marinha e a Força Aérea do Exército Po pular de Libertação da República Popular
da China mantêm agora um cerco permanente sobre a Ilha da Formosa, situação inédita que
não permite dúvida quanto à seriedade da situação regional. A preocupação gerada por este
estado de coisas ficou recentemente a ssumida pela Primeira -ministra do Japão, Sanae
Takaichi, que afirmou junto da Dieta que a sobrevivência da República da China como
entidade autónoma de facto da República Popular da China constitui um “interesse vital” de
Tóquio.
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Com mais de quinhentos an os de presença no Extremo Oriente, Portugal foi a primeira
potência europeia a estabelecer relações diplomáticas regulares com a China, então
governada pela dinastia Ming. Portugal e a China foram construindo desde aí um modus
vivendi marcado pela quase in existência de confrontação directa e por um intenso
intercâmbio cultural de que Macau é apenas um de muitos exemplos.
Ao contrário de outros Estados participantes nos chamados “tratados desiguais” que tão
profundamente contribuíram para a abertura do perí odo que a China recorda como “Século
da Humilhação”, Portugal manteve com os diversos poderes chineses uma relação
pragmática, respeitosa e enriquecedora que tanto Pequim como Taipé conhecem e valorizam
até aos dias de hoje. Não é de somenos que Sun Yat Se n, o fundador da República da China
sediada na Formosa — mas lembrado também, por Pequim, como pai da China moderna —
tenha vivido exilado sob soberania e protecção portuguesa em Macau. A viúva de Sun, Lu
Muzhen, viveu em território português até à sua morte, em 1952.
Esta relação histórica singular, consolidada através de contactos comerciais, culturais e
diplomáticos de séculos, representa um legado que continua a projectar se na percepç ão
internacional de Portugal enquanto interlocutor respeitado e conhe cedor da realidade
chinesa. Importa, a esse propósito, recordar que Portugal teve presença directa na Formosa
no século XVI e preservou relações diplomáticas oficiais com Taiwan — a República da China
— até data tardia, já na década de 1970.
Juntamente co m a relação antiga entre Portugal e o Japão — Lisboa foi, também no caso
japonês, a primeira capital europeia a estabelecer contacto diplomático com o país — estas
realidades conferem -nos o estatuto invejável de potência histórica bem conhecida dos
principais actores da região. No Extremo Oriente, Portugal não é um “outsider” recém -
chegado e, pois, objecto de natural desconfiança; pelo contrário, fomos ao longo de meio
milénio um factor constante e permanente da vida regional.
Esta herança histórica única c oloca Portugal numa posição particularmente adequada ao
exercício de uma diplomacia de mediação discreta, imparcial e construtiva. De Lisboa não se
espera nem poderia esperar-se uma política de favoritismo ou sectarismo que malbarataria o
capital de confiança de que Portugal beneficia. Semelhante caminho seria um erro altamente
lesivo do interesse português. Porém, Portugal pode e deve colocar o prestígio plurissecular
de que goza o seu nome ao serviço de uma eficaz gestão de tensões regionais, facilitando o
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diálogo entre Pequim e Taipé e conduzindo ao desagravamento de posições e à desescalada
militar.
O comprometimento da diplomacia portuguesa com a causa do diálogo e da paz alinha -se
inteiramente com a nossa estratégia externa tradicional. Nação de presença global e vocação
universalista, Portugal retirou sempre importante dividendo da sua capacidade em servir de
ponte entre perspectivas, interesses e ambições antagónicas. Mantendo laços antigos com
todas as principais potências do Extremo Oriente e, ainda , enquanto aliado dos Estados
Unidos da América, membro-fundador da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN)
e parte da União Europeia, nada falta a Lisboa para que se afirme enquanto factor real de
desanuviamento de rivalidades internacionais. É o que se espera da acção deste Governo, no
melhor interesse da região e dos países envolvidos na crise.
Assim, diante dos motivos expostos e ao abrigo das disposições constitucionais e regimentais
aplicáveis, os Deputados do Grupo Parlamentar do CHEGA recomendam ao Governo que:
1. Lidere um esforço diplomático concertado e geral no sentido da promoção do diálogo
e da resolução pacífica das tensões existentes entre a República Popular da China e a
República da China (Taiwan), aproveitando o estatuto de Portugal enquanto potência
histórica de forma a facilitar o desanuviamento da tensão política e militar entre
ambas as partes;
2. Explore possíveis iniciativas diplomáticas de mediação, facilitação do diálogo ou
promoção de medidas promotoras de confiança mútua entre Pequim e Taipé, política
que deve implementar em articulação com parceiros internacionais relevantes e
outras partes interessadas como os Estados Unidos da América, a União Europeia, o
Estado do Japão, a Comunidade da Austrália, a República da Coreia, a República da
Índia, a República Socialista do Vietname, os principais Estados europeus, entre
outros.
Palácio de São Bento, 2 de Janeiro de 2025.
Os Deputados do Grupo Parlamentar do CHEGA,
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